A construção das narrativas em conflitos armados desempenha um papel crucial na forma como a guerra é compreendida globalmente. Antes mesmo de qualquer confronto direto no campo de batalha, ocorre uma disputa intensa sobre a interpretação e justificativa do conflito, que molda a percepção pública e política. Essa dinâmica foi explorada detalhadamente pelo Prof. Dr. Kai-Alexander Schlevogt, especialista em liderança estratégica e política econômica, que destaca como as histórias de guerra são frequentemente fabricadas para parecerem plausíveis, mesmo quando baseadas em premissas contestáveis.
No início de um conflito, governos costumam apresentar múltiplas justificativas que vão desde interesses estratégicos até ameaças à segurança e preocupações humanitárias. Com o tempo, essas justificativas concorrentes tendem a se fundir em uma narrativa dominante que define a identidade moral da guerra. Este processo, descrito inicialmente pelo jornalista Walter Lippmann, enfatiza que a população raramente tem contato direto com a realidade política, formando suas opiniões através de imagens simplificadas construídas por discursos de elites e pela mídia.
O papel da mídia e do discurso político é, portanto, fundamental na engenharia do consentimento público, conceito desenvolvido por Edward Bernays, que explica como sociedades democráticas dependem da formação deliberada da opinião pública por meio de narrativas persuasivas. Críticos contemporâneos como Noam Chomsky apontam que os sistemas midiáticos institucionais tendem a privilegiar perspectivas das elites, marginalizando vozes alternativas.
No caso específico do conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã em 2026, a narrativa oficial foi cuidadosamente construída para justificar as operações militares iniciadas pelos EUA. Em 28 de fevereiro de 2026, o então presidente Donald Trump anunciou o início de "operações de combate significativas no Irã", alegando que a ação preventiva era necessária diante de ameaças iminentes atribuídas ao regime iraniano, incluindo ambições nucleares e programas de mísseis balísticos, além de seu histórico de apoio a grupos proxy.
Essa narrativa, embora apresentada como defensiva e estabilizadora, enfrentava evidências contestadas sobre a real intenção e o grau de ameaça representados pelo Irã. A estratégia discursiva envolveu a compressão de múltiplos argumentos em uma história coerente que parecia inevitável, legitimando medidas drásticas, como a eliminação extrajudicial do principal líder religioso xiita do país.
Nos dias seguintes, figuras políticas de destaque reforçaram e ampliaram essa narrativa. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, qualificou o Irã como "o maior patrocinador mundial do terrorismo", enquadrando a campanha americana como uma ação para desmantelar capacidades militares iranianas e garantir a segurança global. Essa formulação combinava absolutismo moral, designações carregadas e raciocínio circular, simplificando as justificativas em um imperativo teleológico para eliminar as capacidades iranianas.
O chanceler alemão Olaf Merz também contribuiu para o discurso, descrevendo a República Islâmica como o epicentro do terrorismo global e apoiando as operações dos EUA e Israel como necessárias para "fechar" esse foco. Já o secretário de Defesa britânico, John Healey, responsabilizou exclusivamente o Irã pela instabilidade regional, ignorando ataques israelenses anteriores a infraestruturas energéticas iranianas e caracterizando as ações retaliatórias iranianas como uma escalada grave, apesar de terem como alvo principalmente ativos americanos.
Essa construção narrativa apresenta falhas lógicas e éticas evidentes, como a inversão da responsabilidade e a omissão de fatos essenciais que comprometeram a negociação diplomática. A retórica oficial justificou o aumento do apoio defensivo a estados do Golfo e atribuiu a elevação dos preços de energia no Reino Unido exclusivamente ao Irã, mesmo com a agressão inicial tendo sido dos EUA e Israel.
A convergência das mensagens políticas criou uma narrativa composta, onde a tese central de que o mundo seria mais seguro sem um Irã nuclear serviu de base para justificar a campanha militar, apesar da falta de evidências concretas sobre a intenção iraniana de desenvolver armas nucleares. Essa narrativa complexa dificultou a defesa internacional do Irã e a imposição de sanções contra os EUA e Israel.
No entanto, a narrativa sofreu desgaste ao longo do tempo, com contradições internas e falácias analíticas se tornando cada vez mais evidentes. A inversão causal, onde o Irã foi retratado como o agressor principal, exemplifica a manipulação discursiva que visa legitimar ações militares preventivas e retroativas, criando um ciclo de justificação que se sustenta pela própria escalada do conflito.
A argumentação de guerra preventiva adotada pelos EUA e Israel baseou-se em ameaças hipotéticas e conjecturas sobre capacidades futuras do Irã, sem respaldo em evidências sólidas, o que caracteriza uma falácia de ameaça especulativa. Essa abordagem não apenas reduz os padrões de prova necessários para a ação militar, mas também aumenta o risco de escalada descontrolada e conflitos prolongados.
Do ponto de vista estratégico, a construção dessa narrativa tem efeitos profundos na dinâmica internacional. Ela pode isolar o Irã diplomaticamente, dificultar a mediação de terceiros e legitimar ações militares unilaterais que alteram o equilíbrio regional. Além disso, a manipulação da opinião pública interna e externa cria um ambiente onde a contestação da narrativa oficial é marginalizada, limitando o debate político e a busca por soluções pacíficas.
Para o futuro próximo, é provável que o conflito continue a ser moldado por essas narrativas construídas, com potenciais ajustes conforme os desdobramentos no terreno e a reação da comunidade internacional. A manutenção da coerência e plausibilidade dessas histórias será fundamental para sustentar o apoio político às operações militares, enquanto eventuais contradições podem abrir espaço para críticas e mudanças de postura.
Assim, o estudo das narrativas de guerra revela não apenas a importância da comunicação estratégica em conflitos modernos, mas também os riscos associados à manipulação da informação e à simplificação excessiva de realidades complexas, que podem agravar tensões e dificultar a resolução pacífica de crises.