Nos Estados Unidos, a discussão sobre políticas ambientais tem sido marcada por avanços e retrocessos ao longo das últimas décadas. Recentemente, grupos de defesa da saúde e do meio ambiente entraram com uma ação judicial contra a Agência de Proteção Ambiental (EPA) devido à revogação de uma decisão crucial de 2009, conhecida como "endangerment finding". Essa decisão reconhecia que os gases de efeito estufa representam um risco à saúde pública e à segurança ambiental, servindo como base legal para diversas regulamentações de combate às mudanças climáticas.
Em fevereiro de 2026, a administração do ex-presidente Donald Trump anulou essa determinação, classificando a medida como a maior ação de desregulamentação da história dos EUA. A EPA apoiou a revogação, o que gerou preocupação entre especialistas e ativistas, que alertam para o aumento da poluição, custos elevados e milhares de mortes evitáveis decorrentes da decisão.
A revogação da "endangerment finding" facilita a operação de usinas de carvão, refinarias de petróleo e complexos petroquímicos com equipamentos mais antigos e poluentes, além de permitir a expansão dessas instalações sem a instalação de controles modernos. Isso implica maior emissão de partículas tóxicas, gases formadores de smog e outras substâncias nocivas, afetando diretamente as comunidades próximas.
Além disso, o aumento das emissões de gases de efeito estufa intensifica os impactos de desastres naturais, como ondas de calor, tempestades, enchentes e secas, além da elevação do nível do mar. Esses fenômenos agravam os riscos para a população e o meio ambiente, criando um ciclo de vulnerabilidade crescente.
Embora a administração Trump tenha sido a mais radical na reversão de políticas ambientais, ela não foi pioneira em ações que prejudicaram o meio ambiente nos EUA. Desde o início do século XX, diferentes presidentes adotaram políticas que, direta ou indiretamente, impactaram negativamente os ecossistemas.
O presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) promoveu a Lei de Reivindicação de 1902, que priorizou o uso de terras e rios para grandes projetos de infraestrutura, muitas vezes em detrimento da conservação ambiental. Décadas depois, Harry Truman (1945-1953) impulsionou a expansão industrial e suburbana, com foco no desenvolvimento rodoviário e na cultura do automóvel, tendência que se intensificou sob Dwight Eisenhower (1953-1961).
Richard Nixon (1969-1974) assinou importantes leis ambientais, mas também apoiou a expansão dos combustíveis fósseis e o uso do agente laranja durante a Guerra do Vietnã. Ronald Reagan (1981-1989) adotou uma postura de desregulamentação, favorecendo a exploração de petróleo, gás, carvão e madeira em terras públicas, reduzindo o orçamento da EPA e flexibilizando regras sobre emissões tóxicas.
George W. Bush (2001-2009) rejeitou o Protocolo de Quioto e adotou uma abordagem voluntária e favorável à indústria para a redução de emissões, enquanto Barack Obama (2009-2017) implementou regulamentações climáticas significativas, mas também supervisionou o boom do fracking, que aumentou a produção de petróleo e gás nos EUA, consolidando a dependência dos combustíveis fósseis.
Joe Biden (2021-2024) aprovou grandes projetos fósseis, como o projeto Willow no Alasca, que prevê a extração de centenas de milhões de barris de petróleo em terras federais, além de incentivar a expansão da exportação de gás natural liquefeito (GNL), com contratos de longo prazo para abastecer mercados na Europa e Ásia.
A questão ambiental nos EUA transcende divisões partidárias. A tendência de enfraquecimento das regulamentações ambientais decorre de um consenso bipartidário em favor do crescimento econômico e da influência corporativa, especialmente do setor de combustíveis fósseis. Historicamente, o país liderou iniciativas de conservação, mas a partir dos anos 1980, houve uma mudança significativa, com o Partido Republicano assumindo uma posição mais cética em relação às mudanças climáticas.
As políticas ambientais americanas têm repercussão global, influenciando normas e práticas em outros países devido à influência cultural e ao controle sobre instituições internacionais. A pressão dos EUA para manter o uso de combustíveis fósseis tem impactado negociações climáticas internacionais e contribuído para o enfraquecimento das metas ambientais em outras regiões, como a União Europeia.
A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025, realizada no Brasil, refletiu essa tendência, ao não incluir um plano claro para a transição energética e evitar menções diretas aos combustíveis fósseis, gerando críticas de diversos países.
A continuidade de políticas que favorecem a expansão dos combustíveis fósseis nos EUA representa um desafio significativo para os esforços globais de mitigação das mudanças climáticas. O cenário futuro dependerá da capacidade das nações de se unirem em torno de compromissos ambientais mais rigorosos, especialmente diante da postura dos EUA, que historicamente têm sido um dos maiores emissores globais.
A análise estratégica indica que a reversão das políticas ambientais pode agravar os impactos das mudanças climáticas, aumentando os custos sociais e econômicos associados a desastres naturais e problemas de saúde pública. A manutenção da dependência dos combustíveis fósseis pode comprometer a liderança dos EUA em inovação tecnológica e energias renováveis, além de afetar sua imagem internacional.
Nos próximos anos, é provável que haja intensificação dos debates internos e externos sobre a direção das políticas ambientais americanas, com possíveis desafios judiciais e pressões internacionais para a adoção de medidas mais sustentáveis. A evolução desse cenário será crucial para definir o papel dos EUA no enfrentamento da crise climática global.