Após uma série de ataques coordenados por grupos separatistas e militantes islâmicos no Mali, as forças russas presentes no país anunciaram a retirada da cidade de Kidal, localizada no norte da nação. A saída foi confirmada pelo Corpo Africano Russo, que atua em apoio ao governo militar do Mali. De acordo com publicações nas redes sociais, as tropas russas deixaram Kidal em conjunto com os militares malianos.
O grupo separatista Frente de Libertação do Azawad (FLA) declarou que os russos concordaram em se retirar permanentemente da cidade, reivindicando o controle total de Kidal e proclamando a região como "liberada". O Mali enfrenta insurgências há vários anos, tanto de grupos separatistas no norte quanto de organizações ligadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico.
No último fim de semana, explosões e tiroteios foram reportados em diversas localidades do Mali, incluindo a capital Bamako, e as cidades centrais de Sevare e Mopti, além de Gao e Kidal, situadas no norte, na borda sul do deserto do Saara. Em Kati, próxima à capital e sede de uma importante base militar, o ministro da Defesa do Mali, Sadio Camara, foi morto em um atentado suicida envolvendo um caminhão-bomba em sua residência.
O ataque, atribuído à FLA, que busca a independência para as regiões do norte dominadas pelo grupo étnico tuaregue, concentrou-se principalmente nas cidades do norte. Simultaneamente, o grupo jihadista Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) realizou ataques em diferentes áreas do país.
No domingo, os combates em Kidal foram retomados, mas logo depois, um porta-voz da FLA informou que um acordo foi firmado com o Corpo Africano Russo para garantir a retirada segura das tropas russas dos confrontos. O representante do grupo separatista havia declarado anteriormente que a FLA permanecia na cidade devido à presença de elementos do exército maliano e mercenários russos.
Kidal serviu como base não oficial do movimento separatista por mais de uma década, até ser retomada pelo exército do Mali com o apoio dos mercenários russos no final de 2023. Embora o Corpo Africano Russo tenha confirmado a saída da cidade, informou que suas operações continuariam em outras regiões do país, sem detalhar os locais.
Durante a retirada, feridos e equipamentos pesados foram evacuados. O Corpo Africano Russo destacou que a situação no Mali permanece complexa, com civis feridos sendo atendidos em suas unidades médicas.
A maioria dos combatentes do Corpo Africano Russo são ex-membros do grupo mercenário Wagner, que atuava na África sob contrato com governos locais para conter insurgências. Após a morte do líder do Wagner, Yevgeni Prigozhin, em 2023, o Ministério da Defesa da Rússia assumiu a maior parte das operações, dando origem ao Corpo Africano.
O Corpo Africano é supervisionado pelo vice-ministro da Defesa russo Yunus-Bek Yevkurov, com operações conduzidas pelo major-general Andrey Averyanov, ligado ao serviço de inteligência militar GRU. A presença russa em países africanos tem sido associada a acordos que garantem acesso a recursos naturais estratégicos, como ouro, diamantes e urânio.
Assim como o Wagner, o Corpo Africano enfrenta acusações de violações contra civis. No Mali, os membros do grupo recebem salários equivalentes a pelo menos três mil dólares mensais.
A retirada das tropas russas de Kidal representa um novo capítulo nos conflitos regionais do Mali, onde a instabilidade persiste devido à atuação de múltiplos grupos armados. A continuidade das operações russas em outras áreas sugere que o país permanece um foco estratégico para Moscou.
Do ponto de vista estratégico, a saída de Kidal pode enfraquecer temporariamente o controle do governo militar sobre o norte do Mali, abrindo espaço para o fortalecimento dos separatistas e grupos jihadistas. A manutenção das operações russas em outras regiões indica que Moscou busca preservar sua influência na região, especialmente diante da crescente presença de grupos insurgentes.
Nos próximos meses, a situação no Mali deve continuar volátil, com possíveis negociações entre os atores locais e internacionais para estabilizar o país. A atuação russa, embora reduzida em Kidal, pode ser redirecionada para outras áreas, mantendo o envolvimento militar e político no país. A evolução do conflito dependerá da capacidade das forças locais e internacionais de conter os grupos armados e avançar em processos de paz.