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domingo, 04 de janeiro de 2026
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Empresa israelense BlackCore é investigada por interferência em eleições na França

Autoridades francesas investigam a empresa israelense BlackCore por campanha de desinformação contra candidatos de esquerda nas eleições municipais, levantando preocupações sobre interferência estrangeira.

Empresa israelense BlackCore é investigada por interferência em eleições na França

Autoridades francesas estão conduzindo investigações sobre uma suposta campanha de desinformação e manipulação eleitoral atribuída à empresa israelense BlackCore. A companhia teria atuado contra três candidatos de esquerda nas eleições municipais de março em cidades como Marselha, Toulouse e Roubaix. Os alvos são membros do partido França Insubmissa (LFI), liderado pelo presidenciável Jean-Luc Mélenchon, conhecido por sua postura crítica ao governo de Israel.

Em Marselha, o candidato Sébastien Delogu foi alvo de acusações falsas de estupro, divulgadas por meio de perfis falsos no Facebook e adesivos com códigos QR espalhados pela cidade. Além disso, imagens falsas geradas por inteligência artificial, que mostravam nudez do candidato, foram compartilhadas com legendas depreciativas relacionadas ao seu apoio à causa palestina.

Em Toulouse e Roubaix, perfis automatizados impulsionaram conteúdos difamatórios contra François Piquemal e David Guiraud, respectivamente. Piquemal foi falsamente acusado de pedofilia, enquanto Guiraud e o partido foram retratados como defensores da lei islâmica, numa tentativa de afastar eleitores não muçulmanos. Um site que se apresentava como um guia de voto para muçulmanos, elaborado por um grupo islamista, também fazia parte da estratégia para influenciar o pleito.

Uma apuração conjunta de veículos franceses e israelenses revelou que a BlackCore foi a responsável por essa operação de influência. A empresa se apresenta como especialista em guerra da informação, oferecendo serviços de manipulação digital, cibersegurança e estratégias para moldar narrativas políticas. Entretanto, não há registros oficiais da empresa em nenhum país, e seu site foi registrado anonimamente recentemente, o que levanta dúvidas sobre sua real existência e histórico.

A investigação identificou conexões entre a BlackCore e outras empresas israelenses, como Galacticos e SNI, cujos proprietários negam envolvimento direto. Algumas ferramentas usadas para criar perfis falsos nas redes sociais foram desenvolvidas por essas empresas, que empregam profissionais com experiência em unidades de inteligência militar israelenses, incluindo a Unidade 8200.

Além disso, a BlackCore tem ligações com Yigal Unna, ex-chefe da Direção Nacional de Cibersegurança de Israel, que afirmou ter sido convidado a trabalhar em um projeto relacionado a inteligência de fontes abertas e proteção de marcas comerciais, mas recusou a proposta.

Essa operação se insere em um contexto maior de atuação de empresas israelenses de inteligência privada, como a Black Cube, que já interferiu em eleições na Europa, incluindo Chipre e Eslovênia. Essas ações costumam favorecer interesses do Estado de Israel, especialmente em países onde governos ou líderes adotam posições críticas ao país ou reconhecem a Palestina.

No caso francês, o partido LFI tem uma postura firme contra as políticas israelenses na Faixa de Gaza, classificando-as como genocídio, e seu líder Jean-Luc Mélenchon tem cobrado do presidente Emmanuel Macron medidas mais rigorosas para coibir interferências estrangeiras nas eleições.

Os resultados eleitorais foram impactados: Delogu desistiu do segundo turno para evitar a divisão do voto de esquerda, Guiraud venceu em Roubaix, e Piquemal perdeu por margem estreita em Toulouse, contestando judicialmente o resultado. A BlackCore está agora sob investigação criminal, e o ministro do Interior francês anunciou que o governo tomará medidas legais contra a empresa.

O Ministério das Relações Exteriores de Israel nega conhecimento sobre a BlackCore ou suas operações. Até o momento, não está claro quem contratou a empresa para atuar na França, assim como permanece desconhecida a origem da contratação da Black Cube em outras intervenções europeias.

Análise estratégica aponta que a atuação de empresas como BlackCore evidencia a crescente utilização de ferramentas de guerra da informação para influenciar processos democráticos em países ocidentais. Essa prática pode gerar desconfiança nas instituições eleitorais e aumentar a polarização política. A falta de transparência e o uso de identidades falsas dificultam a responsabilização, exigindo respostas jurídicas e políticas mais robustas.

No futuro próximo, é provável que as autoridades europeias intensifiquem a fiscalização sobre interferências externas em eleições, especialmente aquelas associadas a atores estatais ou paraestatais. O episódio também pode impulsionar debates sobre regulamentação de tecnologias digitais e proteção contra campanhas de desinformação, além de impactar as relações diplomáticas entre Israel e países afetados por essas operações.