A economia do Canadá apresenta sinais claros de dificuldades, apesar dos esforços do governo para fortalecer o país e torná-lo a economia mais robusta do G7. O primeiro-ministro Mark Carney tem investido tempo em viagens internacionais para atrair investimentos e promover o Canadá como um destino favorável para negócios. No entanto, diversos indicadores econômicos apontam para um cenário de crescimento modesto e desafios estruturais que afetam diferentes segmentos da população.
Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) canadense para este ano está estimado em 1,6%, posicionando-se atrás dos Estados Unidos, mas à frente de outros membros europeus do G7. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê uma leve melhora, com crescimento de 1,7% em 2027, sugerindo uma recuperação gradual após a desaceleração causada pelas tarifas comerciais impostas pelos EUA.
Recentemente, o Canadá entrou em recessão técnica, definida por dois trimestres consecutivos de queda no PIB, ocorridos entre o final de 2025 e início de 2026. Especialistas alertam que, apesar desse recuo, o país deve evitar uma recessão prolongada, mas reconhecem que a economia permanece fraca e vulnerável a choques externos.
A inflação é uma preocupação constante para a população canadense. Em maio, a taxa de inflação alcançou 3,2%, um aumento em relação aos 2,8% registrados em abril, impulsionada principalmente pela alta nos preços da energia, especialmente da gasolina, reflexo dos impactos do conflito no Irã. Embora esse índice seja inferior aos picos de 7% a 8% observados no verão de 2022, o custo de vida elevado afeta diretamente o poder de compra dos cidadãos.
Além da inflação tradicional, o aumento dos preços imobiliários tem sido classificado como uma "terceira forma de inflação", que beneficia os atuais proprietários de imóveis ao aumentar seu patrimônio, mas dificulta o acesso à casa própria para os jovens e novos compradores. O endividamento das famílias canadenses é o mais alto entre os países do G7, com grande parte concentrada em hipotecas, o que contribui para o aumento do patrimônio líquido, mas também eleva a vulnerabilidade financeira.
Pesquisas indicam que, embora cerca de 70% dos canadenses considerem suas finanças domésticas boas ou muito boas, uma parcela significativa, especialmente entre os locatários e famílias com renda inferior a 100 mil dólares canadenses, enfrenta dificuldades financeiras. A taxa de desemprego geral está em 6,6%, mas o desemprego juvenil permanece elevado, em 13,4%, ainda acima dos níveis pré-pandemia.
O primeiro-ministro Carney reconhece os desafios relacionados à acessibilidade e tem implementado medidas pontuais, como um benefício único para ajudar nas despesas com alimentos. Ao mesmo tempo, seu governo promove investimentos em infraestrutura e defesa, além de buscar expandir as exportações para mercados fora dos Estados Unidos, visando diversificar as relações comerciais e reduzir a dependência do principal parceiro econômico.
Entretanto, a relação comercial com os EUA continua sendo um fator crítico. A guerra tarifária iniciada pelo governo Trump tem impactado setores como aço, alumínio, cobre e automóveis, com tarifas que variam de 15% a 50% sobre alguns produtos. Empresas como a Wellmaster, de Ontário, que depende fortemente do mercado americano, enfrentam queda nas vendas e dificuldades para investir em tecnologia e pessoal.
As negociações entre Ottawa e Washington para aliviar essas tarifas e revisar o acordo comercial USMCA ainda não resultaram em um acordo definitivo. A incerteza sobre as regras comerciais dificulta o planejamento empresarial e pode atrasar investimentos essenciais para a recuperação econômica.
Além dos desafios externos, o Canadá enfrenta obstáculos internos, como barreiras comerciais entre províncias e um sistema tributário que pode ser menos competitivo em comparação a outras jurisdições. Apesar disso, o país possui vantagens fundamentais, como uma população bem educada, recursos naturais abundantes e baixa densidade populacional, que podem ser alavancadas para impulsionar o crescimento econômico.
A perspectiva para o futuro próximo depende da capacidade do governo de implementar reformas estruturais, concluir negociações comerciais e estimular investimentos produtivos. A pressão do mercado por resultados rápidos aumenta, especialmente diante da concorrência global por capital e oportunidades. A situação dos jovens e dos grupos mais vulneráveis continuará sendo um indicador importante da eficácia das políticas econômicas adotadas.
Em resumo, o Canadá enfrenta um momento delicado, com crescimento econômico limitado, desafios inflacionários e um mercado de trabalho que ainda não recuperou plenamente os níveis anteriores à pandemia. A diversificação comercial e a modernização da economia são passos essenciais para garantir maior resiliência e prosperidade no médio e longo prazo.