A possibilidade de realizar eleições presidenciais na Ucrânia, suspensas desde o início da invasão russa em larga escala, abriu uma nova disputa diplomática entre Kiev e Moscou. Neste domingo (11), o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que estaria disposto a organizar uma votação nacional caso a Rússia concordasse com um cessar-fogo completo de 60 dias. A resposta veio nesta segunda-feira (12), quando o Kremlin rejeitou a proposta, alegando que uma interrupção temporária dos combates não atenderia aos interesses de Moscou. O episódio acrescenta uma nova questão à guerra: quem terá condições de determinar o futuro político da Ucrânia enquanto o país permanece sob ataque?
A proposta foi apresentada durante uma entrevista ao programa This Week, da emissora americana ABC News. Zelensky respondeu às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que havia defendido a escolha de um novo líder ucraniano capaz de negociar um acordo com a Rússia. Em vez de descartar a possibilidade, Zelensky afirmou que o próprio povo deveria decidir quem ocupará a Presidência e condicionou a realização das eleições a uma pausa nos combates.
"Peçam a Putin dois meses, 60 dias de cessar-fogo total, e organizaremos eleições", declarou Zelensky, em tradução de sua entrevista. O presidente também afirmou estar preparado para aceitar qualquer escolha feita pelos eleitores ucranianos.
A resposta de Moscou foi diferente do que Kiev esperava. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que a Rússia não pretende aceitar uma trégua temporária e afirmou que o governo de Vladimir Putin busca uma solução definitiva para o conflito. Segundo ele, Moscou deseja uma "paz duradoura", e não uma suspensão limitada das operações militares.
Peskov também acusou as autoridades ucranianas de utilizarem a proposta eleitoral como justificativa para obter tempo de reorganização militar. Na avaliação apresentada pelo Kremlin, os 60 dias poderiam permitir que as forças de Kiev recuperassem equipamentos, reforçassem posições e se preparassem para continuar a guerra. Trata-se de uma acusação russa, não de uma intenção comprovada do governo ucraniano.
Apesar da rejeição, o porta-voz afirmou que Putin estaria disposto a ordenar a suspensão dos ataques russos especificamente no dia de uma eventual votação. A diferença é significativa. Enquanto Zelensky solicita dois meses sem combates para preparar e realizar o processo eleitoral, Moscou admite apenas a possibilidade de interromper seus próprios ataques durante o dia da eleição, sem anunciar uma trégua geral.
Para compreender essa divergência, é necessário observar como uma eleição funciona em um país que enfrenta uma guerra. Não basta abrir os locais de votação e distribuir cédulas. É preciso atualizar registros eleitorais, garantir o deslocamento dos cidadãos, permitir campanhas políticas, organizar a fiscalização e proteger eleitores e funcionários. Em condições normais, essas tarefas já exigem uma grande estrutura. Em um território parcialmente ocupado, com cidades destruídas e milhões de pessoas deslocadas, tornam-se consideravelmente mais difíceis.
A legislação ucraniana também representa um obstáculo. Desde fevereiro de 2022, quando a Rússia iniciou a invasão em larga escala, o país permanece sob lei marcial, regime que restringe determinadas atividades para permitir a mobilização nacional. O artigo 19 da legislação sobre esse regime proíbe a realização de eleições presidenciais, parlamentares e locais enquanto ele estiver em vigor.
Portanto, mesmo que Moscou aceitasse a proposta de Zelensky, uma pausa militar de 60 dias não autorizaria automaticamente a votação. Seria necessário resolver as restrições legais e estabelecer condições mínimas de segurança. O Parlamento ucraniano já criou grupos de trabalho para estudar essas dificuldades, incluindo mecanismos que permitam a participação de militares, refugiados no exterior e cidadãos que vivem em áreas próximas à linha de frente.
A situação também ajuda a explicar por que Zelensky continua na Presidência. Ele foi eleito em 2019 para um mandato de cinco anos, e a eleição seguinte deveria ter ocorrido em 2024. Entretanto, a Constituição ucraniana estabelece que o presidente permanece exercendo suas funções até a posse de seu sucessor. Isso diferencia a continuidade institucional prevista em lei da discussão política sobre a conveniência de realizar eleições durante a guerra.
Moscou, por outro lado, utiliza a ausência de uma nova votação para questionar a legitimidade de Zelensky. Ao exigir eleições, o governo russo procura colocar a continuidade de sua Presidência no centro das negociações. Essa posição cria uma contradição prática: ao mesmo tempo que questiona a falta de votação, o Kremlin rejeita a pausa de segurança solicitada por Kiev para organizá-la.
A proposta ucraniana também possui um significado diplomático. Ao oferecer a realização de eleições sob uma condição apresentada como necessária à segurança do processo, Zelensky responde às críticas de Washington sem assumir que uma votação possa acontecer imediatamente. A responsabilidade pela próxima decisão passa a envolver diretamente Putin, que precisa escolher entre aceitar ou rejeitar a interrupção dos combates.
Isso não significa que a proposta seja apenas uma manobra política. Há dificuldades eleitorais concretas que precisam ser resolvidas. Mas, na diplomacia, uma condição pode cumprir duas funções ao mesmo tempo: apresentar uma possibilidade de negociação e demonstrar publicamente quais obstáculos impedem sua realização.
O posicionamento americano torna essa situação ainda mais delicada. Trump tem pressionado Kiev a interromper ataques contra refinarias russas, atribuindo parte da alta dos combustíveis a essas operações. Washington também anunciou um entendimento sobre ataques à infraestrutura energética, mas Zelensky afirmou que não havia sido informado previamente dos termos e denunciou novos ataques russos a instalações ucranianas.
Esse contexto mostra como eleições, segurança energética e negociações de paz passaram a fazer parte da mesma disputa. Para Kiev, manter a capacidade de defesa é essencial enquanto não houver garantias de segurança. Para Moscou, preservar suas posições militares e negociar um acordo mais amplo continua sendo uma prioridade declarada. Já Washington tenta influenciar os termos das negociações enquanto enfrenta suas próprias pressões econômicas e políticas.
A principal consequência da rejeição russa é que a discussão eleitoral permanece sem um caminho definido. Nenhuma data foi estabelecida, as restrições legais continuam em vigor e não existe um acordo de cessar-fogo completo que permita organizar o processo.
O episódio demonstra que, na Ucrânia, a disputa pelo poder não ocorre apenas nas frentes de batalha. Ela também envolve o direito de escolher representantes, as condições necessárias para exercer esse direito e a influência de governos estrangeiros sobre o futuro político do país. A grande questão não é simplesmente quando os ucranianos voltarão às urnas, mas quais condições permitirão que todos os cidadãos tenham uma oportunidade real de decidir quem deverá governá-los.