Na manhã de quinta-feira, após o lançamento de cerca de 200 foguetes e aproximadamente 20 drones pelo Hezbollah contra o norte de Israel, que resultou em danos materiais e ferimentos leves em duas pessoas, o agricultor Ofer Moskovitz estava trabalhando em seu pomar de abacates, localizado a cerca de 100 metros da Linha Azul, demarcação da fronteira com o Líbano reconhecida pela ONU. Moskovitz, de 60 anos, afirmou que apesar do perigo e do estresse constantes, não há alternativa senão continuar. Ele ressaltou a proximidade do campo com os redutos do Hezbollah, destacando que ambos os lados se observam mutuamente.
Desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que desencadeou uma série de confrontos, cerca de 60 mil moradores do norte de Israel foram evacuados devido ao temor de uma invasão do Hezbollah. O grupo libanês intensificou ataques quase diários com foguetes e morteiros contra instalações militares e áreas residenciais na região. Após 13 meses, um cessar-fogo foi firmado em novembro de 2024, permitindo o retorno gradual da população. Entretanto, os danos causados pelo Hezbollah foram extensos e ainda são visíveis.
Moskovitz destacou que a comunidade local permanece unida e resiliente, apesar do medo constante de uma possível invasão do Hezbollah em localidades como o Kibutz Misgav Am, onde reside. Ele criticou a falta de abrigos seguros nas residências, uma promessa governamental ainda não cumprida após o primeiro conflito de outubro de 2023. Além disso, mencionou que as construções locais não suportariam os foguetes mais recentes disparados pelo grupo libanês.
Enquanto isso, os conselhos regionais das comunidades nas fronteiras do norte e da Faixa de Gaza enviaram uma carta ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu protestando contra os cortes de 3% nos orçamentos de todos os ministérios, incluindo os destinados à reabilitação e proteção dessas áreas. O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett também criticou a decisão, ressaltando que os moradores do norte enfrentam ataques constantes enquanto o governo reduz os recursos para sua recuperação.
Agricultores como Moskovitz continuam a trabalhar em seus campos, apesar das sirenes e dos ataques frequentes. Ele mencionou que seus trabalhadores tailandeses permanecem nos campos, utilizando abrigos próximos e adotando medidas de segurança durante os ataques. Durante o conflito, cerca de 10 acres de seu pomar foram destruídos por destroços de foguetes do Hezbollah. Desde o cessar-fogo, ele tem limpado a área e replantado abacateiros que começam a florescer, um sinal de esperança para a recuperação agrícola da região.
Outro agricultor, Amit Fahima, do Moshav Dishon, também próximo à fronteira com o Líbano, destacou a tensão constante para cuidar das plantações durante a temporada de pulverização, mesmo com os frequentes alarmes noturnos. Fahima atua como gerente de projetos na ReGrow, um fundo filantrópico criado após os ataques de outubro de 2023 para reabilitar comunidades afetadas na Faixa de Gaza e no norte de Israel. A organização levantou 22 milhões de dólares para reconstrução, incluindo a agricultura, setor severamente atingido pelos ataques.
ReGrow identificou que mais de 1.250 acres de pomares e vinhedos foram destruídos durante os ataques do Hezbollah na Galileia e nas Colinas de Golã. Mesmo após dois anos e meio, grandes áreas agrícolas permanecem danificadas. A recuperação completa de um pomar pode levar de sete a nove anos, e há um esforço para replantar cerca de 550 mil árvores frutíferas e 32 mil videiras antes do fim da temporada atual. O norte de Israel é responsável pela maior parte da produção de frutas do país e abriga quase metade dos vinhedos nacionais.
Fahima também mencionou a construção de um muro de concreto de sete metros de altura que separa um pomar recém-plantado da vila libanesa de Kfar Kila, substituindo a antiga "Boa Cerca" que permitia o trabalho conjunto de agricultores israelenses e libaneses. A violência recente, porém, interrompeu essa cooperação.
Um caso emblemático é o do agricultor Moshe Weinstein, de 77 anos, cuja família cultiva a região há gerações. Em outubro de 2024, seu filho e quatro trabalhadores tailandeses foram mortos por um foguete do Hezbollah próximo à sua casa. Weinstein expressou dúvidas sobre continuar na fazenda diante da violência contínua e da sensação de abandono pelo Estado.
Moskovitz relatou que duas de suas três filhas, que planejavam retornar para viver em Misgav Am com suas famílias, decidiram postergar a volta devido à insegurança provocada pelos recentes conflitos. Essa hesitação reflete o impacto social e demográfico que a instabilidade pode gerar nas comunidades fronteiriças.
A situação no norte de Israel permanece delicada, com ataques esporádicos e o risco constante de escalada. A recuperação agrícola e a reconstrução das comunidades são desafios significativos, demandando investimentos contínuos e políticas eficazes de segurança e apoio social. O equilíbrio entre a retomada das atividades econômicas e a proteção dos moradores é fundamental para a estabilidade da região.
Análise estratégica: A persistência das fortalezas do Hezbollah próximas à fronteira israelense indica que o grupo mantém capacidade operacional significativa, o que representa uma ameaça constante à segurança do norte de Israel. A continuidade dos ataques de foguetes e drones demonstra a complexidade do conflito, que envolve não apenas o Estado israelense e o Hezbollah, mas também o Irã como patrocinador regional. A reconstrução agrícola e social, embora essencial para a normalização da vida local, enfrenta obstáculos devido à instabilidade e à insegurança.
No médio prazo, a situação pode evoluir para um ciclo de confrontos intermitentes, com períodos de cessar-fogo seguidos por novas escaladas, a menos que haja avanços diplomáticos ou mudanças estratégicas significativas. O fortalecimento das defesas civis, a implementação de abrigos seguros e o apoio financeiro à agricultura são medidas urgentes para mitigar os impactos humanitários e econômicos. A capacidade do governo israelense de equilibrar recursos entre defesa e reconstrução será crucial para a resiliência das comunidades afetadas.