A guerra na Ucrânia pode estar entrando em uma nova fase diplomática, na qual o controle de territórios deixaria de ser discutido isoladamente e passaria a fazer parte de uma negociação muito maior, envolvendo segurança militar, reconstrução econômica e o futuro das relações comerciais entre a Rússia e a Europa. Segundo uma reportagem publicada pelo colunista David Ignatius, do jornal americano The Washington Post, negociadores dos Estados Unidos trabalham em uma proposta de quatro pontos para tentar encerrar o conflito iniciado pela invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022.
A iniciativa foi discutida durante uma reunião realizada na Flórida, em 9 de outubro, organizada pelos enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner. Representantes da Ucrânia, Reino Unido, França e Alemanha participaram das conversas. Entretanto, nesta terça-feira (13), o assessor presidencial ucraniano Dmytro Lytvyn contestou a descrição da proposta como um plano conjunto entre americanos e europeus. Segundo ele, as ideias refletem a visão de alguns integrantes da equipe dos Estados Unidos, e não um acordo aprovado pelos governos envolvidos.
Essa diferença é importante porque revela o estágio das negociações. O plano ainda não foi formalizado, seus principais termos permanecem em discussão e não existe confirmação de que Moscou esteja disposta a aceitá-lo. Mesmo assim, os elementos apresentados permitem compreender como Washington pretende aproximar posições que continuam profundamente distantes.
O primeiro ponto envolve a reconstrução ucraniana. De acordo com a publicação americana, o Banco Mundial e a gestora de investimentos BlackRock participariam da elaboração de mecanismos financeiros destinados à recuperação das regiões destruídas, ao auxílio de famílias atingidas pela guerra e à retomada da economia. O desafio é gigantesco. Em fevereiro de 2026, uma avaliação conjunta do Banco Mundial, da União Europeia, da ONU e do governo ucraniano estimou em quase US$ 588 bilhões os recursos necessários para reconstrução e recuperação do país ao longo de dez anos.
A reconstrução também teria uma função diplomática. Para Kiev, recursos internacionais poderiam ajudar a recuperar infraestrutura e manter a economia funcionando após a guerra. Para Washington, o compromisso financeiro seria uma forma de tornar possíveis concessões politicamente difíceis. Entretanto, permanece uma questão fundamental: quem financiaria esse processo e quais mecanismos impediriam que os custos recaíssem principalmente sobre os países que já sustentam a Ucrânia?
O segundo ponto trata das garantias de segurança. A proposta prevê compromissos dos Estados Unidos e de países europeus para reagir militarmente caso a Rússia volte a atacar a Ucrânia. Um funcionário americano comparou o mecanismo ao artigo 5 da OTAN, princípio que considera um ataque contra um integrante da aliança como uma agressão a todos.
Mas existe uma diferença importante entre uma promessa semelhante ao artigo 5 e a entrada efetiva na OTAN. O tratado estabelece obrigações de assistência, embora cada aliado determine as medidas necessárias, que podem incluir o emprego de força militar. Uma garantia negociada fora da organização dependeria de suas próprias regras e compromissos. Portanto, a segurança ucraniana não estaria automaticamente resolvida apenas porque a proposta utiliza uma comparação com a aliança militar.
A preocupação tem raízes históricas. Em 1994, a Ucrânia abriu mão das armas nucleares herdadas da União Soviética em troca de garantias políticas de respeito à sua soberania, estabelecidas no Memorando de Budapeste. Duas décadas depois, em 2014, a Rússia ocupou e anexou a Crimeia, em uma ação não reconhecida internacionalmente pela maior parte dos países. Para Kiev, essa experiência demonstra por que promessas diplomáticas precisam ser acompanhadas de mecanismos concretos de proteção.
O terceiro ponto pode provocar uma transformação ainda maior nas relações econômicas europeias. A proposta considera restabelecer parte da integração energética entre Rússia, Ucrânia e Europa, possivelmente por meio de gasodutos e oleodutos cujas receitas seriam compartilhadas. O entendimento também definiria as condições para a retirada de sanções econômicas impostas a Moscou.
A lógica seria oferecer à Rússia benefícios financeiros em troca de um acordo de paz. Antes da invasão de 2022, o gás russo ocupava uma posição importante no abastecimento europeu. Essa dependência tornou a energia um instrumento de influência econômica e política. Quando o fornecimento foi reduzido, países europeus precisaram reorganizar contratos, buscar novos fornecedores e enfrentar custos elevados.
Entretanto, a proposta americana esbarra em uma mudança já aprovada pela União Europeia. Em janeiro de 2026, o bloco adotou regras para encerrar progressivamente as importações de gás russo, com proibições completas previstas para 2027. Reabrir esse mercado exigiria rever decisões políticas e jurídicas tomadas justamente para reduzir a dependência de Moscou. Além disso, a retirada das sanções europeias depende de decisões dos próprios Estados-membros, não apenas de um entendimento entre Washington e o Kremlin.
O último ponto envolve o território. A proposta prevê interromper os combates nas posições atualmente ocupadas pelas forças russas e ucranianas. Isso permitiria à Rússia manter, pelo menos inicialmente, o controle das áreas conquistadas, incluindo partes da região de Donbas. Na prática, a linha de batalha passaria a funcionar como uma divisão militar entre os dois lados, embora isso não significasse necessariamente reconhecer aquelas terras como território russo.
Essa distinção é decisiva. Congelar uma guerra não equivale a resolver a disputa territorial. Os acordos de Minsk, negociados em 2014 e 2015 após o início dos combates no leste ucraniano, já demonstraram as dificuldades de transformar uma trégua em solução política duradoura. A invasão em larga escala de 2022 revelou que a existência de compromissos diplomáticos anteriores não havia eliminado o risco de uma nova ofensiva.
Também existe uma diferença entre as concessões esperadas de cada lado. A Ucrânia teria de aceitar a continuidade do controle russo sobre territórios internacionalmente reconhecidos como ucranianos. Para Moscou, o compromisso envolveria interromper avanços militares e abandonar, ao menos naquele momento, objetivos territoriais ainda não alcançados. Não se trata, portanto, de uma troca territorial equivalente.
O momento da iniciativa também chama atenção. O presidente americano, Donald Trump, autorizou recentemente um acordo envolvendo diesel russo, enquanto Washington tenta convencer Kiev a suspender ataques contra refinarias da Rússia. Essas instalações representam uma fonte importante de receitas para Moscou. A tentativa de reduzir os ataques demonstra como os preços internacionais de energia passaram a influenciar diretamente a condução das negociações de paz.
O principal obstáculo continua sendo a confiança entre os envolvidos. Para a Ucrânia, aceitar um cessar-fogo sem proteção suficiente poderia permitir que a Rússia reorganizasse suas forças para uma ofensiva futura. Para Moscou, encerrar os combates mediante garantias militares ocidentais à Ucrânia poderia significar aceitar uma aproximação estratégica entre Kiev e seus adversários, justamente uma das questões que o Kremlin utiliza para justificar suas exigências de segurança.
A proposta revela, portanto, uma tentativa de transformar uma disputa territorial em um acordo econômico e militar mais amplo. A reconstrução seria oferecida à Ucrânia, a reintegração comercial beneficiaria a Rússia e as garantias de segurança tentariam impedir uma nova guerra.
A questão central é saber se esses benefícios seriam suficientes para superar o problema que sustenta o conflito: a incompatibilidade entre o direito da Ucrânia de preservar sua soberania e as exigências territoriais e estratégicas da Rússia. Sem uma resposta convincente, um cessar-fogo poderia interromper as mortes no presente sem necessariamente eliminar as condições para que a guerra recomece.