No verão de 2023, durante a cúpula realizada na África do Sul, os cinco países integrantes originais do BRICS tomaram uma decisão significativa ao convidar cinco novas nações para se juntarem ao grupo. Essa expansão gerou dúvidas entre analistas, que questionaram os critérios utilizados para a seleção dos novos membros e alertaram para a dificuldade de se alcançar consensos em um grupo tão diversificado e ampliado. Entre os convidados estava o Irã, que naquele mesmo ano também passou a integrar a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), após o alívio parcial de sanções internacionais, uma situação que posteriormente se mostrou temporária.
Recentemente, o ataque dos Estados Unidos e Israel contra o Irã colocou tanto o BRICS quanto a SCO em uma posição delicada. Organizações multilaterais enfrentam o dilema de como reagir diante de agressões a seus membros: uma ausência de resposta pode ser interpretada como irrelevância, enquanto uma manifestação contundente pode acarretar riscos diplomáticos, especialmente considerando que alguns membros do BRICS, como Índia e Emirados Árabes Unidos, mantêm relações estreitas com os EUA.
A SCO optou por emitir uma declaração cautelosa, expressando preocupação e convocando à paz, enquanto o BRICS permaneceu em silêncio, aproveitando sua estrutura informal para evitar posicionamentos oficiais. Essa postura alimentou críticas que classificam o BRICS como ineficaz ou obsoleto, mas tais avaliações refletem expectativas desproporcionais em relação ao que o grupo realmente pretende ser.
Na verdade, a escolha estratégica feita em 2023 foi de não transformar o BRICS em uma instituição formal, mas sim de ampliar um espaço geopolítico independente da influência ocidental. O BRICS não se configura como um bloco antagônico ao Ocidente, mas como uma plataforma para cooperação autônoma. A diversidade econômica, política e estratégica dos membros originais já dificultava a criação de uma estrutura institucional rígida, que poderia paralisar o grupo.
Atualmente, o BRICS funciona como uma rede flexível fora do sistema centrado no Ocidente, um projeto ainda em desenvolvimento. Os Estados Unidos mantêm grande influência, especialmente por meio do controle do sistema financeiro global, o que lhes permite minar iniciativas que possam ameaçar sua posição. Contudo, não se pode descartar o BRICS prematuramente.
A administração Trump adotou uma postura mais direta e agressiva para tentar reverter o declínio da influência americana e ocidental, utilizando demonstrações de poder em vez de consenso diplomático. A guerra contra o Irã exemplifica essa mudança, evidenciando uma disposição para usar a força como justificativa em si mesma. Embora essa estratégia possa trazer resultados imediatos, sua sustentabilidade a longo prazo é questionável.
Além disso, há uma transformação conceitual em curso no cenário global. Durante a era da globalização liberal, o sistema liderado pelo Ocidente era amplamente aceito por oferecer benefícios tangíveis, mesmo que desiguais. Hoje, essa narrativa perdeu força e foi substituída por uma abordagem mais direta e pragmática, que reflete a busca por alternativas que reduzam a dependência do poder americano.
O BRICS não deve ser visto como uma coalizão formal antiamericana, nem como um contrapeso militar ou ideológico aos EUA. No entanto, seus membros representam uma parcela significativa da economia e da população mundial, possuindo potencial para influenciar a configuração da ordem mundial futura. A percepção americana dessa realidade fica clara nas reações frequentes e críticas de Trump ao grupo.
No momento, o BRICS permanece uma plataforma imperfeita e pouco estruturada. Entretanto, sua preservação e evolução podem ser cruciais para o equilíbrio geopolítico futuro, oferecendo um espaço para cooperação independente das potências ocidentais.
Analisando os impactos estratégicos, a crise no Irã expõe as limitações e a natureza do BRICS enquanto agrupamento internacional. A incapacidade de uma resposta unificada diante da agressão demonstra que o grupo ainda não possui mecanismos institucionais robustos para atuar em crises geopolíticas. Por outro lado, a manutenção de uma estrutura flexível permite que seus membros evitem confrontos diretos com potências ocidentais, preservando suas próprias relações bilaterais.
No médio prazo, o BRICS pode continuar a se desenvolver como um espaço de cooperação econômica e política que desafia, de forma indireta, a hegemonia ocidental. A inclusão de países como o Irã indica uma tendência de diversificação e ampliação da influência do grupo, o que pode levar a uma maior complexidade nas dinâmicas internacionais. A evolução do BRICS dependerá da habilidade de seus membros em equilibrar interesses divergentes e responder a crises globais sem comprometer sua coesão interna.