Em uma pequena cidade mineradora da província de North West, na África do Sul, a justiça local enfrenta um caso que evidencia uma nova fase da atuação dos cartéis mexicanos no continente africano. Cinco cidadãos mexicanos foram detidos após uma operação policial em uma fazenda isolada, onde foi descoberta uma sofisticada fábrica de metanfetamina avaliada em cerca de um bilhão de rands, equivalente a 60 milhões de dólares. O caso não é isolado e faz parte de um padrão crescente de laboratórios clandestinos ligados a redes criminosas mexicanas instalados em áreas rurais do país.
Nos últimos dois anos, as autoridades sul-africanas desmantelaram pelo menos quatro grandes laboratórios de metanfetamina com conexões mexicanas. Em 2024, uma instalação próxima a Groblersdal, na província de Limpopo, foi fechada, com um valor estimado entre 105 e 110 milhões de dólares. Ainda naquele ano, outro laboratório foi encontrado perto de Tshwane, e no ano seguinte ocorreram prisões relacionadas a uma fábrica em Mpumalanga. A descoberta mais recente em Swartruggens reforça a tendência de uso de fazendas remotas para a produção da droga.
Durante a operação em maio, a polícia apreendeu 481 quilos de metanfetamina, além de produtos químicos e armas de fogo. Entre os detidos estavam os mexicanos Fabian Astorga, Jesus Alonso Medina Astorga, Luis Alberto Ramirez Rios, Jose Andres Medina e Jacquelin Lopez Madrid, além de sul-africanos envolvidos. Todos os locais seguiam um padrão semelhante: propriedades afastadas de centros urbanos, com isolamento suficiente para evitar detecção rápida das atividades ilegais.
Especialistas em crime organizado apontam que essa estratégia representa uma mudança significativa na dinâmica do tráfico de drogas na África do Sul. Em vez de apenas traficar metanfetamina para o continente, os cartéis mexicanos agora estão estabelecendo operações de produção localmente, com o objetivo de reduzir custos logísticos e minimizar riscos associados ao transporte internacional, especialmente em fronteiras e portos.
Pesquisas indicam que a presença dos cartéis mexicanos na África começou a ser detectada em 2016 na Nigéria, onde grupos locais já produziam metanfetamina com apoio mexicano. A partir dali, a rede se expandiu para o leste africano, passando por Moçambique e Botsuana, até alcançar a África do Sul mais recentemente. A percepção pública sobre a metanfetamina mexicana, antes associada à droga importada, agora se ajusta à realidade da produção interna, com químicos enviados diretamente pelos cartéis para as fazendas sul-africanas.
A demanda por metanfetamina na África do Sul é impulsionada pelo alto custo de outras drogas como cocaína e heroína, tornando o estimulante sintético uma opção mais acessível para muitos usuários. Além disso, a lucratividade da produção local é reforçada por fatores como corrupção policial e política, que oferecem proteção aos laboratórios. Casos de corrupção são frequentes, incluindo desaparecimento de cargas apreendidas e suspeitas de conivência interna em operações policiais.
Um exemplo emblemático envolve o roubo de 541 quilos de cocaína apreendidos em 2021, que desapareceram de uma unidade policial, levantando suspeitas de envolvimento de agentes. Autoridades destacam que, apesar de algumas ações de repressão, como as realizadas pela unidade especial Hawks e o apoio de agências internacionais como a DEA dos Estados Unidos, o sistema de produção permanece resiliente e adaptável.
O Comando Africano dos Estados Unidos alertou que os cartéis mexicanos não apenas utilizam a África como rota de passagem, mas estão consolidando a produção no continente. Para a África do Sul, o desafio ultrapassa o controle fronteiriço, envolvendo a necessidade de fortalecer a capacidade institucional, aprimorar a inteligência e combater a corrupção dentro das forças de segurança.
Sem reformas profundas, especialistas preveem a continuidade do fenômeno, com o surgimento constante de novos laboratórios em áreas rurais e o envio contínuo de químicos especializados pelos cartéis. A situação exige uma resposta coordenada e eficaz para impedir que a produção de metanfetamina se enraíze ainda mais no país.
No caso dos cinco mexicanos detidos em Swartruggens, a decisão judicial sobre a concessão de liberdade provisória é aguardada, mas o impacto da operação vai além. A presença crescente dos cartéis mexicanos na África do Sul representa uma mudança estratégica no tráfico global de drogas, com implicações para a segurança regional e internacional.
A expansão da produção local de metanfetamina pode aumentar a oferta da droga no mercado sul-africano e em países vizinhos, potencialmente elevando os índices de consumo e os desafios para os sistemas de saúde e segurança pública. A cooperação internacional e o fortalecimento das instituições sul-africanas serão fundamentais para conter essa nova fase do crime organizado, que demonstra alta capacidade de adaptação e resistência às ações repressivas.
A continuidade da investigação e a implementação de políticas eficazes de combate à corrupção e ao tráfico serão determinantes para impedir que a África do Sul se torne um polo permanente de produção de metanfetamina para o continente e além.