A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, marcado para 4 de outubro, uma informação revelada nesta quarta-feira colocou a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro dentro de um cenário muito maior do que a política doméstica.
Representantes da inteligência brasileira disseram a autoridades francesas e alemãs que detectaram interferência dos Estados Unidos e da Rússia relacionada ao processo eleitoral brasileiro, segundo documentos e fontes consultados pela Reuters.
O relato não esclarece o que Moscou teria feito, mas descreve a atuação atribuída aos Estados Unidos como indo de mecanismos classificados pelos brasileiros como “lawfare” até interferências realizadas de maneira aberta. Washington já negou anteriormente que esteja tentando interferir na eleição brasileira, enquanto Moscou também rejeitou no passado acusações de interferência eleitoral em outros países.
A revelação imediatamente produz uma pergunta que os documentos disponíveis ainda não respondem: se duas das maiores potências militares do planeta estão acompanhando tão de perto a eleição brasileira, o que exatamente cada uma delas tem a ganhar ou perder com o resultado? É nesse ponto que a notícia começa a se transformar em uma questão geopolítica.
O encontro que colocou o Brasil no radar europeu
Entre 9 e 11 de setembro, representantes da França e da Alemanha viajaram a Brasília integrando uma delegação europeia. Os franceses pertenciam à Viginum, agência especializada na identificação de operações estrangeiras de manipulação informacional, e à Arcom, reguladora francesa de mídia e comunicações. Os alemães representavam a Agência Federal de Redes.
A agenda incluía a aplicação do Digital Services Act europeu e, segundo documento obtido pela Reuters, a preparação de respostas coordenadas diante das eleições de 2026. Foi durante esses encontros que integrantes da Abin teriam mencionado a existência de interferência americana e russa. Autoridades francesas também enxergariam, segundo a Reuters, a eleição brasileira como um possível sinal antecipado dos desafios que poderão enfrentar na eleição presidencial francesa de 2027. A preocupação não surgiu repentinamente.
Meses antes, a própria Abin havia colocado a interferência externa entre os principais riscos para o processo eleitoral brasileiro. No relatório público “Brasil: Desafios para a Inteligência 2026”, a agência alertou que Estados ou outros atores externos poderiam tentar desestabilizar eleições, afetar a confiança institucional ou favorecer seus próprios interesses geopolíticos e econômicos. Entre os instrumentos citados estão campanhas de desinformação, ataques cibernéticos, financiamento oculto e manipulação jurídico-legal.
Agora existe uma diferença importante: pela primeira vez, o relato obtido pela Reuters associa diretamente Estados Unidos e Rússia às preocupações apresentadas pela inteligência brasileira.
O mistério está principalmente do lado russo
A parte mais intrigante da história talvez não seja aquilo que apareceu no relatório, mas aquilo que não apareceu. Segundo a Reuters, funcionários brasileiros forneceram alguma caracterização das ações atribuídas aos Estados Unidos, mas não apresentaram detalhes sobre a suposta interferência russa no documento consultado pela agência. Portanto, neste momento não é possível determinar publicamente se a preocupação brasileira envolve desinformação, operações cibernéticas, influência política, financiamento, redes digitais ou alguma outra atividade.
Essa ausência impede uma conclusão importante: não existe evidência pública suficiente para afirmar que Moscou esteja tentando favorecer Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato. Entretanto, isso não impede uma segunda pergunta, diferente da primeira: qual continuidade política no Brasil preservaria melhor as relações que Moscou construiu nos últimos anos? Aqui começam os elementos para uma análise.
Por que o atual relacionamento interessa à Rússia
Brasil e Rússia mantêm uma parceria que ultrapassa a relação pessoal entre Lula e Vladimir Putin. Os dois países estão entre os integrantes fundadores do BRICS e cooperam em fóruns multilaterais, comércio, agricultura, energia, ciência e tecnologia. Essa relação, porém, avançou significativamente ao longo de 2026.
Em fevereiro, Brasil e Rússia realizaram em Brasília a reunião de sua Comissão de Alto Nível de Cooperação. Entre os acordos estavam iniciativas envolvendo energia nuclear para fins pacíficos, radioisótopos medicinais e desenvolvimento do ciclo do combustível nuclear. Em maio, os dois governos voltaram a discutir expansão comercial, agricultura, indústria, ciência, tecnologia, energia, educação e finanças. A Rússia também reconheceu em junho todo o território brasileiro como livre de febre aftosa sem vacinação, ampliando possibilidades para produtos brasileiros no mercado russo.
Existe ainda uma dependência econômica bastante concreta. Dados reunidos pelo Banco Central mostram que as importações brasileiras provenientes da Rússia chegaram a US$ 6,5 bilhões em 2024, com os fertilizantes ganhando importância desde o início da guerra da Ucrânia.
Em agosto deste ano, Lula e Putin conversaram novamente. Segundo o relato russo da conversa, os dois presidentes discutiram expansão e diversificação do comércio e concordaram em manter coordenação na ONU e em outros fóruns multilaterais. Lula destacou publicamente a importância do fornecimento russo de diesel e fertilizantes e defendeu maior cooperação em energia, ciência, tecnologia e área naval. Nenhum desses fatos demonstra preferência eleitoral do Kremlin.
Do lado americano, as pistas são diferentes
A relação dos Estados Unidos com a eleição brasileira possui um componente que não aparece de maneira equivalente no caso russo: a aproximação política pública entre integrantes do governo Donald Trump e a família Bolsonaro.
Em maio, Flávio Bolsonaro foi recebido por Trump no Salão Oval da Casa Branca. Segundo a Reuters, participaram também Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. Durante o encontro foram discutidos temas como crime organizado, comércio e minerais críticos, e Trump perguntou ainda sobre Jair Bolsonaro.
A reportagem desta quarta-feira também situa o caso brasileiro dentro de uma política mais ampla do atual governo Trump. Segundo a Reuters, Washington passou a oferecer apoio público a políticos ideologicamente próximos em diferentes países da Europa e da América Latina, comportamento que vem gerando preocupação entre governos europeus. Isso torna a relação entre Washington e Flávio Bolsonaro mais visível do que qualquer eventual preferência eleitoral russa atualmente conhecida.
Ainda assim, existe uma distinção essencial: proximidade política não é automaticamente interferência eleitoral. Para demonstrar interferência seria necessário identificar ações destinadas a alterar ou condicionar o processo político brasileiro, algo que exige evidências sobre métodos, objetivos e responsáveis.
Trump e Lula também negociam
Existe ainda um fato que impede uma leitura simples segundo a qual Washington estaria politicamente condenado a romper com um eventual novo governo Lula. Estados Unidos e Brasil continuam negociando. Nesta própria quarta-feira, 30 de setembro, representantes dos dois governos reuniram-se em Milwaukee e concordaram em criar um grupo de trabalho para discutir um possível acordo comercial. O encontro deu continuidade ao diálogo iniciado depois de uma conversa telefônica entre Lula e Trump em agosto.
Isso demonstra uma característica básica das relações entre Estados: afinidade ideológica e interesse nacional não são a mesma coisa. Um governo americano pode possuir maior proximidade política com determinado grupo brasileiro e, simultaneamente, negociar comércio, segurança e investimentos com o governo que ocupa o Palácio do Planalto. O mesmo vale para a Rússia.
Por isso, reduzir o cenário a “Putin quer Lula e Trump quer Flávio” seria mais simples do que os fatos permitem. Mas ignorar completamente essa possibilidade também deixaria de observar os incentivos existentes.
O Brasil tornou-se importante demais para ser apenas espectador
Existe uma explicação estrutural para o interesse estrangeiro. O Brasil reúne características pouco comuns: é a maior economia da América Latina, grande produtor mundial de alimentos e energia, possui algumas das maiores reservas de minerais estratégicos do planeta, controla parte importante da Amazônia, participa do G20 e do BRICS e mantém relações econômicas profundas tanto com Estados Unidos e Europa quanto com China e Rússia. Em um sistema internacional progressivamente dividido pela competição entre grandes potências, a orientação externa brasileira possui consequências que ultrapassam Brasília.
A própria Abin descreveu esse ambiente em seu relatório de 2026. Para a agência, a transição para uma ordem internacional mais multipolar, associada à competição entre grandes potências por tecnologia, informação, recursos e cadeias produtivas, aumenta a importância estratégica brasileira. Nesse contexto, uma eleição presidencial deixa de decidir apenas impostos, gastos públicos ou políticas sociais. Ela também influencia como uma das principais potências emergentes se posicionará entre Washington, Pequim, Moscou e Bruxelas durante os próximos quatro anos.
A hipótese que ainda precisa de provas
É aqui que as peças podem ser colocadas lado a lado. Moscou possui relações consolidadas com o governo Lula, cooperação dentro do BRICS, comércio relevante, fornecimento de fertilizantes e diesel e convergências em parte da agenda sobre multipolaridade.
Washington, sob Donald Trump, possui canais políticos públicos com Flávio Bolsonaro e sua família, dentro de uma política externa que também vem aproximando o governo americano de movimentos e candidatos conservadores em outros países.
Esses fatos permitem analisar incentivos estratégicos diferentes. Não permitem afirmar quem está sendo secretamente apoiado por quem. E essa diferença é fundamental.
O que poderia transformar a hipótese em algo muito maior seria a divulgação dos elementos que levaram a inteligência brasileira a mencionar especificamente a Rússia e os Estados Unidos.
Principalmente Moscou. Se a Abin revelar que tipo de atividade russa identificou, quando ela ocorreu, quais estruturas participaram e quais objetivos foram detectados, será possível comparar essas ações aos interesses estratégicos russos no Brasil.
Até lá, existe uma pergunta aberta, não uma conclusão.