O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou uma nova política que restringe a emissão de vistos para indivíduos provenientes de países das Américas que apoiem adversários que buscam minar os interesses americanos na região. A medida já resultou na revogação de vistos de 26 pessoas, conforme comunicado oficial divulgado em 16 de abril de 2026.
Esta iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump, que busca ampliar a influência dos EUA no Hemisfério Ocidental, em uma abordagem denominada "Doutrina Donroe", inspirada na histórica Doutrina Monroe do século XIX. Desde o início de seu segundo mandato, o presidente Trump adotou uma postura firme contra o tráfico de drogas nas Américas, ameaçando impor sanções econômicas e até ações militares contra países que não cooperem.
Além disso, a administração Trump tem intensificado esforços para conter a crescente influência da China na América Latina, onde muitos países têm estreitado laços econômicos e políticos com a potência asiática. O Departamento de Estado esclareceu que as restrições de vistos se aplicam a indivíduos que "conscientemente direcionam, autorizam, financiam ou oferecem suporte significativo" a adversários dos EUA na região.
Entre as atividades que justificam as restrições estão a facilitação para que potências adversárias adquiram ou controlem ativos estratégicos, a desestabilização da segurança regional, a sabotagem dos interesses econômicos americanos e a condução de operações de influência que comprometam a soberania e a estabilidade dos países hemisféricos. O comunicado evitou mencionar diretamente a China ou a campanha antidrogas, mas a linguagem sugere um foco nessas questões.
Esta política de revogação de vistos não é inédita na atual administração. No ano anterior, foram tomadas medidas para cancelar vistos de manifestantes pró-Palestina, sob o argumento de que sua presença poderia afetar a política externa dos EUA. Recentemente, pelo menos sete pessoas com vínculos familiares ao governo iraniano ou relacionados à Revolução Iraniana de 1979 também tiveram seus vistos cancelados.
O Departamento de Estado não divulgou os nomes dos 26 indivíduos afetados pela nova política, mas indicou que a base legal para as restrições está na Lei de Imigração e Nacionalidade, que permite negar entrada a estrangeiros que possam causar "consequências adversas sérias para a política externa dos Estados Unidos".
Embora alguns esforços de deportação tenham sido abandonados, pelo menos duas pessoas, Mahmoud Khalil e Badar Khan Suri, permanecem sob ameaça de expulsão. No contexto latino-americano, autoridades brasileiras envolvidas em processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro tiveram seus vistos cancelados, incluindo o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Em setembro, o presidente colombiano Gustavo Petro também teve seu visto revogado após críticas à política dos EUA na Assembleia Geral da ONU, embora tenha sido convidado posteriormente à Casa Branca em um gesto de distensão.
As restrições de vistos são parte de uma política mais ampla da administração Trump para exercer pressão sobre grupos estrangeiros e restringir a imigração. No início de 2026, foram proibidos vistos para imigrantes de dezenas de países, com justificativas que incluem segurança nacional e sobrecarga em serviços sociais.
No campo militar, a administração adotou uma postura agressiva contra governos considerados adversários na América Latina. Em janeiro, os EUA realizaram uma operação contra a Venezuela que resultou na captura e detenção do presidente Nicolás Maduro. Também mantêm um bloqueio de combustível contra Cuba. Essas ações geraram confrontos que causaram dezenas de mortes entre cubanos e venezuelanos.
Além disso, desde setembro de 2025, os EUA conduziram pelo menos 51 ataques letais a embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Pacífico Oriental e no Mar do Caribe, com um total de pelo menos 177 mortos. Organizações de direitos humanos criticam essas operações como execuções extrajudiciais, enquanto o governo americano classificou diversos cartéis como organizações terroristas estrangeiras, alegando que buscam desestabilizar o país por meio do narcotráfico.
A política de restrição de vistos e ações militares no hemisfério refletem uma tentativa clara de reafirmar a hegemonia americana em sua vizinhança, confrontando influências externas e internas que desafiem seus interesses estratégicos.
Análise estratégica: A intensificação das restrições de vistos e das operações militares na América Latina pode aprofundar tensões diplomáticas na região, especialmente com países que mantêm relações estreitas com potências como China e Irã. A medida pode ser vista como uma tentativa de conter a influência de atores externos e internos considerados ameaças, mas também pode gerar resistência e fortalecer alianças alternativas entre países latino-americanos.
No médio prazo, a política dos EUA pode provocar uma polarização maior no hemisfério, dificultando negociações multilaterais e aumentando o risco de confrontos indiretos. A continuidade dessa abordagem dependerá da capacidade da administração Trump de equilibrar pressão e diálogo, além da resposta dos países afetados e das potências globais envolvidas.