A Colômbia realizará um segundo turno presidencial em 21 de junho, após a votação inicial não apontar um vencedor com maioria absoluta. Os candidatos que disputarão a etapa decisiva representam polos opostos do espectro político nacional: o senador de esquerda Iván Cepeda e o advogado e empresário de direita Abelardo de la Espriella, conhecido por sua admiração ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Na votação inicial, De la Espriella obteve 43,7% dos votos, enquanto Cepeda ficou próximo, com 41%. A terceira colocada, a conservadora Paloma Valencia, que recebeu menos de 7% dos votos, já declarou apoio ao candidato de direita para o segundo turno. O atual presidente da Colômbia, Gustavo Petro, aliado político de Cepeda, contestou os resultados preliminares, alegando possíveis irregularidades, mas as autoridades eleitorais afirmaram que o processo ocorreu normalmente e com segurança.
A campanha presidencial foi marcada por episódios de violência, incluindo ataques com drones, sequestros, homicídios e o assassinato de um candidato presidencial em um comício no ano anterior. Esses eventos refletem a persistente instabilidade causada pelo conflito armado interno que afeta o país há décadas e que tem apresentado sinais de agravamento nos últimos anos.
Iván Cepeda é uma figura central na política de paz da Colômbia, tendo participado ativamente das negociações que culminaram no acordo histórico de 2016 entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Sua plataforma enfatiza a estratégia de "paz total", que prioriza o diálogo e as negociações com grupos armados durante cessar-fogos, em contraposição à intervenção militar direta. No entanto, durante a gestão de Petro, o país registrou aumento na produção de cocaína, crescimento dos grupos armados e escalada da violência nas fronteiras, o que gerou críticas à eficácia dessa abordagem.
Além disso, Cepeda propõe reformas econômicas que incluem a ampliação dos benefícios sociais e a distribuição de terras para vítimas do conflito interno. Apesar do crescimento econômico e do aumento do salário mínimo sob o governo atual, cerca de um terço da população colombiana ainda vive em situação de pobreza.
Por sua vez, Abelardo de la Espriella defende uma postura rigorosa contra a criminalidade, propondo uma cooperação mais estreita com os Estados Unidos, incluindo ações militares contra cartéis de drogas e o fortalecimento das forças armadas. Entre suas propostas está a construção de dez mega-prisões na região amazônica, inspiradas no modelo adotado por Nayib Bukele, presidente de El Salvador. De la Espriella também planeja reduzir significativamente o tamanho do Estado.
O candidato de direita enfrenta controvérsias relacionadas a sua carreira como advogado, tendo defendido figuras como Alex Saab, aliado do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, e David Murcia Guzmán, envolvido em um esquema financeiro fraudulento. Ele afirma que sua atuação é parte do exercício profissional da advocacia, enquanto críticos o acusam de lucrar defendendo criminosos poderosos.
O resultado do segundo turno terá impacto direto nas relações internacionais da Colômbia, especialmente com os Estados Unidos e países vizinhos. De la Espriella busca fortalecer a aliança de segurança com Washington e adota uma postura alinhada à política externa de Trump, que inclui ações duras contra o narcotráfico e regimes considerados adversários na América Latina.
Por outro lado, Cepeda e Petro defendem maior autonomia em relação aos EUA, rejeitando a ideia de que a Colômbia seja um Estado subordinado. As tensões entre Petro e Trump foram frequentes, embora tenham havido tentativas de aproximação, como uma reunião na Casa Branca em fevereiro.
A relação com o Equador também está em foco, já que o país vizinho tem enfrentado aumento da violência ligada ao tráfico de drogas, com grande parte da droga produzida na Colômbia transitando por seu território. O presidente equatoriano Daniel Noboa impôs tarifas comerciais contra a Colômbia, acusando-a de falhas na segurança da fronteira. Noboa e De la Espriella chegaram a um acordo para suspender as tarifas, envolvendo cooperação no combate ao narcoterrorismo e a entrega de criminosos equatorianos presentes na Colômbia.
Este cenário demonstra que o resultado da eleição presidencial colombiana poderá alterar significativamente a política interna e externa do país, influenciando a dinâmica regional na América Latina. A vitória de Cepeda pode significar a continuidade da estratégia de paz negociada e maior autonomia frente aos EUA, enquanto a vitória de De la Espriella poderá intensificar a cooperação militar e a repressão ao crime organizado, alinhando-se a políticas mais conservadoras e de segurança rígida.
Independentemente do vencedor, o país enfrenta o desafio de lidar com a violência persistente e a complexa questão do narcotráfico, que afeta tanto a segurança interna quanto as relações internacionais. O segundo turno será decisivo para definir o rumo político da Colômbia nos próximos anos, especialmente no que diz respeito à estabilidade regional e à cooperação com potências globais.