Em março de 2026, a guerra no Oriente Médio atingiu um alvo que poucos associavam diretamente aos conflitos da região: os centros de dados que sustentam serviços digitais. Instalações da Amazon nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein sofreram danos provocados por ataques com drones. Agora, o Irã ameaça ampliar esse tipo de ofensiva, colocando infraestrutura de inteligência artificial e redes internacionais de comunicação entre os possíveis alvos de uma nova guerra contra Estados Unidos e Israel.
O alerta parte de Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã e ex-comandante da Guarda Revolucionária. Em declarações divulgadas em outubro, Rezaei afirmou que instalações tecnológicas norte-americanas próximas ao Estreito de Ormuz poderão ser atacadas caso as hostilidades sejam retomadas em grande escala. A advertência ganhou novo destaque nesta quinta-feira, 22 de outubro, em meio a relatos de preparativos militares e ao impasse nas negociações entre Washington e Teerã.
A ameaça revela uma mudança importante na estratégia iraniana. Durante décadas, o petróleo foi um dos principais instrumentos de pressão do país sobre seus adversários. Agora, Teerã também pretende explorar a dependência que grandes empresas e governos desenvolveram em relação à infraestrutura digital.
Mas existe uma contradição nessa disputa: por que os Estados Unidos e suas empresas estão investindo bilhões em instalações tecnológicas justamente em uma região exposta a conflitos militares?
A guerra já atingiu a nuvem Para entender o risco, é necessário abandonar uma ideia comum: a de que a chamada nuvem digital existe apenas na internet. Na realidade, ela depende de estruturas físicas que ocupam grandes terrenos, consomem enormes quantidades de eletricidade e precisam funcionar continuamente.
Em 2 de março, a Amazon Web Services, divisão de computação em nuvem da Amazon, confirmou que duas de suas instalações nos Emirados Árabes Unidos haviam sido atingidas diretamente por drones. No Bahrein, outro ataque nas proximidades provocou danos à infraestrutura da empresa.
O impacto ultrapassou os prédios. Houve interrupções de energia, danos estruturais e problemas em serviços utilizados por empresas que dependem dos servidores da Amazon. Em setembro, a companhia informou que ainda não conseguia recuperar determinados recursos e dados hospedados exclusivamente nas áreas atingidas.
Esse antecedente demonstra que não é necessário destruir todos os computadores de uma instalação para provocar prejuízos prolongados. Sem eletricidade, refrigeração ou conexões externas, até um centro tecnológico extremamente avançado pode deixar de funcionar.
E essa vulnerabilidade se torna ainda mais importante quando envolve a inteligência artificial.
Por que os americanos investem tanto no Golfo Pérsico? Os países árabes do Golfo procuram reduzir sua dependência econômica do petróleo. Para governos como os dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, investir em inteligência artificial representa uma oportunidade de construir novas indústrias, atrair empresas estrangeiras e ganhar influência na economia mundial.
O capital disponível, os recursos energéticos e os acordos com empresas internacionais favoreceram essa estratégia.
Em maio de 2025, a OpenAI anunciou o Stargate UAE, um grande projeto de infraestrutura de inteligência artificial em Abu Dhabi. A iniciativa envolve empresas como Oracle, NVIDIA, Cisco, SoftBank e a emiradense G42.
O planejamento prevê um centro de computação de um gigawatt, dentro de um complexo tecnológico com capacidade projetada de cinco gigawatts. O anúncio original estabelecia a expectativa de colocar uma primeira etapa em funcionamento em 2026.
A dimensão energética ajuda a compreender a importância dessas instalações. A inteligência artificial exige não apenas programas sofisticados, mas grandes quantidades de processadores, eletricidade e equipamentos de refrigeração.
Por isso, a disputa tecnológica entre as potências também depende de território, energia e segurança física. Empresas que parecem operar em um mundo inteiramente digital continuam subordinadas às condições geográficas dos países onde seus equipamentos estão instalados.
É justamente essa dependência que o Irã procura transformar em instrumento de pressão.
A estratégia de atingir os aliados para pressionar Washington Ao ameaçar instalações tecnológicas no Golfo, Teerã não está falando apenas com o governo norte-americano.
A mensagem também alcança os países árabes que recebem investimentos dos Estados Unidos. Um novo conflito poderia comprometer projetos considerados fundamentais para suas estratégias econômicas de longo prazo.
Existe, portanto, um cálculo geopolítico: aumentar o custo de uma ofensiva militar e incentivar governos regionais a pressionar Washington para evitar outra escalada.
O pesquisador Andreas Krieg, do King's College London, interpreta as advertências iranianas como uma forma de dissuasão, estratégia utilizada para convencer um adversário de que atacar poderá trazer consequências superiores aos benefícios esperados.
Entretanto, há uma diferença entre ameaçar instalações e conseguir destruir sistematicamente a infraestrutura digital de uma região. A capacidade iraniana para executar operações dessa dimensão permanece incerta.
Existe ainda outro problema. Muitos desses centros prestam serviços civis. Bancos, hospitais, empresas e órgãos públicos podem depender de seus sistemas. A presença de tecnologia norte-americana não transforma automaticamente essas instalações em alvos militares legítimos.
Segundo as normas do direito internacional humanitário, instalações civis permanecem protegidas, salvo quando determinadas condições específicas as tornam objetivos militares. Mesmo nesses casos, ataques devem respeitar regras de proporcionalidade e precaução.
Quando a conexão entre países se transforma em arma Em 2019, os pesquisadores Henry Farrell e Abraham Newman publicaram um estudo chamado *Weaponized Interdependence*, que pode ser traduzido como "interdependência transformada em arma".
A ideia é relativamente simples: quanto mais os países dependem de redes econômicas internacionais, maior pode ser o poder de quem controla pontos fundamentais dessas conexões.
Os autores analisaram especialmente como governos utilizam posições privilegiadas em redes financeiras e informacionais para pressionar adversários.
O caso iraniano apresenta uma manifestação diferente dessa vulnerabilidade. Em vez de controlar os principais sistemas tecnológicos, Teerã ameaça provocar danos físicos em partes da infraestrutura.
É como uma cidade que depende de uma única ponte para receber mercadorias. Mesmo que ninguém controle todo o comércio da cidade, interromper aquela passagem pode comprometer inúmeras atividades.
No Oriente Médio, essa lógica envolve tanto os servidores que armazenam informações quanto os cabos submarinos que transportam dados entre continentes.
A maior parte das comunicações intercontinentais depende dessas conexões físicas. Embora existam rotas alternativas, interrupções em pontos estratégicos podem aumentar custos, provocar lentidão e dificultar operações internacionais.
A digitalização da economia não eliminou a importância da geografia. Em muitos aspectos, tornou certas localizações ainda mais estratégicas.
Como uma guerra digital no Golfo poderia afetar o Brasil? O primeiro caminho continua sendo o petróleo.
O Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e a Península Arábica, é uma das principais rotas energéticas do planeta. Segundo a Agência Internacional de Energia, aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo e derivados atravessaram diariamente a passagem em 2025, volume equivalente a cerca de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo.
Uma interrupção relevante nessa circulação pode pressionar os preços internacionais de energia. No Brasil, os efeitos dependeriam de fatores como câmbio, política de preços, custos de importação e duração da crise.
O segundo caminho passa pela tecnologia.
Empresas brasileiras utilizam serviços internacionais de computação em nuvem para armazenar informações, operar sistemas e oferecer produtos digitais. Se uma companhia depender diretamente de servidores atingidos, poderá enfrentar interrupções ou despesas adicionais para transferir suas operações.
Isso não significa que um ataque no Golfo desligaria automaticamente os aplicativos bancários brasileiros. Os efeitos dependem de onde cada serviço funciona e de quais mecanismos de segurança e redundância possui.
O risco mais amplo está no aumento dos custos e na insegurança sobre investimentos tecnológicos internacionais. Uma guerra que comprometa grandes instalações de processamento de dados pode influenciar decisões empresariais muito além do Oriente Médio.
A próxima disputa não será apenas pelo petróleo O Irã ainda não demonstrou capacidade para executar todas as ameaças anunciadas. Também não está confirmado que Estados Unidos e Israel tenham decidido iniciar uma nova ofensiva, apesar dos relatos sobre discussões militares e do aumento das tensões.
O que já se sabe é que a infraestrutura digital deixou de ser uma preocupação exclusivamente tecnológica. Ela passou a integrar os cálculos de segurança nacional, investimentos estratégicos e operações militares.
Essa transformação revela um paradoxo da economia contemporânea. Quanto mais o mundo depende de sistemas digitais para funcionar, mais importantes se tornam os lugares físicos onde esses sistemas estão instalados.
Durante décadas, a posição do Oriente Médio na economia mundial foi definida principalmente por suas reservas de petróleo e pelas rotas utilizadas para transportá-lo. Agora, a região tenta se transformar também em um centro internacional de inteligência artificial.
Ao ameaçar esses investimentos, o Irã coloca as duas ambições em confronto: a de construir uma nova economia baseada em tecnologia e a de utilizar a vulnerabilidade dessa mesma economia como instrumento de guerra.
A questão que emerge desse conflito vai além do futuro das relações entre Washington e Teerã. Em um mundo cada vez mais dependente da inteligência artificial, proteger servidores, cabos e redes de energia poderá ser tão estratégico quanto proteger refinarias, aeroportos e rotas marítimas.