Delegações militares dos Estados Unidos e do Líbano reuniram-se em Beirute para avançar na implementação do acordo mediado pelos EUA que prevê a retirada gradual das tropas israelenses do sul do Líbano. O encontro teve como foco principal a criação de um mecanismo para operacionalizar a primeira das duas áreas denominadas “zonas piloto”, conforme estabelecido no acordo firmado em 26 de junho.
Segundo informações de fontes locais, o diálogo busca definir os detalhes para que o Exército libanês, historicamente limitado em sua atuação na região, assuma o controle total dessas áreas específicas. O acordo prevê que Israel se retire progressivamente das regiões onde mantém presença militar para combater o Hezbollah, grupo que rejeita o pacto e mantém sua oposição às negociações diretas entre os dois países.
A presença da delegação americana em Beirute foi confirmada pelo embaixador dos EUA, Michel Issa, que informou ao presidente libanês Joseph Aoun que o objetivo da visita era estabelecer o método para implementar o acordo. Apesar da ausência de um cronograma definido para a retirada israelense, autoridades de Israel afirmaram que suas forças permanecerão em uma “zona de segurança” de aproximadamente 10 quilômetros enquanto o Hezbollah continuar armado.
A resistência do Hezbollah às negociações diretas está ligada à preferência do grupo por manter um cessar-fogo mediado entre os Estados Unidos e o Irã, que inclui a suspensão das hostilidades no Líbano. No entanto, mesmo com recentes quebras desse cessar-fogo em outras regiões, o grupo tem evitado ações militares no território libanês.
O conflito, iniciado em março após ataques dos EUA e Israel contra o Irã, provocou o deslocamento de mais de um milhão de pessoas no Líbano, segundo a agência humanitária da ONU, OCHA. Recentemente, cerca de 732 mil deslocados retornaram às suas residências, reduzindo o número de pessoas ainda deslocadas para aproximadamente 430 mil.
Apesar do acordo, Israel continuou realizando ataques no sul do Líbano. No último sábado, foram registrados bombardeios em áreas residenciais no distrito de Tiro, deixando sete feridos. As forças israelenses também avançaram com tanques e equipamentos pesados em direção à cidade de Beit Yahoun e provocaram incêndios em Houla, causando danos a residências e plantações de oliveiras. Além disso, houve destruição de casas no distrito de Nabatieh.
As negociações entre Líbano e Israel, que não mantêm relações diplomáticas formais, já passaram por cinco rodadas desde o início do conflito. O próximo encontro está agendado para ocorrer em Roma na próxima quarta e quinta-feira, com o Líbano condicionando sua participação ao início da retirada israelense das zonas piloto.
Essas conversas antecedem a visita esperada do presidente libanês Joseph Aoun a Washington ainda neste mês, a convite do presidente americano Donald Trump. A continuidade do diálogo e o avanço na implementação do acordo são vistos como passos cruciais para a estabilidade na região.
A negociação de zonas piloto representa uma tentativa de criar precedentes para a desocupação israelense e o fortalecimento da autoridade libanesa no sul do país, uma área historicamente sensível devido à presença do Hezbollah e aos interesses estratégicos de Israel. A ausência de um cronograma claro para a retirada e a rejeição do Hezbollah indicam que o processo ainda enfrenta desafios significativos.
A manutenção de ataques israelenses, mesmo após o acordo, ressalta a complexidade da situação e a fragilidade do cessar-fogo vigente. A continuidade das negociações dependerá da capacidade das partes em equilibrar interesses divergentes e garantir a segurança na região.
Em termos estratégicos, o sucesso na implementação das zonas piloto pode abrir caminho para uma redução gradual da presença militar israelense, potencialmente diminuindo tensões e facilitando a reconstrução do sul do Líbano. Contudo, a influência do Hezbollah e a dinâmica regional envolvendo Irã, EUA e Israel permanecem fatores críticos que podem influenciar os próximos passos.
A visita do presidente Aoun a Washington poderá reforçar o papel dos EUA como mediadores e incentivar avanços no diálogo, mas o cenário permanece instável, com riscos de novos episódios de violência caso os acordos não sejam cumpridos integralmente. A evolução desse processo será determinante para o futuro da segurança e da política no Levante.