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domingo, 04 de janeiro de 2026
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Áustria inaugura delegacia na casa natal de Hitler para afastar ligação nazista

Áustria inaugura delegacia na casa onde Hitler nasceu para impedir que local se torne ponto de peregrinação neonazista e promover valores democráticos.

Áustria inaugura delegacia na casa natal de Hitler para afastar ligação nazista

A Áustria inaugurou uma delegacia de polícia na residência onde Adolf Hitler nasceu, localizada na cidade de Braunau am Inn. O imóvel, originalmente uma hospedaria do século XVII, passou por uma ampla reforma que alterou significativamente sua fachada. A iniciativa visa impedir que o local se torne um ponto de peregrinação para grupos neonazistas, um desafio que as autoridades austríacas enfrentam há anos.

Hitler viveu na casa de Salzburger Vorstadt 15 apenas por algumas semanas antes que sua família se mudasse para outro endereço na mesma cidade. Aos três anos, ele deixou Braunau am Inn definitivamente. Em 1938, após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, Hitler retornou brevemente à cidade a caminho de Viena.

A cerimônia de abertura da delegacia contou com a presença do ministro do Interior, Gerhard Karner, e outras autoridades locais. Durante o evento, músicos policiais tocaram instrumentos de sopro, simbolizando a nova fase do edifício. Karner destacou que a Áustria assume a responsabilidade pelo legado sombrio do passado e que a transformação do local representa um novo capítulo. Segundo ele, a casa agora simboliza democracia, estado de direito, segurança, liberdade e dignidade humana.

Um capelão católico abençoou duas cruzes que serão instaladas na delegacia, reforçando o caráter institucional do espaço. Durante décadas, o Ministério do Interior alugou o imóvel de sua antiga proprietária, Gerlinde Pommer, pagando um aluguel elevado para evitar que o local fosse explorado como destino para turismo de extrema direita.

O imóvel foi utilizado por uma organização local como centro de apoio e oficina para pessoas com necessidades especiais. Contudo, em 2011, a proprietária impediu reformas e recusou-se a vender a casa ao governo, que tentou negociar por anos. Em 2016, o Parlamento austríaco aprovou uma lei que permitiu a desapropriação do imóvel, com o pagamento de uma compensação de 812 mil euros à proprietária. Ela contestou o valor na Justiça, mas perdeu a ação.

O ex-ministro do Interior Wolfgang Sobotka chegou a sugerir a demolição da casa para construir um novo prédio, ideia que gerou críticas por parecer uma tentativa de apagar o passado nazista da Áustria. Em 2019, o governo decidiu transformar o local em delegacia e lançou um concurso europeu para arquitetos. A reforma custou milhões de euros e modificou profundamente o visual do edifício, que agora é pintado de branco e possui acabamento interno em madeira de carvalho, preservando elementos históricos como a escadaria e o hall de entrada arqueado.

O chefe da polícia local, Ludwig Heise, afirmou estar satisfeito com o novo espaço, que oferece mais conforto e condições modernas de trabalho, embora funcione como qualquer outra delegacia no país.

Apesar disso, a decisão de instalar uma delegacia no local não é unânime. Alguns críticos consideram que a medida pode enviar uma mensagem equivocada, enquanto outros defendem que o imóvel deveria ser um centro de reflexão sobre o passado nazista. O historiador local Florian Kotanko mencionou que a antiga instituição de apoio social preferiu não retornar ao prédio para não ser usada como instrumento político, o que levou o governo a buscar outra solução.

Não há nenhuma placa ou sinalização no edifício que faça referência à sua história, e câmeras de segurança monitoram o local para evitar visitas de extremistas. O único elemento que remete ao passado é uma pedra memorial na calçada, instalada em 1989, com a inscrição "Nunca mais o fascismo; em memória de milhões de mortos". Essa pedra foi retirada do antigo campo de concentração de Mauthausen. O nome de Hitler não aparece no memorial.

Kotanko ressaltou que a história do local não será esquecida, mesmo que a frequência de visitantes neonazistas diminua. Ele defende que é necessário enfrentar esse legado de forma aberta e correta, sem orgulho, mas com responsabilidade.

A transformação da casa natal de Hitler em delegacia representa uma estratégia austríaca para lidar com um passado controverso, buscando evitar a glorificação do nazismo e promover valores democráticos. Essa medida pode servir de exemplo para outros países que enfrentam desafios semelhantes na preservação e uso de locais históricos ligados a regimes autoritários.

No futuro, a eficácia dessa iniciativa dependerá do monitoramento contínuo e do engajamento da comunidade local para garantir que o espaço cumpra seu papel institucional e simbólico. A ausência de referências explícitas à história do prédio pode ser vista como uma tentativa de neutralizar o local, mas também pode gerar debates sobre a melhor forma de educar e lembrar os eventos do passado.