Nas recentes eleições locais realizadas no Reino Unido, partidos políticos considerados extremistas em diferentes espectros ideológicos conquistaram um número significativo de cadeiras, gerando apreensão entre a comunidade judaica britânica. Os partidos Verde, de orientação esquerdista e crítico do governo israelense, e Reform UK, de perfil anti-imigração e alinhado à direita, obtiveram avanços expressivos, superando os tradicionais partidos Trabalhista e Conservador em várias regiões.
O líder do Partido Verde, Zack Polanski, que é judeu, conduziu sua campanha com forte oposição a Israel, chegando a acusar o primeiro-ministro Keir Starmer de estar sob influência sionista. O partido tem enfrentado uma série de controvérsias relacionadas a postagens e declarações consideradas antissemitas e conspiratórias contra Israel por seus membros e candidatos.
O Reform UK, liderado por Nigel Farage, conhecido por seu papel na campanha do Brexit, conquistou 1.442 assentos em conselhos locais e o controle de 14 conselhos municipais. Já o Partido Verde obteve 374 assentos e o controle de quatro conselhos, além de vencer duas eleições para prefeito. Em contrapartida, os partidos Trabalhista e Conservador perderam 1.406 e 557 cadeiras, respectivamente.
Na disputa pela prefeitura do distrito de Hackney, no norte de Londres, que abriga uma comunidade ultraortodoxa judaica de cerca de 30 mil pessoas, a candidata do Partido Verde, Zoe Garbett, venceu após 24 anos de domínio trabalhista. Em seu discurso de vitória, Garbett criticou políticos que, segundo ela, apoiam genocídio, numa referência às acusações contra Israel na guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza.
Durante seu mandato como vereadora, Garbett apoiou uma moção para romper relações com Israel, qualificando o país como responsável por genocídio, apartheid e opressão contra o povo palestino. O Partido Verde tentou, sem sucesso, aprovar uma política que equiparasse o sionismo ao racismo em sua conferência de primavera.
Outros candidatos do Partido Verde eleitos em Hackney têm histórico de postagens controversas nas redes sociais, como Ifhat Shaheen, que descreveu os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 como uma defesa palestina. Moradores locais expressaram preocupação com o aumento de crimes de ódio antissemitas e com a polarização política causada pelo debate sobre o conflito no Oriente Médio.
Em Lewisham, no sudeste de Londres, Liam Shrivastava, também do Partido Verde, foi eleito prefeito, consolidando a presença do partido em áreas urbanas importantes.
Diversos candidatos do Partido Verde com histórico de declarações antissemitas foram eleitos em diferentes localidades. Mohammed Suleman, suspenso do partido antes da eleição por compartilhar conteúdos ofensivos contra Israel e judeus, foi eleito em Newcastle. Tina Ion, também candidata em Newcastle, enfrentou críticas por se referir a "sionistas" com termos pejorativos e por publicar imagens ofensivas.
Em Barnet, no norte de Londres, Charli Thompson conquistou uma cadeira para o Partido Verde, enquanto Conservadores e Trabalhistas dividiram igualmente os demais assentos. Thompson, ex-simpatizante do ex-líder trabalhista Jeremy Corbyn, conhecido por suas posições críticas a Israel, recusou-se a esclarecer suas postagens nas redes sociais quando questionada.
Outros membros do Partido Verde, como Brian Capaloff e Joe Belcher, estão sob investigação por comentários nas redes sociais, incluindo negação de ataques terroristas antissemitas e teorias conspiratórias sobre o ataque do Hamas em outubro de 2023.
Kamal Hawwash, acadêmico palestino e candidato do Partido Verde, foi eleito para o conselho de Birmingham, defendendo que manifestações pró-Gaza foram injustamente rotuladas como antissemitas.
Duas candidatas do Partido Verde em Lambeth, Sabine Mairey e Saiqa Ali, foram presas por suspeita de incitação ao ódio racial em postagens online, incluindo declarações que justificavam ataques contra sinagogas e apoio a militantes do Hamas.
No espectro do Reform UK, também foram eleitos candidatos com histórico de declarações antissemitas e negacionismo do Holocausto. Jay Leslie Cooper, eleito no condado de Merseyside, negou publicamente a existência do Holocausto e questionou o número de vítimas judias durante a Segunda Guerra Mundial.
Stuart Prior, eleito no conselho de Rochford, foi acusado de fazer declarações racistas e de elogiar violência contra minorias religiosas nas redes sociais.
O líder do Reform UK, Nigel Farage, enfrenta acusações de ter feito gestos e comentários associados ao nazismo durante sua juventude.
O primeiro-ministro Keir Starmer reconheceu a dificuldade dos resultados eleitorais, lamentando as perdas de representantes trabalhistas e assumindo responsabilidade pelo desempenho do partido.
O chefe da Polícia Metropolitana de Londres alertou que a comunidade judaica enfrenta atualmente a maior ameaça já registrada, descrevendo a situação como uma epidemia de antissemitismo. Nos últimos meses, incidentes como ataques a sinagogas e incêndios criminosos contra ambulâncias de uma instituição judaica têm aumentado, especialmente após o início da guerra em Gaza em outubro de 2023.
O avanço de partidos com membros acusados de antissemitismo nas eleições locais pode intensificar tensões sociais e aumentar o sentimento de insegurança entre os judeus britânicos. A presença desses grupos no poder local pode influenciar políticas públicas e o ambiente político, especialmente em áreas com comunidades judaicas significativas.
A situação exige atenção das autoridades para prevenir a escalada de crimes de ódio e garantir a proteção de minorias. O cenário político também poderá sofrer mudanças, com os partidos tradicionais buscando estratégias para recuperar espaço diante do crescimento de forças políticas consideradas extremistas.
Nos próximos meses, será importante acompanhar como esses partidos exercerão sua influência nos conselhos locais e se medidas concretas serão adotadas para conter o aumento do antissemitismo e promover a convivência pacífica nas comunidades afetadas.