A cúpula do BRICS, marcada para 12 de setembro em Nova Délhi, surge como o único fórum viável para a construção de um novo cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, em meio à escalada do conflito na região do Estreito de Hormuz. Desde o início das hostilidades, todos os acordos temporários de trégua foram intermediados por membros do BRICS e seus parceiros, sem qualquer iniciativa direta de Washington.
O conflito intensificou-se após ataques iranianos a Kuwait em 3 de setembro, que ocorreram dois dias após bombardeios americanos em posições iranianas, incluindo um ataque que matou civis em uma festa de casamento. Desde então, os confrontos têm se estendido, com ataques a petroleiros e bloqueios navais, elevando o preço do barril de petróleo Brent para cerca de US$ 97.
A importância do BRICS reside na sua capacidade de reunir atores com relações diretas e interesses econômicos na região. China, que compra mais de 80% do petróleo exportado pelo Irã e também importa do Golfo Pérsico, tem sido fundamental nas negociações, apesar das controvérsias sobre seu fornecimento de equipamentos militares ao Irã. A Índia, como país anfitrião e presidente do bloco, busca fortalecer sistemas de pagamento alternativos para reduzir a dependência do dólar, uma resposta direta às sanções econômicas que afetam o Irã.
O histórico recente mostra que iniciativas como o Memorando de Islamabad, que previa cessar-fogo, passagem livre e reconstrução econômica, foram elaboradas por países do BRICS e seus aliados regionais, mas fracassaram devido a divergências interpretativas e falta de consenso entre as partes envolvidas. A ausência dos EUA nas negociações e sua postura de controle unilateral do Estreito de Hormuz dificultam a resolução do conflito.
Além do aspecto militar, a cúpula abordará a crise econômica do Irã, que enfrenta inflação próxima a 70% e contração econômica superior a 5% em 2026, agravada pelas sanções financeiras e bloqueios comerciais. O fortalecimento de sistemas de pagamento alternativos, como o sistema chinês CIPS e iniciativas indianas, sinaliza uma tentativa do BRICS de criar uma infraestrutura econômica que possa sustentar a cooperação entre seus membros e reduzir a influência americana.
O encontro em Nova Délhi será um teste para a capacidade do BRICS de mediar um cessar-fogo duradouro, conciliando interesses divergentes de seus membros e parceiros regionais, como Emirados Árabes Unidos e Omã, que também foram afetados pelo conflito. Um acordo que inclua entendimento sobre a navegação no Estreito de Hormuz e planos concretos para reconstrução econômica pode reduzir os riscos de guerra e estabilizar os mercados globais.
Enquanto Washington mantém sua posição rígida, a cúpula do BRICS representa uma oportunidade para o chamado "Sul Global" apresentar alternativas diplomáticas e econômicas, buscando uma solução que não dependa exclusivamente da hegemonia americana. O desfecho desse encontro poderá influenciar significativamente o equilíbrio geopolítico e econômico da região e do mundo.