O Irã indicou que ainda não tomou uma decisão final sobre a assinatura de um acordo-quadro com os Estados Unidos, mesmo após o presidente americano Donald Trump ter declarado que o acordo estava concluído e seria assinado no domingo. Segundo fontes próximas ao governo iraniano, o país continua avaliando os aspectos políticos, legais e técnicos do documento, com discussões em andamento entre especialistas e autoridades.
Na manhã de domingo, negociadores do Catar viajaram a Teerã para reuniões com representantes iranianos, buscando avançar nas negociações. A visita teve como objetivo revisar os últimos desenvolvimentos no processo diplomático, conforme informado por agências locais. Essa movimentação ocorreu logo após o anúncio de Trump na noite anterior, em que afirmou que o acordo seria assinado no dia seguinte e que o Estreito de Hormuz seria aberto para todas as embarcações comerciais imediatamente após a assinatura.
O presidente americano também garantiu que o Irã não teria acesso a armas nucleares, alegando que o regime não deseja mais desenvolvê-las, mas indicou que o estoque de urânio enriquecido do país não seria retirado neste momento. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, afirmou anteriormente que o texto final do acordo havia sido acordado e que a assinatura eletrônica ocorreria no domingo, seguida por conversas técnicas durante a semana.
Além disso, mediadores paquistaneses e catarianos planejavam participar de uma reunião virtual com autoridades americanas e iranianas para formalizar um memorando de entendimento. Esse documento estenderia o cessar-fogo por 60 dias, reabriria o Estreito de Hormuz e iniciaria negociações sobre o programa nuclear iraniano.
O Irã, entretanto, não confirmou oficialmente o acordo nem detalhou seus termos, contrariando declarações anteriores do Ministério das Relações Exteriores do país, que indicavam que a assinatura não ocorreria naquele dia. Um alto funcionário iraniano revelou que o rascunho final do acordo incluiria a reabertura imediata do Estreito de Hormuz para todas as embarcações comerciais, enquanto os EUA levantariam o bloqueio naval sobre os portos iranianos.
O acordo também prevê que os Estados Unidos não imporiam novas sanções ao Irã até que um acordo definitivo seja alcançado, além de suspender temporariamente as sanções ao petróleo iraniano, permitindo que Teerã venda petróleo e receba receita. Os EUA concordariam em liberar 25 bilhões de dólares em ativos congelados do Irã, por meio de transferências diretas, cooperação regional e linhas de crédito financeiro.
Por sua vez, o Irã comprometeria-se a não produzir nem adquirir armas nucleares, mantendo o status atual do programa nuclear, sem enriquecer urânio ou expandir instalações nucleares. O acordo também incluiria um mecanismo para diluir o estoque de urânio altamente enriquecido dentro do país, a ser discutido nos próximos 60 dias.
O Irã tem negado repetidamente o interesse em armas nucleares, apesar de enriquecer e estocar urânio próximo ao grau necessário para armamento, além de manifestar abertamente a intenção de destruir Israel. A perspectiva do acordo gerou preocupação em Israel, cujos oficiais alertaram que os termos do memorando colocam em risco a segurança nacional e não abordam questões centrais do conflito.
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que não participou diretamente das negociações, convocou seu gabinete de segurança para discutir o acordo. Autoridades israelenses destacaram que o acordo parece atender às principais exigências do Irã, sem tratar da questão dos mísseis balísticos, o que representa uma lacuna significativa para Israel.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que a única forma de lidar com o urânio enriquecido é sua diluição dentro do próprio Irã, diferindo da posição anterior dos EUA, que defendiam a remoção e destruição do material. Trump, que justificou a guerra como necessária para impedir o programa nuclear iraniano, declarou que, após o restabelecimento da calma, os Estados Unidos iriam recuperar, diluir e destruir o urânio, seja no Irã ou nos EUA.
Desde o início da campanha conjunta entre Israel e EUA contra o Irã em 28 de fevereiro, o objetivo tem sido desestabilizar o regime e eliminar suas capacidades nucleares e de mísseis balísticos. O Irã respondeu com ataques de mísseis e drones na região, enquanto seus aliados em países como Iraque, Iêmen e Líbano também realizaram ataques.
O bloqueio iraniano ao Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto do suprimento mundial de petróleo, afetou o comércio global, com o Irã cobrando pedágio para a passagem de navios e atacando aqueles que tentavam atravessar. Em resposta, os EUA bloquearam navios e portos iranianos para impedir a exportação de petróleo do país, causando impacto nas economias globais.
A situação atual demonstra a complexidade das negociações e os desafios para alcançar um acordo definitivo. A abertura do Estreito de Hormuz é um ponto crucial para a estabilidade do comércio internacional de energia, enquanto as questões nucleares e de segurança regional permanecem delicadas.
A continuidade das conversas técnicas e políticas será fundamental para definir os próximos passos. Caso o acordo seja formalizado, poderá representar uma redução temporária das tensões na região e uma oportunidade para negociações mais amplas sobre o programa nuclear iraniano. No entanto, a falta de consenso sobre aspectos essenciais, como o controle do urânio enriquecido e os sistemas de mísseis, indica que o processo ainda enfrentará obstáculos significativos.
O acompanhamento das reações regionais, especialmente de Israel e dos países do Golfo, será determinante para avaliar a viabilidade e o impacto do acordo no equilíbrio estratégico do Oriente Médio. A cooperação entre os mediadores internacionais e as partes envolvidas será decisiva para avançar em direção a uma solução sustentável e evitar uma escalada do conflito.