Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia anunciaram que esperam assinar, na semana seguinte e durante a Assembleia Geral da ONU, um acordo para reforçar a segurança no Ártico e no Atlântico Norte. O anúncio reduz, ao menos por ora, uma disputa diplomática que havia sido agravada por ameaças de Donald Trump de comprar, anexar ou tomar a Groenlândia, inclusive pelo uso da força. Mas o entendimento ainda não foi assinado, não entrou em vigor e seu texto não é público.
Essa distância entre anúncio e acordo é o centro da questão. Trump apresentou o resultado como a obtenção de “controle permanente” dos Estados Unidos sobre a segurança e outras necessidades na Groenlândia. A formulação oficial de Copenhague e Nuuk descreve outra moldura: reforço da segurança comum com preservação da soberania e da integridade territorial do Reino da Dinamarca e do direito de autodeterminação do povo groenlandês.
As duas narrativas permitem a cada lado declarar ganho político, mas não comprovam a mesma coisa. A de Trump sugere autoridade americana duradoura sobre a segurança da ilha. A declaração dinamarquesa e groenlandesa sustenta uma cooperação de defesa sob soberania dinamarquesa, sem tratar a Groenlândia como objeto de transferência territorial. Até a divulgação dos termos, não há base para equiparar a retórica presidencial a uma mudança formal de controle sobre o território.
A segurança ártica tampouco começa do zero. Segundo a BBC, os Estados Unidos já têm presença militar em Pituffik, no noroeste da Groenlândia, com mais de cem militares, no marco da relação de defesa com a Dinamarca. Um funcionário não identificado do Departamento de Estado afirmou que o novo acordo incluiria acesso permanente, direitos de sobrevoo e estacionamento militar, além de restrições a bases e investimentos de países adversários. Essas disposições, porém, ainda não podem ser confrontadas com um texto oficial, nem se sabe como alterariam o acordo militar de 1951 entre Washington e Copenhague.
O mecanismo político em formação parece ser o de acomodar a demanda americana por maior liberdade operacional no Ártico sem romper a arquitetura formal de soberania defendida por Dinamarca e Groenlândia. Se essa acomodação se confirmar no documento final, Washington poderá ampliar sua posição estratégica por acordo, enquanto Nuuk e Copenhague preservarão a premissa de que qualquer cooperação ocorre sob seus direitos políticos e territoriais. Essa é uma inferência a partir das declarações públicas, não uma descrição dos termos ainda sigilosos.
A etapa decisiva virá depois da assinatura prevista. O acordo dependerá de procedimentos parlamentares para vigorar. A OTAN acolheu o anúncio e avaliou que ele pode promover segurança, estabilidade e cooperação regional, mas sua reação não substitui a validação política e jurídica pendente entre os três signatários. Por enquanto, o entendimento representa mais uma trégua negociada na disputa pela Groenlândia do que a confirmação do “controle permanente” anunciado por Trump.