Explosões e disparos foram registrados em diversos pontos do Mali, incluindo a capital Bamako, onde grupos armados lançaram uma série de ataques coordenados que abalaram o país. O governo militar maliano informou que as forças de segurança estão em operação para conter os ataques e que alguns militantes já recuaram. Além da capital, combates foram relatados em Kati, que abriga uma importante base militar próxima a Bamako, bem como nas cidades do norte, Gao e Kidal, e nos centros urbanos de Sevare e Mopti.
Especialistas consideram esta a maior ofensiva jihadista no Mali dos últimos anos, refletindo a complexidade do conflito que envolve insurgências ligadas à Al-Qaeda, ao Estado Islâmico e a movimentos separatistas no norte do país. O grupo separatista Frente de Libertação de Azawad (FLA), que defende a criação de um estado independente para o povo tuaregue, concentrou seus ataques principalmente nas cidades do norte. Paralelamente, o grupo jihadista Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) realizou ataques simultâneos em múltiplas localidades.
O porta-voz da FLA, Mohamed Elmaouloud Ramadane, declarou que a operação foi planejada por um longo período e executada em aliança com o JNIM, ressaltando a coordenação entre os grupos. O JNIM também confirmou a cooperação em comunicado oficial. Por sua vez, as forças militares do Mali afirmaram que enfrentam "grupos terroristas" que foram "derrotados", alegando a morte de centenas de militantes, embora essa informação não tenha sido verificada de forma independente e relatos indicam que os combates seguem em algumas áreas.
Ramadane afirmou que a cidade de Kidal ainda não foi totalmente tomada, permanecendo sob controle parcial do exército maliano e de mercenários russos. Segundo ele, as forças da FLA assumiram o controle de Kidal e ampliam sua presença em Gao, onde teriam capturado um acampamento militar. Vídeos não verificados foram divulgados mostrando supostos militantes dominando um campo ocupado por tropas do Mali e mercenários russos, além de imagens de um helicóptero militar abatido próximo a Gao.
Um comandante da FLA envolvido no ataque a Kidal relatou que a ofensiva foi preparada durante meses e que o objetivo atual é controlar Gao para facilitar a tomada de Timbuktu. Em Bamako, medidas de segurança foram reforçadas com a instalação de pontos de controle nas vias de acesso ao aeroporto e a realização de revistas em veículos. Um toque de recolher foi instaurado das 21h às 6h pelos próximos três dias. Todas as operações aéreas para Bamako foram suspensas, embora não esteja claro se os ataques afetaram diretamente o aeroporto.
O Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido recomendou a suspensão total de viagens ao Mali e confirmou o fechamento temporário do aeroporto internacional da capital. Ulf Laessing, responsável pelo programa do Sahel na Fundação Konrad Adenauer no Mali, classificou os ataques como a maior ofensiva jihadista coordenada no país em anos. Mahmoud Ali Youssouf, presidente da Comissão da União Africana, expressou preocupação com a situação e condenou os atos que colocam em risco a população civil.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos também repudiou os ataques, manifestando solidariedade ao povo e ao governo maliano. A FLA mantém uma luta histórica pela criação de um território tuaregue independente no norte do Mali, onde exerce controle efetivo sobre grandes áreas. O país está sob governo militar desde 2020, quando o general Assimi Goïta assumiu o poder após um golpe, prometendo restaurar a segurança e conter os grupos armados.
Desde então, forças de paz da ONU e tropas francesas que atuavam na região foram retiradas, e o governo militar contratou mercenários russos para auxiliar no combate à insurgência. Apesar disso, a violência jihadista persiste, com vastas regiões do norte e leste do Mali permanecendo fora do controle estatal.
Analisando o cenário, a coordenação entre grupos separatistas e jihadistas representa um desafio significativo para a estabilidade do Mali e da região do Sahel. A capacidade desses grupos de realizar ataques simultâneos em múltiplas frentes indica um aumento da organização e da ameaça à segurança. A resposta do governo militar, apoiada por mercenários estrangeiros, ainda não conseguiu conter a escalada da violência, o que pode levar a um prolongamento do conflito e a um agravamento da crise humanitária.
No médio prazo, é provável que o governo maliano intensifique operações militares e busque maior apoio internacional para enfrentar a insurgência. Entretanto, a complexidade das alianças entre grupos armados e a fragilidade das instituições locais dificultam a resolução do conflito. A situação demanda monitoramento constante, pois o avanço dos grupos armados pode desestabilizar ainda mais a região, afetando países vizinhos e ampliando o risco de crises migratórias e humanitárias.