Jared Kushner, enviado especial do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump para o Oriente Médio, realizou uma reunião com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em Jerusalém. O encontro ocorreu após Kushner ter mantido conversas incomuns com representantes do Hamas no Egito, visando discutir a implementação do plano de paz para Gaza apoiado pelos EUA. A visita de Kushner a Israel marca uma tentativa de avançar um acordo que enfrenta resistência significativa, principalmente por parte do governo israelense.
Na semana anterior, Israel rejeitou formalmente o plano de paz de 15 pontos proposto por Trump, que inclui a retirada das tropas israelenses de Gaza e a reconstrução da região sob uma nova administração civil palestina. A rejeição ocorreu mesmo após o Conselho de Paz, liderado por Trump, anunciar um acordo para o desarmamento completo do Hamas e de outros grupos armados na Faixa de Gaza. O Conselho de Paz foi criado inicialmente para promover a paz em Gaza, mas expandiu sua atuação para conflitos globais.
Além de Kushner, os enviados do Conselho de Paz, Nickolay Mladenov e Tony Blair, também se encontraram com Netanyahu com o objetivo de impulsionar a proposta de paz. O Conselho busca demonstrar que o plano ainda pode avançar, apesar da firme oposição do premiê israelense. O Hamas concordou em entregar suas armas em troca de uma retirada gradual das tropas israelenses, mas Israel exige o desarmamento total do grupo antes de qualquer retirada.
Outro ponto de divergência é o destino das armas entregues pelo Hamas. Israel insiste que elas sejam destruídas, rejeitando a ideia de que sejam armazenadas por um comitê palestino tecnocrático, temendo que o Hamas possa recuperá-las. Além disso, há resistência à participação de Turquia e Catar na supervisão do cumprimento das condições por parte do Hamas.
A posição de Netanyahu tem se tornado mais inflexível, possivelmente influenciada pelo cenário político interno, com as eleições gerais previstas para outubro de 2026. Seu partido enfrenta dificuldades nas pesquisas, e membros da coalizão governista defendem uma postura mais dura em relação a Gaza. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, conhecido por suas posições extremas, defende ações militares intensificadas contra o Hamas, incluindo "eliminação direcionada" de dezenas de pessoas na região.
No domingo, Kushner também se reuniu com o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, e liderou um encontro com uma delegação do Hamas, chefiada pelo novo líder Khalil al-Hayya. Essa foi a primeira reunião de alto nível entre o enviado americano e o Hamas desde o acordo de cessar-fogo firmado no ano anterior. Participaram ainda representantes do Conselho de Paz, do Egito, Catar e Turquia, países que atuam como mediadores no processo de paz.
Embora não tenha sido divulgada uma declaração oficial sobre o conteúdo das negociações, relatos indicam que os temas centrais foram o desarmamento do Hamas, a retirada das tropas israelenses e a facilitação de esforços humanitários em Gaza. Fontes próximas ao encontro mencionaram a intenção de transferir todas as responsabilidades governamentais para um comitê nacional palestino, garantindo que o Hamas não tenha papel na administração futura da região, além da possível implantação de uma força internacional para estabilizar a área.
Em 31 de julho, o plano de paz foi detalhado como um roteiro para a desmilitarização e reconstrução de Gaza, mas a rejeição de Israel gerou críticas de vários países da região, incluindo Egito, Emirados Árabes Unidos, Catar, Arábia Saudita, Jordânia, Turquia, Paquistão e Indonésia. Após a rejeição, houve uma breve redução nos ataques aéreos israelenses na Faixa de Gaza, embora as operações militares tenham continuado de forma intermitente.
Desde o cessar-fogo que entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, o Exército de Defesa de Israel (IDF) tem realizado ataques quase diários contra alvos ligados ao Hamas e à Jihad Islâmica. O conflito, que teve início com o ataque do Hamas ao sul de Israel em 7 de outubro de 2023, resultou em milhares de mortes e deslocamentos massivos na região. O Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, estima que mais de 1.200 pessoas foram mortas desde o cessar-fogo, incluindo centenas de crianças.
As tensões permanecem altas, com acusações mútuas entre Israel e Hamas sobre violações do cessar-fogo. A guerra desencadeada em 2023 deixou um impacto humanitário severo, com cerca de 1,9 milhão de pessoas deslocadas, o que representa aproximadamente 90% da população de Gaza.
A resistência de Netanyahu em aceitar o plano de paz dos EUA indica que as negociações continuarão complexas. A influência política interna, a desconfiança em relação ao Hamas e a preocupação com a segurança nacional moldam a postura israelense. Por outro lado, o envolvimento de atores regionais e internacionais no processo de mediação sugere que esforços diplomáticos persistirão, embora o caminho para uma solução definitiva ainda seja incerto.
A continuidade das conversas entre Kushner, Netanyahu e representantes do Hamas poderá definir os próximos passos para a estabilidade em Gaza. A possibilidade de uma força internacional estabilizadora e a transferência de responsabilidades para uma administração palestina civil são pontos cruciais para o avanço do acordo. No entanto, a oposição interna em Israel e as condições rígidas impostas ao Hamas podem dificultar a implementação do plano.
Em termos estratégicos, o desfecho dessas negociações terá impacto direto na segurança regional e na dinâmica das relações entre Israel, os Estados Unidos e os países árabes envolvidos. Um acordo que contemple o desarmamento do Hamas e a reconstrução de Gaza sob uma administração civil poderia reduzir a violência e abrir espaço para a reconstrução econômica e social da região. Por outro lado, a rejeição persistente do plano pode levar à continuidade dos confrontos e ao agravamento da crise humanitária.
Assim, o cenário futuro dependerá da capacidade dos mediadores em conciliar as demandas de segurança de Israel com as aspirações políticas e humanitárias dos palestinos, além do equilíbrio das pressões internas em cada lado. A evolução desse processo será fundamental para a estabilidade do Oriente Médio nos próximos meses.