Em 2026, a crise habitacional que afeta países ocidentais ganhou destaque nas agendas governamentais dos países mais ricos do mundo. No Reino Unido, uma lei histórica para proteger os direitos dos inquilinos entrou em vigor em 1º de maio, eliminando despejos sem justificativa na Inglaterra e no País de Gales, marcando uma das maiores reformas no mercado de aluguel privado das últimas décadas. Na União Europeia, a Comissão Europeia e o Parlamento lançaram uma iniciativa para melhorar a acessibilidade da moradia, enquanto nos Estados Unidos, o Senado avançou com um projeto bipartidário que visa reduzir barreiras à construção e ampliar a oferta de habitações acessíveis.
Especialistas apontam que a falta de moradias acessíveis tornou-se um problema generalizado no mundo ocidental. Cidades como Londres, Toronto, Berlim e Sydney enfrentam aumentos nos aluguéis e nos preços dos imóveis que superam o crescimento dos salários, impedindo que jovens adquiram casas. Isso gera pressão sobre os governos para decidir se a habitação deve ser tratada como uma necessidade básica ou como um ativo financeiro.
Leilana Farha, diretora global da organização THE SHIFT, que atua na área de direitos humanos relacionados à habitação, destaca que desde o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, políticas neoliberais vêm reduzindo os investimentos públicos em moradia social. Antes da crise financeira global de 2008, a crise de acessibilidade afetava principalmente as populações de menor renda, resultado do desmonte progressivo da habitação social e da privatização desse setor.
Na Holanda, o primeiro-ministro Rob Jettan comprometeu-se a construir 100 mil residências por ano, com 30 grandes projetos espalhados pelo país, reconhecendo que, apesar de todos terem um teto, estudantes e jovens enfrentam dificuldades para encontrar moradias acessíveis.
O conceito de moradia acessível geralmente considera que os custos com habitação não devem ultrapassar 30% da renda familiar, conforme parâmetros da ONU-Habitat. A OCDE adota um critério mais rigoroso, considerando como sobrecarga habitacional quando os gastos ultrapassam 40% da renda disponível. Contudo, em muitas cidades, esses limites não refletem a realidade, pois famílias acabam pagando muito mais, vivendo em condições precárias, longe dos centros urbanos e adiando a compra da casa própria, o que contribui para o aumento da desigualdade.
Relatórios recentes, como o "State of the Nation’s Housing" de 2025, indicam que a construção de moradias familiares adequadas está em declínio, enquanto a demanda por aluguel continua alta, o que deve apertar ainda mais o mercado.
Historicamente, durante grande parte do século 20, a habitação era vista mais como um direito social do que como um investimento. Países ocidentais ampliaram o acesso à moradia por meio de políticas públicas e programas de habitação social. No Reino Unido, a Lei Addison de 1919 e subsídios posteriores fomentaram a construção de moradias populares. Nos Estados Unidos, o National Housing Act de 1934 e o Wagner-Steagall Act de 1937 estabeleceram uma estrutura federal para habitação pública. No Canadá, o National Housing Act e a criação da CMHC institucionalizaram o apoio federal à habitação. Em Singapura, o Housing and Development Board tornou a habitação pública uma prioridade estatal a partir de 1960.
Essas políticas resultaram em preços de moradia significativamente mais baixos em comparação com os atuais. Dados do banco de investimentos Schroders mostram que, em 1957, o preço médio de uma casa no Reino Unido era quatro vezes a renda anual média, enquanto em 2022 esse valor chegou a nove vezes.
Nas últimas cinco décadas, os preços dos imóveis nos Estados Unidos também cresceram mais rápido que os salários. O relatório de 2025 da Universidade de Harvard aponta que a relação preço-renda nacional atingiu 5,0 em 2024, contra 4,1 em 2019 e uma média de 3,2 na década de 1990.
As políticas neoliberais adotadas no Reino Unido e nos Estados Unidos, como o programa "Right-to-Buy" da primeira-ministra Margaret Thatcher e os cortes no apoio federal à habitação na era Reagan, reduziram significativamente o estoque de moradias sociais, transformando a habitação em um produto cada vez mais sujeito às forças de mercado e ao capital privado.
A privatização da habitação continuou no século 21. Segundo a OCDE, entre 2009 e 2016, o investimento público em desenvolvimento habitacional caiu quase 90% nos países membros. Essa mudança abriu espaço para que investidores institucionais entrassem no mercado imobiliário, muitas vezes priorizando o lucro em detrimento da acessibilidade.
Estudos indicam que esses investidores contribuem para o aumento dos custos habitacionais e para a exploração da escassez existente, oferecendo moradias privadas a preços elevados e em condições de insegurança para os inquilinos.
Desde a crise financeira global de 2008, grandes volumes de capital têm sido direcionados para o mercado residencial, transformando o aluguel em um importante alvo de investimento nos países ocidentais. Isso tem pressionado os proprietários a aumentar os aluguéis e a substituir inquilinos por outros que possam pagar mais.
De acordo com o relatório "Adequate Housing For All" da ONU-Habitat de 2025, mais de 2,8 bilhões de pessoas enfrentam algum tipo de inadequação habitacional, incluindo 1,1 bilhão vivendo em assentamentos informais e favelas. Em regiões afetadas por conflitos e deslocamentos, a escassez é ainda mais grave.
Nos países em desenvolvimento, o desafio está relacionado ao acesso à moradia básica, infraestrutura e direitos sobre a terra. Já em nações ricas, o problema é mais ligado à acessibilidade, aumento dos aluguéis, financeirização do setor, aumento da população sem moradia e diminuição da habitação pública.
A solução para a crise habitacional não se limita à construção de novas casas. A ONU alerta que a produção rápida e sem planejamento pode gerar um desalinhamento entre a oferta e as necessidades reais, além de agravar desigualdades socioeconômicas.
Especialistas defendem que o ponto de partida para enfrentar a crise é reconhecer a habitação como um direito humano fundamental, e não apenas como uma oportunidade de investimento. Sem essa mudança de paradigma, as políticas públicas tendem a ser insuficientes.
Até mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, expressou essa visão ao afirmar que as casas devem ser construídas para as pessoas e não para corporações. Em janeiro, durante a cúpula do G7 em Davos, ele assinou uma ordem executiva para impedir que grandes investidores institucionais comprem casas unifamiliares que poderiam ser adquiridas por proprietários privados.
Essa ordem orienta agências federais a limitar, na medida do possível, a aprovação, garantia, securitização e venda de imóveis residenciais para investidores institucionais, buscando favorecer compradores individuais e ocupantes.
Analisando o cenário, a crise habitacional no Ocidente reflete um processo de desinvestimento público e crescente financeirização do mercado imobiliário, que elevou os preços e restringiu o acesso à moradia. A retomada de políticas públicas robustas e o reconhecimento da habitação como direito social são passos fundamentais para reverter essa tendência.
No curto prazo, medidas que facilitem a construção de moradias acessíveis e regulem a atuação de investidores institucionais podem aliviar a pressão sobre o mercado. A médio e longo prazo, é necessário um planejamento urbano integrado que considere as necessidades reais da população e promova a equidade no acesso à moradia.
O desafio para os governos ocidentais será equilibrar os interesses econômicos e sociais, garantindo que a habitação não se torne um privilégio restrito, mas sim um direito universal efetivamente assegurado.