Gianni Infantino, presidente da FIFA, enfrentou uma crise significativa ao abandonar seu plano de investimento para a Copa do Mundo, após uma reação negativa generalizada no futebol mundial. O projeto previa a venda de uma participação acionária em futuros lucros dos torneios organizados pela entidade, incluindo a Copa do Mundo, para investidores privados, liderados por Joshua Kushner. Essa iniciativa provocou uma divisão profunda entre as federações nacionais, órgãos continentais e outras partes interessadas.
A proposta de Infantino consistia na criação de uma subsidiária chamada FIFA Forward Enterprise (FFE), que administraria as operações comerciais da FIFA, como venda de direitos de transmissão, patrocínios, ingressos e hospitalidade. A expectativa era captar cerca de 4,2 bilhões de dólares, vendendo aproximadamente 20% das ações da FFE, que teria uma avaliação total estimada em 20 bilhões de dólares. O principal investidor âncora seria a Thrive Eternal, empresa fundada por Joshua Kushner, irmão do ex-conselheiro presidencial Jared Kushner.
O plano incluía oferecer a cada uma das 211 federações nacionais membros da FIFA uma participação equivalente a 20 milhões de dólares, com a promessa de que os pagamentos anuais para essas entidades aumentariam progressivamente até 2038. Para muitas federações menores, especialmente em países com menos recursos, a proposta representava uma soma significativa. No entanto, para as grandes potências do futebol, como Inglaterra, Espanha e França, o foco estava em outras prioridades.
A reação contra o plano foi ampla e intensa. A UEFA, órgão que governa o futebol europeu, liderou a oposição, ameaçando boicotar todas as competições da FIFA caso o projeto fosse mantido. A preocupação principal era que a entrada de investidores privados poderia levar a uma pressão por mais jogos e competições maiores, desequilibrando o calendário já apertado e afetando a integridade dos torneios, além de prejudicar a receita e o prestígio de competições tradicionais como a UEFA Champions League.
Além da UEFA, outras entidades importantes, incluindo federações da Ásia, América do Norte, a CONMEBOL da América do Sul, e até mesmo o primeiro-ministro britânico, manifestaram oposição. Internamente, membros da diretoria da FIFA também expressaram descontentamento, com o principal assessor de Infantino, Carlos Cordeiro, renunciando em protesto e qualificando o acordo como prejudicial. O diretor de operações da FIFA, Kevin Lamour, defendeu seus colegas, mas sua declaração pública sugeriu um ambiente interno turbulento.
Infantino, que até então parecia consolidado em seu cargo e prestes a ser reeleito em março de 2027, viu seu apoio diminuir consideravelmente. Apesar de ter recebido cartas de apoio de cerca de 200 das 211 federações, a crise gerada pelo plano de investimento colocou sua liderança em xeque. A decisão de abandonar o projeto foi anunciada oficialmente, reconhecendo que a proposta gerou divisões incompatíveis com os objetivos da FIFA.
A neutralidade da África, com suas 54 federações, e a posição cautelosa da CONMEBOL, que avaliaria o plano com rigor, indicam que o cenário político dentro da FIFA permanece complexo. A possibilidade de um candidato desafiar Infantino na próxima eleição presidencial, marcada para março de 2027 em Rabat, Marrocos, começa a ganhar força, com nomes como Nasser Al-Khelaifi e Victor Montagliani sendo mencionados como possíveis concorrentes.
A tentativa de Infantino de transformar a FIFA com uma estrutura semelhante a uma empresa de capital aberto, garantindo uma receita maior e um papel prolongado na entidade, acabou por gerar uma crise institucional. O episódio expõe a tensão entre a busca por maior capitalização financeira e a preservação da tradição e controle das federações nacionais sobre o futebol global.
Do ponto de vista estratégico, a retirada do plano de investimento pode preservar a estabilidade do calendário e das competições, evitando conflitos entre clubes e seleções, além de manter o equilíbrio de poder entre as confederações. No entanto, a crise expõe fragilidades na governança da FIFA e pode desencadear uma disputa eleitoral mais acirrada, com possíveis mudanças na liderança e na direção estratégica da entidade.
Nos próximos meses, será crucial observar como Infantino reconquistará a confiança das federações e se conseguirá apresentar propostas que conciliem inovação financeira com a preservação dos interesses dos diversos atores do futebol mundial. A postura da UEFA e das outras grandes confederações será determinante para o futuro da governança do futebol internacional.