Desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã no final de fevereiro de 2026, o setor global de energia passou por mudanças profundas e duradouras. A guerra provocou oscilações significativas nos preços do petróleo, que chegaram a níveis comparáveis aos observados no começo da invasão russa à Ucrânia em 2022, antes de recuarem próximo aos valores anteriores ao conflito. Essa volatilidade afetou diretamente o comércio internacional de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), especialmente devido à importância estratégica do Estreito de Hormuz, por onde transitava cerca de 20% do petróleo e GNL mundial em tempos de paz.
A tensão na região do Golfo Pérsico obrigou fornecedores de energia a buscarem rotas alternativas para escoar seus produtos. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque intensificaram o uso de seus oleodutos terrestres, como o Oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, o Oleoduto de Petróleo Bruto de Abu Dhabi e o Oleoduto Iraque-Turquia. Contudo, a capacidade combinada desses dutos ainda é insuficiente para substituir integralmente o volume que passava pelo estreito. Além disso, ataques a embarcações comerciais na região reacenderam preocupações sobre a segurança marítima, impactando o tráfego e a confiança dos operadores internacionais.
Apesar de um memorando de entendimento assinado em junho, no qual o Irã se comprometeu a facilitar a passagem segura de navios pelo Estreito de Hormuz, o país mantém sua reivindicação de controle sobre essa via crucial. Após um pico de mais de 70 transitos marítimos em 24 de junho, o fluxo voltou a cair abruptamente devido a novos ataques, atribuídos ao Irã, que aumentaram a apreensão sobre a segurança dos trabalhadores do setor.
Governos ao redor do mundo adotaram medidas emergenciais para mitigar o impacto do aumento dos preços dos combustíveis sobre suas populações. Essas ações incluem desde subsídios até a liberação de reservas estratégicas. Paralelamente, o conflito acelerou a busca por alternativas energéticas, com foco no desenvolvimento de fontes renováveis e na diversificação das matrizes energéticas.
Especialistas em energia destacam que o mercado petrolífero dificilmente retornará ao cenário anterior ao conflito. O veterano negociante de petróleo Adi Imsirovic, da Universidade de Oxford, enfatiza que novas infraestruturas, como oleodutos, serão construídas com urgência, e que os compradores de petróleo da região buscarão diversificar suas fontes para reduzir riscos. Essa mudança estrutural deve se estender para além do término das hostilidades.
A insegurança no Estreito de Hormuz deve persistir enquanto o atual regime iraniano permanecer em conflito com os Estados Unidos e Israel, segundo o pesquisador Dan Marks, do Royal United Services Institute. A possibilidade de fechamento do estreito em momentos de tensão continuará a influenciar decisões de investimento e estratégias de segurança energética global. Além disso, o medo de interrupções no fornecimento pode afetar setores como o turismo na região.
Analistas como June Goh, da empresa Sparta, apontam para um movimento contínuo de redução da dependência do Estreito de Hormuz, tanto por parte dos produtores, que buscam ampliar rotas alternativas de exportação, quanto dos consumidores, que fortalecem seus estoques estratégicos. Essa tendência reforça a importância de uma matriz energética mais diversificada e menos vulnerável a conflitos geopolíticos.
Outro efeito relevante do conflito é a aceleração da transição para fontes renováveis, como energia eólica, solar e hidrelétrica. O conflito tem impulsionado um aumento significativo na capacidade global dessas fontes, que em 2025 representaram cerca de 86% da nova capacidade instalada mundial, conforme dados da Agência Internacional de Energia Renovável. A guerra reforça a percepção de que a dependência de combustíveis fósseis representa um risco estratégico e econômico crescente.
A adoção de veículos elétricos, por exemplo, deve se intensificar, reduzindo a demanda por petróleo no setor de transportes rodoviários, tradicionalmente um dos maiores consumidores de derivados de petróleo. Essa mudança pode enfraquecer o domínio do petróleo em segmentos importantes, embora setores como aviação e petroquímicos ainda dependam fortemente dos combustíveis fósseis.
Economistas como Mohamed Elheddad, da Universidade de Lancashire, destacam que o conflito pode antecipar decisões de investimento em energias renováveis que já estavam em andamento, devido ao aumento do custo real associado à instabilidade geopolítica. Nesse contexto, países com capacidade para fornecer energia de forma estável e em grande escala, como Estados Unidos e Qatar, podem fortalecer suas posições no mercado global.
A China, por sua vez, tem potencial para se beneficiar significativamente dessa transformação. Como maior exportadora mundial de componentes para energia renovável, incluindo turbinas eólicas, painéis solares e baterias, a segunda maior economia global está bem posicionada para liderar a expansão da infraestrutura renovável. A diversificação da matriz energética global favorece a demanda por produtos chineses, consolidando sua influência no setor.
Maurice Obstfeld, do Peterson Institute for International Economics, ressalta que o conflito serve como um alerta para a importância de uma matriz energética diversificada. A mudança estrutural no mercado pode redefinir as dinâmicas de poder e comércio no setor energético, com implicações para a segurança econômica e política de diversas nações.
Em resumo, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã está remodelando o panorama energético mundial. A instabilidade na região do Golfo Pérsico eleva os riscos para o comércio de petróleo e gás, enquanto impulsiona investimentos em infraestrutura alternativa e energias renováveis. A médio e longo prazo, a redução da dependência de combustíveis fósseis pode alterar profundamente a geopolítica da energia, beneficiando países com capacidade tecnológica e produtiva para liderar essa transição.
Os próximos passos devem incluir negociações contínuas para garantir a segurança do Estreito de Hormuz e a busca por acordos que minimizem riscos para o comércio marítimo. Além disso, a aceleração da adoção de energias limpas e a diversificação das rotas de fornecimento serão fundamentais para a estabilidade do mercado energético global. A adaptação a esse novo cenário exigirá cooperação internacional e estratégias que equilibrem segurança, sustentabilidade e crescimento econômico.