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domingo, 04 de janeiro de 2026
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Guerra contra o Irã pode transformar a ordem mundial

O conflito entre Irã, EUA e Israel pode transformar a ordem mundial, marcando o fim da influência unipolar americana e intensificando instabilidades no Oriente Médio. A guerra revela uma nova fase de uso da força na política internacional, com impactos globais na segurança e nas relações diplomáticas.

Guerra contra o Irã pode transformar a ordem mundial

O conflito militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel representa um ponto de inflexão significativo na dinâmica geopolítica global, especialmente no contexto do Oriente Médio. A ofensiva liderada pelos EUA e Israel foi justificada oficialmente como uma medida para conter uma ameaça nuclear emergente, com acusações de que Teerã acumulava urânio suficiente para fabricar até 11 bombas atômicas. No entanto, após os primeiros ataques aéreos, ficou evidente que os motivos e os impactos vão muito além do temor nuclear.

Este conflito não é apenas mais uma crise regional; ele simboliza a culminância de transformações profundas iniciadas no fim da Guerra Fria. O Oriente Médio moderno foi moldado durante a decadência dos impérios coloniais no século XX, mas a ordem estabelecida começou a se desfazer com a Guerra do Golfo em 1991, quando os EUA expulsaram as forças iraquianas do Kuwait. Esse momento coincidiu com o colapso da União Soviética e o início do que foi chamado de "momento unipolar", marcado pela supremacia americana.

Desde então, a região tem sido palco de uma série de crises e intervenções, como a Guerra ao Terror após os ataques de 11 de setembro de 2001, as invasões do Afeganistão e Iraque, a Primavera Árabe, a intervenção na Líbia e a guerra civil na Síria. Cada evento atraiu múltiplos atores, tornando o controle da situação cada vez mais complexo e fugindo do domínio inicial dos Estados Unidos.

Para Washington, isso criou um dilema estratégico: reduzir o envolvimento direto nos conflitos regionais, mas manter sua influência. Essa contradição tem sido difícil de administrar, com decisões muitas vezes reativas e sem planejamento de longo prazo. O ex-presidente Donald Trump, apesar de defender a redução das intervenções militares no exterior, viu-se envolvido em uma escalada contra o Irã, considerada o adversário mais significativo dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial, não apenas por seu poder militar, mas por sua influência demográfica e regional.

Relatos indicam que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e Trump teriam concordado em lançar uma campanha decisiva contra o Irã, com a expectativa de um ataque rápido e eficaz que provocasse o colapso interno do regime iraniano. Contudo, a realidade mostrou-se diferente: a guerra intensificou a instabilidade regional e impediu que os EUA recuassem sem parecerem derrotados.

Além das motivações estratégicas, fatores políticos internos nos EUA também influenciaram a escalada, incluindo o apoio de grupos evangélicos que veem Israel como um elemento chave em suas crenças religiosas, e a influência de Jared Kushner, genro de Trump e ligado a círculos políticos israelenses.

No cenário regional, um novo arranjo político pode emergir, com Israel consolidando sua supremacia militar e aprofundando laços econômicos e financeiros com as monarquias do Golfo, enquanto os EUA se beneficiariam dessas alianças. A Turquia, membro da OTAN, mantém uma posição independente, mas está parcialmente integrada às estruturas ocidentais, e há discussões sobre a possibilidade de melhorar as relações entre Israel e Ancara como parte dessa realinhamento.

Israel busca um resultado radical, que seria a desintegração política e territorial do Irã, ou ao menos a eliminação da influência política e militar do seu regime atual. Entretanto, mesmo que o Irã seja derrotado militarmente em curto prazo, a questão sobre o que virá a seguir permanece incerta. O exemplo do Iraque pós-2003, marcado por caos e colapso institucional, serve como um alerta. Alguns esperam que o Irã possa seguir um caminho similar ao da Síria, onde um governo negociador emergiu após anos de conflito, mas as diferenças em escala e complexidade são significativas.

No plano internacional, esse conflito evidencia um enfraquecimento das normas legais globais. Enquanto na invasão do Iraque em 2003 os EUA buscaram algum respaldo internacional, hoje procedimentos como a aprovação do Conselho de Segurança da ONU são amplamente ignorados. A força bruta é cada vez mais vista como o principal instrumento para moldar a ordem mundial.

Um marco dessa escalada foi o ataque israelense que eliminou o líder supremo iraniano e outros comandantes militares, ampliando o uso de assassinatos seletivos para incluir chefes de Estado reconhecidos internacionalmente, alterando as regras do jogo diplomático e militar.

Para países que se percebem como alvos potenciais dos EUA ou Israel, a posse de armas nucleares pode ser vista não apenas como um elemento dissuasor, mas como uma garantia de sobrevivência política. A abordagem de Trump, que privilegia negociações bilaterais e ignora instituições multilaterais, reforça essa tendência, colocando os EUA em vantagem principalmente contra todos, exceto China e, em menor grau, Rússia.

Esse cenário tem levado diversas nações a investir no fortalecimento de suas capacidades militares para resistir a pressões externas. Contudo, a contínua deterioração da cooperação internacional tende a aumentar a instabilidade global. A solução mais eficaz para os desafios emergentes permanece sendo a ação coletiva baseada em segurança mútua e interesses compartilhados.

O futuro da cooperação internacional diante desse clima geopolítico tenso é incerto. Se o sistema atual de relações internacionais for completamente desmantelado sem que outro seja construído, o mundo poderá enfrentar um período prolongado de desordem e conflito.

Analisando estrategicamente, o conflito no Irã pode desencadear uma reorganização geopolítica no Oriente Médio, com impactos diretos na segurança energética global, dada a importância da região para o fornecimento de petróleo. A consolidação de Israel e das monarquias do Golfo como polos de poder, com apoio dos EUA, pode marginalizar ainda mais o Irã e seus aliados, potencialmente intensificando rivalidades sectárias e regionais.

Além disso, a erosão das normas internacionais e o aumento do uso da força como instrumento de política externa podem estimular uma corrida armamentista, incluindo o desenvolvimento de capacidades nucleares por outros países que busquem garantir sua sobrevivência política. O desenrolar desse conflito exigirá monitoramento atento, pois suas consequências podem redefinir alianças e ameaçar a estabilidade global nas próximas décadas.