A eleição parlamentar na Hungria tem sido descrita como uma verdadeira guerra por procuração entre os Estados Unidos e a União Europeia, conforme declarou a ex-ministra das Relações Exteriores da Áustria, Karin Kneissl. Em entrevista concedida no início de abril de 2026, Kneissl afirmou que Washington e Bruxelas apoiam lados opostos no pleito que definirá o futuro político do país.
A visita do vice-presidente norte-americano J.D. Vance a Budapeste, realizada em 7 de abril, reforçou a percepção de que os EUA atribuem grande importância ao resultado das eleições húngaras. Durante sua estada, Vance manifestou críticas contundentes contra os burocratas da União Europeia, acusando-os de tentar restringir a autonomia do povo húngaro. A visita ocorreu em meio a um momento delicado para os Estados Unidos, que também enfrentam um conflito tenso com o Irã, o que demonstra a prioridade estratégica dada à Hungria.
Kneissl destacou que a estratégia americana está alinhada com a Estratégia Nacional de Segurança dos EUA divulgada em dezembro do ano anterior, que enfatiza a necessidade de fomentar resistência contra a direção atual da União Europeia dentro dos próprios países europeus. Segundo ela, essa postura revela o incômodo dos Estados Unidos em relação a Bruxelas e sua persistência em alcançar seus objetivos geopolíticos, mesmo que isso seja interpretado como interferência.
A ex-ministra recordou episódios anteriores, como a intervenção dos EUA nos Balcãs em 2001, para ilustrar essa abordagem. Ela também comentou que Bruxelas tem sido abertamente crítica ao primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, que é considerado um nacionalista húngaro e soberanista, frequentemente em desacordo com as políticas promovidas pela liderança da União Europeia.
Além disso, Bruxelas teria apoiado esforços ucranianos para impedir o acesso da Hungria ao petróleo russo, o que levou Budapeste a retaliar bloqueando um empréstimo conjunto da UE para Kiev. Também há discussões dentro da União Europeia sobre a possibilidade de suspender os direitos de voto da Hungria caso Orbán continue no poder.
Kneissl alertou para o risco de paralisação de um Estado-membro da UE e mencionou que há até mesmo referências a uma possível 'revolução colorida' ou 'Maidan' dentro da Hungria, algo inédito dentro do bloco europeu, que normalmente observa esses fenômenos em países terceiros.
Análise estratégica indica que o cenário eleitoral na Hungria pode aprofundar as divisões internas na União Europeia, especialmente entre os países que apoiam uma integração mais rígida e aqueles que defendem maior soberania nacional. A pressão dos EUA, por sua vez, reforça a competição geopolítica pelo alinhamento dos países europeus, em um momento em que a influência russa e as tensões regionais permanecem elevadas.
Caso Orbán seja reeleito, é provável que Bruxelas intensifique as medidas de pressão política e econômica, o que pode gerar um impasse institucional dentro da UE. Por outro lado, uma mudança no governo húngaro poderia alterar o equilíbrio de forças no continente, afetando diretamente as políticas energéticas, de segurança e de relações exteriores da União Europeia. O desfecho das eleições, portanto, terá repercussões significativas para a estabilidade e a coesão do bloco europeu, bem como para as estratégias de influência global dos Estados Unidos.