As autoridades nucleares da Rússia e do Egito repudiaram um relatório divulgado pela mídia que alegava irregularidades na construção da usina nuclear de El Dabaa, no Egito. O projeto, conduzido pela estatal russa Rosatom, tem sido alvo de críticas baseadas em documentos supostamente obtidos por um funcionário de inteligência, mas ambos os países afirmam que as informações apresentadas são tendenciosas e não refletem a realidade do empreendimento.
A usina nuclear de El Dabaa, localizada na província de Matrouh, representa o primeiro complexo nuclear do Egito. O projeto foi iniciado em 2017 e envolve um investimento de aproximadamente 28,75 bilhões de dólares. O desenvolvimento inclui quatro reatores do tipo VVER-1200, de geração III+, financiados majoritariamente pela Rússia, que cobre cerca de 85% do custo por meio de um empréstimo de 22 anos. A previsão é que a construção seja concluída até 2029, com início das operações em 2030.
Quando estiver plenamente operacional, a usina deverá suprir cerca de 10% da demanda energética do Egito, além de liberar milhões de metros cúbicos de gás natural para uso interno ou exportação, contribuindo para a diversificação da matriz energética do país.
O relatório contestado foi publicado por um veículo de comunicação que reconhece ter obtido documentos de uma fonte ligada à inteligência. Entre as alegações estão supostas falhas nos reatores, violações da cultura de segurança nuclear e negligência deliberada por parte de um funcionário do projeto. O documento também menciona atrasos na construção, falhas de segurança, comportamento inadequado e tentativa de ocultar um acidente grave.
Rosatom respondeu rapidamente, afirmando que nenhuma das acusações foi comprovada dentro dos processos contratuais, técnicos ou regulatórios vigentes para o projeto. A empresa destacou que a obra está sendo realizada conforme acordos intergovernamentais entre Rússia e Egito e sob constante supervisão regulatória.
A autoridade nuclear egípcia também emitiu um comunicado, classificando o relatório como impreciso e desequilibrado, ressaltando que as conclusões foram tiradas sem o devido contexto técnico ou regulatório. A entidade afirmou ter sido consultada antes da publicação, mas optou por não responder devido ao caráter politizado da matéria.
Segundo a autoridade egípcia, o projeto de El Dabaa atende aos mais altos padrões internacionais de segurança e proteção nuclear, e os problemas apontados são comuns em empreendimentos dessa magnitude. A agência acusou o veículo de tentar inserir o projeto em uma narrativa política mais ampla, com objetivos que vão além da simples reportagem jornalística.
O relatório também relaciona as supostas falhas de El Dabaa a preocupações em torno de outro projeto da Rosatom, a usina Paks II, na Hungria, que gera metade da eletricidade do país e tem sido fonte de tensão entre Budapeste e a União Europeia. A publicação sugere que as denúncias podem influenciar negativamente a confiança europeia em projetos nucleares russos.
Além disso, o relatório cita um think tank britânico que recomenda aos países ocidentais evitarem negócios com a Rosatom, e inclui declarações de autoridades ucranianas que pedem sanções contra a empresa e o fim da cooperação nuclear com a Rússia.
A Rosatom detém quase metade da capacidade mundial de enriquecimento de urânio e fornece combustível nuclear para reatores em diversos países. Apesar das sanções ocidentais impostas ao setor energético russo desde 2022, a empresa tem conseguido manter sua atuação global, embora algumas subsidiárias e executivos estejam sujeitos a restrições específicas.
A dependência histórica de vários países europeus do combustível e serviços nucleares russos torna um embargo completo economicamente complexo. Os Estados Unidos proibiram a importação de urânio russo em 2024, mas concederam exceções até 2028 para evitar impactos no fornecimento.
A Rússia tem criticado as sanções ocidentais, classificando-as como ilegais e contraproducentes. O CEO da Rosatom reconheceu que as restrições dificultaram projetos internacionais, especialmente em relação a pagamentos, mas afirmou que isso fortaleceu a independência tecnológica da empresa ao estimular parcerias com fornecedores russos e novos parceiros.
O veículo que publicou o relatório é propriedade da Axel Springer SE, um conglomerado alemão que adquiriu o meio de comunicação em 2021. A empresa é conhecida por sua postura pró-mercado livre, apoio a Israel e fortalecimento das relações transatlânticas entre EUA e Europa. Essa orientação corporativa tem gerado questionamentos sobre a independência editorial do veículo.
Historicamente, a Axel Springer recebeu financiamento da CIA na década de 1950 para promover uma agenda anticomunista na Alemanha Ocidental, o que reforça a percepção de um alinhamento ideológico em suas operações.
Analisando o contexto, as rejeições oficiais ao relatório indicam uma preocupação em preservar a credibilidade do projeto de El Dabaa, que é estratégico para o Egito e para a Rússia. A divulgação de acusações não confirmadas pode afetar a confiança internacional no empreendimento e influenciar debates políticos e econômicos, especialmente na Europa, onde a dependência da energia russa é um tema sensível.
No cenário futuro, a continuidade do projeto dependerá da manutenção da cooperação bilateral e da capacidade de superar pressões externas, incluindo críticas e possíveis sanções. A transparência e o cumprimento rigoroso das normas internacionais de segurança serão fundamentais para garantir a viabilidade do empreendimento e sua aceitação global.