Durante o mês de março de 2026, comunidades judaicas na diáspora foram alvo de pelo menos 14 ataques ou tentativas de ataque, em uma escalada significativa de incidentes violentos que parecem estar relacionados ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. Os episódios ocorreram em diversas regiões, incluindo Europa, Canadá e Estados Unidos, com uma média de um incidente a cada dois dias. As ações envolveram tiroteios, bombardeios, incêndios criminosos e ataques com veículos, configurando um dos períodos mais perigosos para essas comunidades nos últimos anos.
No início do mês, em 2 de março, uma sinagoga em Toronto foi atacada com disparos após uma celebração de Purim. Poucos dias depois, autoridades do Azerbaijão anunciaram a desarticulação de um plano terrorista iraniano que incluía ataques à embaixada de Israel em Baku, a uma sinagoga e a líderes comunitários judeus. No Reino Unido, quatro homens foram detidos sob suspeita de espionagem para inteligência iraniana, com foco em locais e pessoas ligadas à comunidade judaica londrina.
Entre 6 e 7 de março, duas sinagogas em Toronto foram novamente alvejadas por tiros. Em 9 de março, uma explosão danificou uma sinagoga em Liège, Bélgica. No dia 12, um agressor armado investiu com um caminhão contra uma sinagoga em Michigan, Estados Unidos, enquanto crianças estavam em aula. No dia seguinte, uma explosão em uma sinagoga em Rotterdam, Holanda, causou um incêndio de curta duração e danos ao prédio.
Outros ataques incluíram uma explosão em uma escola judaica em Amsterdã em 14 de março, considerada um ataque deliberado pelo prefeito da cidade. Na França, dois homens foram investigados por planejarem um ataque antissemita e letal. Na Holanda, dois jovens foram presos por suspeita de incêndio criminoso ou ataque com explosivos a uma sinagoga. Em Londres, quatro ambulâncias da comunidade judaica foram incendiadas em 23 de março, e um homem em Chicago foi acusado de ameaçar atacar uma sinagoga.
Em Antuérpia, Bélgica, dois menores foram detidos por incendiar um carro em uma área judaica, em um incidente classificado como antissemita. Apesar da gravidade dos ataques, não houve mortes além do agressor em Michigan, mas episódios fatais recentes ocorreram nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália.
Um grupo denominado Harakat Ashab al-Yamin al-Islamiya (HAYI) reivindicou responsabilidade por vários ataques na Europa, embora informações concretas sobre essa organização sejam escassas. Analistas sugerem que o grupo pode estar vinculado a milícias pró-Irã na Europa, atuando como fachada para suas operações.
Especialistas em segurança judaica nos Estados Unidos destacam que o aumento dos ataques está diretamente relacionado ao conflito no Oriente Médio envolvendo o Irã. Michael Masters, líder da Secure Community Network (SCN), ressaltou que a diversidade dos adversários inclui desde o Irã e seus aliados até extremistas islâmicos e grupos supremacistas neonazistas, todos com o objetivo comum de causar danos à comunidade judaica.
Além dos ataques violentos, houve também uma série de incidentes não violentos que geraram preocupação, como manifestações pró-terrorismo, ameaças online, grafites antissemitas, agressões físicas, apoio comunitário a grupos terroristas, abusos verbais e a propagação de conspirações antijudaicas nas redes sociais.
O aumento das ameaças tem sido monitorado de perto. Em um período recente de seis dias, a SCN registrou mais de 8.000 chamadas diretas para violência contra comunidades judaicas na América do Norte, um aumento de 137% em relação à média, configurando o maior número já registrado nesse intervalo.
Kerry Sleeper, chefe de gestão de ameaças da SCN, explicou que a maioria dos ataques recentes é realizada por indivíduos isolados ou pequenos grupos motivados por ideologias híbridas e inspirados por propaganda online, principalmente relacionada ao conflito no Oriente Médio e a retaliações incentivadas pelo Irã.
O Irã tem histórico de envolvimento em ataques terroristas contra alvos israelenses e judaicos globalmente, utilizando uma rede de agentes e proxies. As táticas empregadas são de baixa complexidade, mas alto impacto, incluindo o uso de armas de fogo, veículos e materiais inflamáveis, o que dificulta a prevenção dos ataques.
O cenário de ameaças permanece elevado e complexo, com eventos futuros, como a Copa do Mundo de 2026, que será sediada por Estados Unidos, Canadá e México, representando desafios adicionais de segurança devido ao aumento do fluxo de visitantes internacionais.
O Conselho Nacional de Segurança de Israel alertou seus cidadãos que viajam ao exterior durante as próximas festas judaicas para adotarem precauções reforçadas, devido à ameaça representada pelo Irã e seus aliados. Recomendações incluem evitar a divulgação de detalhes de viagens em redes sociais, evitar eventos não protegidos relacionados a Israel ou ao judaísmo, estar atento ao ambiente ao redor, denunciar ameaças e ataques às autoridades locais e evitar áreas hostis.
Organizações de segurança judaicas nos Estados Unidos também recomendam medidas como maior vigilância, cooperação com forças de segurança, sigilo sobre eventos e triagem rigorosa dos participantes para garantir a segurança das comunidades.
Análise estratégica indica que o aumento dos ataques reflete uma escalada das tensões geopolíticas ligadas ao conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos, com repercussões diretas nas comunidades judaicas fora do Oriente Médio. A diversidade dos atores envolvidos e a multiplicidade de táticas dificultam a prevenção e a resposta rápida, exigindo maior coordenação internacional entre agências de segurança e comunidades locais.
No curto prazo, é esperado que o nível de ameaça permaneça elevado, especialmente em períodos festivos e eventos internacionais que reúnam grandes aglomerações de judeus e israelenses. A cooperação entre países anfitriões e grupos comunitários será crucial para mitigar riscos e garantir a segurança. Além disso, a identificação e desarticulação de grupos como o HAYI serão fundamentais para reduzir a capacidade operacional dessas redes.
O cenário sugere que, enquanto o conflito no Oriente Médio persistir, as comunidades judaicas na diáspora continuarão vulneráveis a ataques motivados por fatores geopolíticos, ideológicos e terroristas, demandando vigilância constante e estratégias adaptativas de proteção.