Milão, Itália – Em meio a uma crise energética severa e um apagão nacional que afeta cerca de 10 milhões de pessoas em Havana, Cuba recebeu nesta quarta-feira os primeiros membros de uma missão internacional de ajuda humanitária. O comboio, organizado por uma coalizão de grupos progressistas europeus, trouxe mais de 20 toneladas de alimentos, suprimentos médicos e equipamentos de energia solar para a ilha. A iniciativa, denominada Nuestra America Convoy to Cuba (NACC), também representa um protesto contra o bloqueio total de petróleo imposto pelos Estados Unidos a Cuba.
O bloqueio, que impede o envio de combustíveis estrangeiros ao país há três meses, foi intensificado após a tentativa de Washington de destituir o presidente venezuelano Nicolás Maduro, aliado histórico de Cuba. Desde então, a pressão econômica dos EUA sobre Havana aumentou significativamente, agravando a escassez de combustível e causando um colapso energético que levou a apagões generalizados.
O comboio inclui representantes de partidos políticos de esquerda europeus, sindicatos e organizações de defesa dos direitos humanos, que partiram de Milão na terça-feira. Eles criticam a falta de resposta dos aliados tradicionais dos EUA na Europa, que, segundo os ativistas, têm ignorado a escalada do embargo.
Mauro Trombin, integrante do partido italiano Europa Verde, destacou que a União Europeia, o governo italiano e o britânico deveriam exercer pressão sobre o presidente dos EUA para que o embargo seja suspenso. Antes da crise atual, a UE já havia manifestado oposição ao embargo em votações na Assembleia Geral das Nações Unidas.
Iain Wallace, membro do sindicato escocês Public and Commercial Services (PCS) e participante do NACC, classificou o bloqueio como ilegal e criticou a postura europeia, que, segundo ele, deveria fortalecer as relações comerciais e culturais com Cuba. Wallace ressaltou que a ajuda humanitária, embora necessária, apenas ameniza os sintomas e não resolve a causa da crise.
A Organização das Nações Unidas alertou para o risco de colapso humanitário em Cuba devido à escassez crítica de combustível. Países como China, Chile, México e Canadá já enviaram ou prometeram enviar ajuda humanitária, enquanto a Espanha também se comprometeu a canalizar recursos para a ilha.
O momento da crise cubana coincide com um período de questionamentos na Europa sobre sua relação com os Estados Unidos, especialmente diante dos conflitos envolvendo os EUA e Israel contra o Irã. Maria Giovanna Tamborello, delegada do NACC e membro da associação Suíça-Cuba, afirmou que os governos europeus condenam o bloqueio anualmente na ONU, mas sem consequências práticas.
O cônsul-geral de Cuba em Milão, José Luis Darias Suarez, que encontrou os membros do comboio no aeroporto de Malpensa antes da partida, adotou um tom conciliador. Ele destacou que as relações atuais entre Cuba e a União Europeia são mantidas por meio do Acordo de Diálogo Político e Cooperação (PDCA), firmado em 2016, que estabelece uma base para cooperação em direitos humanos e democracia.
No entanto, o Parlamento Europeu aprovou recentemente uma emenda ao seu relatório de política externa que recomenda a suspensão do PDCA, citando o agravamento da situação dos direitos humanos em Cuba. A proposta foi apresentada pelo grupo conservador europeu European Conservatives and Reformists (ECR). A suspensão do acordo poderia interromper o financiamento humanitário destinado à ilha.
Entre 1993 e 2020, a União Europeia forneceu a Cuba 94 milhões de euros em ajuda humanitária e reservou mais 125 milhões de euros para cooperação no período de 2021 a 2027. Esses fundos visam apoiar o setor privado cubano, promover a transição para energias renováveis e incentivar a modernização econômica.
O eurodeputado polonês Arkadiusz Mularczyk, um dos autores da emenda, afirmou que Cuba falhou em cumprir os compromissos legais e morais do PDCA, tornando-se um regime cada vez mais autoritário e repressivo. Ele acrescentou que a UE não deve interferir nas ações dos EUA e que a suspensão do acordo enviaria uma mensagem clara sobre a importância do respeito à democracia e aos direitos humanos.
Organizações internacionais de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, têm denunciado o aumento da repressão em Cuba, incluindo detenções arbitrárias e assédio a presos políticos e suas famílias. O Observatório Cubano de Direitos Humanos registrou ao menos 390 incidentes de repressão em janeiro, com 42 detenções arbitrárias, um aumento em relação aos meses anteriores.
A situação em Cuba evidencia um cenário complexo, onde a crise humanitária se agrava em meio a tensões políticas internacionais. A ajuda humanitária emergencial, embora essencial, não resolve os desafios estruturais impostos pelo embargo e pelas disputas geopolíticas.
Análise estratégica indica que o prolongamento do bloqueio pode aprofundar a instabilidade social e econômica em Cuba, aumentando a pressão sobre governos europeus para que adotem posições mais firmes em relação aos EUA. A suspensão do PDCA, por sua vez, pode comprometer os canais de diálogo e cooperação, dificultando a implementação de projetos de desenvolvimento e direitos humanos na ilha. Nos próximos meses, será crucial observar se a União Europeia conseguirá equilibrar suas preocupações com direitos humanos e sua postura frente ao embargo americano, além de monitorar a resposta de Cuba às crescentes dificuldades internas e externas.