O Parlamento israelense, conhecido como Knesset, aprovou recentemente uma reforma ampla no setor de mídia, impulsionada pela coalizão de direita liderada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. A legislação, aprovada pouco antes da dissolução do Knesset para as eleições previstas para outubro de 2026, tem gerado críticas intensas de organizações de defesa da liberdade de imprensa e de partidos da oposição. Essas entidades alertam que as mudanças podem comprometer a independência jornalística e influenciar o resultado eleitoral.
Entre as principais alterações, destaca-se o aumento do poder do governo sobre os meios de comunicação, a eliminação de requisitos mínimos para padrões jornalísticos e a revogação de limitações históricas sobre a propriedade cruzada de veículos de mídia. Tais medidas, segundo críticos, podem favorecer a concentração da mídia em mãos alinhadas ao governo e reduzir a diversidade de vozes e opiniões no país.
Após a aprovação da lei em 17 de julho, diversas organizações, incluindo a União dos Jornalistas de Israel, além de partidos da oposição, entraram com uma ação no Supremo Tribunal de Justiça para suspender partes da legislação. O foco da contestação são dispositivos que entrariam em vigor imediatamente, como a remoção dos limites para a propriedade múltipla de meios de comunicação e a eliminação das normas para redações jornalísticas. A preocupação é que essas mudanças possam alterar permanentemente o cenário midiático antes das eleições de 27 de outubro, influenciando o processo democrático.
O governo tem até o domingo seguinte para apresentar sua resposta, após o que o tribunal decidirá se mantém a suspensão, amplia-a ou permite que as medidas entrem em vigor. Algumas partes da lei consideradas menos controversas e que não entram em vigor imediatamente permanecem válidas.
O primeiro-ministro Netanyahu não participou da votação, em razão de um acordo de 2020 que o impede de atuar em decisões governamentais que possam afetar seu julgamento por corrupção. Ele é acusado, entre outras coisas, de usar sua posição para influenciar a cobertura da mídia sobre sua administração. Apesar disso, o ministro das Comunicações, Shlomo Karhi, agradeceu diretamente a Netanyahu pela conclusão da reforma, afirmando que a missão de implementar uma reforma midiática de direita foi cumprida.
Essa atuação direta do primeiro-ministro tem sido questionada por possíveis conflitos de interesse, embora o Ministério das Comunicações tenha declarado possuir parecer jurídico que afirma que Netanyahu não violou o acordo. Organizações internacionais de monitoramento da imprensa, como Repórteres Sem Fronteiras, classificam Netanyahu e Karhi como adversários do jornalismo independente em Israel, destacando que a intenção por trás das reformas é controlar a narrativa pública, especialmente em um ano eleitoral.
Karhi, em suas redes sociais, afirmou que a nova legislação promoverá uma cobertura mais alinhada à direita e menos regulada, ressaltando que a aprovação foi resultado de uma luta contra o que chamou de 'estado profundo', grandes empresários e redes de medo. Essa retórica reforça a percepção de que a reforma visa consolidar o controle governamental sobre os meios de comunicação.
Especialistas em mídia e acadêmicos israelenses apontam que as mudanças são parte de um processo contínuo de enfraquecimento da independência jornalística no país, fortalecendo canais considerados pró-governo e de direita, como o Canal 14. Esse canal, por exemplo, tem sido criticado por difundir teorias controversas, como a alegação de que Donald Trump venceu as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2020, o que levanta preocupações sobre a possibilidade de manipulação da informação durante as próximas eleições israelenses.
Além disso, análises indicam que a cobertura da mídia israelense apresenta um viés nacionalista acentuado, com pouca atenção dedicada à perspectiva palestina e ao sofrimento nas áreas afetadas pelos conflitos. Relatórios apontam que a crise humanitária em Gaza é minimizada ou ausente na programação de canais principais, e que denúncias de crimes de guerra e abusos são frequentemente ignoradas ou apresentadas com uma narrativa favorável ao governo.
A ausência de solidariedade com jornalistas palestinos e a restrição de acesso a áreas de conflito também são destacadas como fatores que limitam o pluralismo e a profundidade da cobertura jornalística. Painéis de discussão sobre os conflitos recentes tendem a ser compostos por ex-militares que apoiam as ações governamentais, restringindo o debate crítico.
Essa reforma midiática ocorre em um contexto de intensificação das tensões políticas internas e externas, com Netanyahu buscando manter uma imagem de liderança firme e progresso diante de desafios eleitorais. O controle ampliado sobre a mídia pode ser uma estratégia para moldar a opinião pública e reduzir críticas durante o período eleitoral.
Do ponto de vista estratégico, a consolidação do controle governamental sobre os meios de comunicação pode enfraquecer a diversidade de informações disponíveis à população, impactando a qualidade do debate democrático. Caso a reforma seja mantida, é provável que a cobertura das eleições e dos conflitos regionais seja ainda mais alinhada às posições do governo, o que pode gerar maior polarização social e internacional.
Além disso, a reação do Supremo Tribunal e a pressão da sociedade civil serão determinantes para o futuro do ambiente midiático em Israel. A suspensão parcial da lei indica que há resistência institucional às mudanças, mas o desfecho dependerá do equilíbrio entre o poder executivo e o Judiciário. O cenário para as eleições de outubro será marcado por esse contexto de disputa sobre a liberdade de imprensa e o controle da narrativa pública.