No estado de Plateau, na Nigéria central, a violência é uma realidade constante que afeta inúmeras famílias, especialmente em áreas onde a presença das forças de segurança é praticamente inexistente. Em abril de 2025, uma noite de terror marcou a vila de Zike, habitada pelo grupo étnico cristão Irigwe. Joseph Ize Zino, líder juvenil local, relembra os primeiros disparos por volta da meia-noite, quando homens armados atacaram a comunidade. Ele e sua família conseguiram fugir para os campos próximos enquanto ouviam os agressores, que entoavam cânticos religiosos, disparando e causando pânico entre os moradores. Naquele episódio, 52 pessoas, incluindo homens, mulheres e crianças, foram assassinadas.
A autoria do ataque não foi oficialmente confirmada, mas os moradores atribuem a responsabilidade a membros da etnia Fulani, tradicionalmente pastores de gado e majoritariamente muçulmanos. Para os habitantes de Zike, o episódio não se trata apenas de um conflito, mas de um genocídio direcionado contra cristãos, com o objetivo de expulsá-los para tomar suas terras. Essas alegações alimentam debates controversos sobre perseguição religiosa na Nigéria e têm sido usadas para justificar a recente intervenção militar dos Estados Unidos no país.
O governo nigeriano, por sua vez, nega a existência de perseguição sistemática contra cristãos, afirmando que os conflitos afetam pessoas de diversas crenças e etnias. No norte do país, onde a população muçulmana é majoritária, comunidades têm sofrido ataques de grupos insurgentes islâmicos como o Boko Haram, mas minorias cristãs também são vítimas. A cooperação com os Estados Unidos tem focado no combate a esses insurgentes, com ataques aéreos realizados em dezembro de 2024 contra supostas bases terroristas e o envio de cerca de 200 soldados americanos para treinamento e apoio às forças nigerianas.
Apesar disso, a violência no centro da Nigéria, especialmente no estado de Plateau, continua sendo um ponto de atenção para alguns políticos americanos. Nos últimos 25 anos, milhares de cristãos e muçulmanos foram mortos em conflitos étnicos e religiosos na região, com relatos recentes indicando que as comunidades cristãs têm sido as mais afetadas. Plateau é uma região marcada por uma diversidade étnica significativa, abrigando mais de 50 grupos diferentes, onde cristãos são maioria, mas há também uma expressiva população muçulmana.
A política local tem historicamente explorado as identidades étnicas e religiosas para conquistar poder. Indígenas, geralmente de grupos cristãos, recebem privilégios no acesso a empregos e terras, enquanto os chamados "assentados", muitos deles muçulmanos Fulani, enfrentam discriminação mesmo residindo na região há gerações. Em 2001, a violência comunal eclodiu em Jos, capital do estado, resultando em mais de mil mortes e deslocamentos em massa. O conflito se espalhou para áreas rurais, envolvendo diversos grupos étnicos.
Ardo Wada Waziri, um ancião Fulani de 70 anos que atua na promoção da paz, lembra que até 2001 as comunidades Fulani e Irigwe conviviam pacificamente. No entanto, após os ataques de jovens Irigwe que incendiaram assentamentos Fulani e mataram 52 pessoas, muitos Fulani foram forçados a fugir. A violência persistiu, com assassinatos aleatórios e emboscadas, principalmente contra aqueles considerados "assentados". Waziri destaca que o conflito não é essencialmente religioso, mas sim resultado de disputas políticas, étnicas, por recursos e da criminalidade crescente. A ausência de segurança efetiva e a impunidade alimentam um ciclo de retaliações e medo constante.
Apesar da tensão, nem toda a população de Plateau está envolvida no conflito. Na cidade de Mista Ali, por exemplo, cristãos e muçulmanos convivem pacificamente sob a liderança do chefe tradicional Danladi Akinga Kasuwa, que promove a união entre as comunidades e reprime qualquer tentativa de violência ou discriminação. Essa coexistência pacífica é um exemplo de que a paz é possível mesmo em regiões afetadas por conflitos.
A disputa por terras é um dos principais motores da violência. Em muitas partes da Nigéria, agricultores e pastores entram em conflito, independentemente da religião. Em Plateau, a maioria dos agricultores pertence a grupos étnicos cristãos, enquanto os pastores são predominantemente Fulani muçulmanos. O aumento populacional e a expansão agrícola reduziram as áreas de pastagem e os recursos hídricos, intensificando as tensões. Acusações mútuas de destruição de plantações e roubo ou assassinato de gado alimentam ciclos de violência e vingança.
Aliyu Abdullahi Isa, um jovem pastor Fulani de 25 anos, relata a importância do gado para sua família, que representa uma riqueza acumulada ao longo de gerações. Recentemente, ele e seu irmão foram atacados por homens armados da etnia Berom, predominantemente cristã. O irmão de Isa foi morto e dezenas de cabeças de gado da família foram roubadas ou abatidas, destruindo o sustento deles. Isa afirma não buscar vingança, mas justiça.
A desconfiança em relação às autoridades é generalizada entre os Fulani, que acusam o governo estadual, dominado por grupos cristãos, de negligenciar suas demandas e de parcialidade. Abdullahi Yusuf Ibrahim, secretário de um líder Fulani influente, rejeita a ideia de que os Fulani promovem uma guerra religiosa, afirmando que o conflito é entre agricultores e pastores, mas que apenas os Fulani são responsabilizados. Ele acredita que a justiça é fundamental para a paz em Plateau.
Do outro lado, líderes Berom denunciam a ocupação de terras por Fulani e a insegurança que impede o cultivo agrícola. O governo local tem tentado implementar iniciativas de paz e aumentar a segurança, promovendo mediações e acordos. No entanto, a violência persiste, alimentada também por interesses econômicos de grupos que lucram com crimes como roubo de gado, sequestros e outras atividades ilícitas.
Jacob Choji Pwakim, fundador da iniciativa juvenil contra a violência e abusos de direitos humanos, destaca que a paz duradoura depende da restauração das relações comunitárias, resolução de disputas e segurança local. Ele aponta para projetos de cooperação entre pastores e agricultores, financiados por parceiros internacionais, que promovem o diálogo e o trabalho conjunto, como um caminho para a reconciliação.
A situação em Plateau reflete desafios mais amplos enfrentados pela Nigéria rural, onde a ausência de governança eficaz, justiça e confiança nas forças de segurança perpetua o ciclo de violência. Enquanto o governo busca soluções, a construção da paz depende também do engajamento das comunidades locais, que tentam superar décadas de conflito e reconstruir a convivência pacífica.
Análise estratégica: O conflito em Plateau evidencia a complexidade das disputas étnico-religiosas e territoriais na Nigéria, onde questões históricas de identidade, acesso a recursos e governança deficiente se entrelaçam. A ausência de uma presença estatal efetiva e a impunidade alimentam a criminalidade e dificultam a resolução pacífica. A intervenção militar estrangeira, focada no combate a insurgentes islâmicos, não aborda diretamente as raízes locais do conflito, o que pode limitar sua eficácia a longo prazo.
Para estabilizar a região, será crucial fortalecer as instituições locais, promover justiça imparcial e incentivar iniciativas comunitárias que promovam a coexistência. O sucesso de projetos que unem pastores e agricultores indica que a paz é possível, mas requer esforços contínuos e integrados. Caso contrário, a persistência da violência pode gerar deslocamentos, agravar tensões interétnicas e prejudicar a estabilidade regional, impactando também a segurança nacional e as relações internacionais da Nigéria.