Dados alfandegários iranianos analisados pelo The Wall Street Journal registraram cerca de 1.300 remessas aéreas da China para o Ministério da Defesa do Irã até o fim de junho de 2026. Segundo a reportagem, as cargas incluíam eletrônicos, aparelhos de GPS, motores elétricos e peças de motores de aeronaves que podem servir tanto a usos civis quanto militares.
O ponto central é a escala e o destino declarado das remessas. O Ministério da Defesa iraniano aparece como destinatário, e parte das entradas teria sido classificada como importação de defesa isenta de tarifas no Irã. Em um dos casos relatados, mais de uma dúzia de carregamentos chegou dois dias depois de uma entrega de eletrônicos e levava peças capazes de uso em drones, avaliadas em mais de US$ 6 milhões.
Isso não equivale, porém, a uma entrega comprovada de 1.300 drones, mísseis ou armas prontas. Bens de uso duplo são produtos que também podem ter aplicação civil. GPS, motores e componentes eletrônicos podem ajudar na produção ou na orientação de drones e mísseis, mas os registros descritos não demonstram que cada peça foi incorporada a armas iranianas ou usada em operações militares.
O transporte aéreo ajuda a explicar por que essas remessas atraem atenção. A frequência de voos da Mahan Air entre China e Irã teria subido de cerca de quatro por semana no início de março para 27 no fim de abril. A reportagem situa esse aumento em meio a sanções americanas e restrições ao comércio marítimo iraniano, cenário em que rotas aéreas podem ganhar peso para levar cargas sensíveis com maior rapidez.
A informação também não estabelece quem organizou cada envio no lado chinês, nem prova envolvimento direto do governo de Pequim. A China rejeitou a acusação de que empresas chinesas estariam alimentando o conflito, afirmou controlar exportações de produtos de uso duplo e voltou a criticar sanções unilaterais dos Estados Unidos sobre o comércio com o Irã.
Na prática, o caso expõe uma zona cinzenta importante: componentes comuns podem reforçar capacidades militares sem que haja transferência declarada de armas completas. Para o Irã, o acesso contínuo a esse tipo de peça pode ser relevante para sustentar programas de drones e mísseis. Para a China, as remessas ampliam a pressão para demonstrar como seus controles de exportação funcionam quando produtos civis ou de uso duplo chegam a um destinatário militar iraniano.