Israel intensificou seus ataques no sul do Líbano, mantendo-se, contudo, distante da capital Beirute, após um acordo de cessar-fogo parcial com o grupo armado Hezbollah, apoiado pelo Irã. O acordo, anunciado na segunda-feira, envolve a promessa de Israel de não bombardear Beirute em troca da suspensão dos ataques de Hezbollah contra o território israelense.
O governo libanês confirmou que, conforme o entendimento intermediado pelos Estados Unidos, as forças israelenses respeitariam a capital, enquanto o Hezbollah se comprometeria a não lançar ataques contra Israel. Essa trégua parcial ocorre em meio a tensões crescentes entre Israel, Líbano e Irã, com o Irã alertando que as ações israelenses no Líbano poderiam comprometer negociações para encerrar o conflito com os EUA.
Apesar do cessar-fogo, o Exército israelense informou ter interceptado dois projéteis disparados em direção ao norte de Israel. Por sua vez, o Hezbollah declarou ter atacado tropas israelenses no sul do Líbano, região que também sofreu ataques aéreos israelenses com vítimas fatais.
Na cidade de Tyre, no sul do Líbano, um hospital foi atingido por um ataque aéreo israelense, resultando em quatro mortos e 127 feridos, incluindo 39 profissionais de saúde, dos quais quatro em estado grave. A destruição ao redor da unidade médica é visível, com destroços e veículos danificados espalhados pelas ruas silenciosas da cidade.
O diretor do hospital Jabal Amel, Dr. Wael Mroueh, relatou que o ataque ocorreu sem aviso prévio e negou que houvesse alvos militares nas proximidades. Ele acusou Israel de visar jornalistas, trabalhadores de ambulância e funcionários de saúde, buscando expulsar a população libanesa de seu território.
O Exército israelense afirmou que o ataque visou "infraestrutura terrorista do Hezbollah" e reconheceu danos ao hospital, mas negou que ele fosse o alvo primário. Acusou ainda o Hezbollah de se esconder em áreas civis, sem apresentar provas.
Além do hospital, outras áreas no sul do Líbano foram afetadas. Um centro da defesa civil em Kfar Sir, distrito de Nabatieh, sofreu danos em um ataque israelense, embora sem vítimas. Em um ataque com drone na estrada entre Marjayoun e Nabatieh, um dentista e seus dois filhos foram mortos.
O Exército israelense emitiu uma nova ordem de evacuação para a cidade de Nabatieh, justificando a ação como resposta a violações do cessar-fogo por parte do Hezbollah, que, segundo Israel, lançou múltiplos ataques com mísseis e drones contra comunidades israelenses. O Hezbollah confirmou ataques contra tanques e tropas israelenses em várias localidades do sul do Líbano, mas não mencionou ataques transfronteiriços.
O conflito atual teve início em 2 de março, quando o Hezbollah lançou foguetes contra Israel em retaliação a um ataque israelense que matou um líder supremo iraniano. Desde então, Israel intensificou uma campanha aérea e uma invasão terrestre no sul do Líbano, com escalada nos combates nas últimas semanas.
O Ministério da Saúde do Líbano contabiliza pelo menos 3.468 mortos desde o início da guerra, sem distinção entre civis e combatentes. A ONU estima que mais de um milhão de pessoas foram deslocadas internamente no país, que enfrenta ordens de evacuação em mais de um oitavo de seu território. Israel registra a morte de 25 soldados e quatro civis durante o conflito.
Na segunda-feira à noite, a embaixada do Líbano em Washington informou que o Hezbollah aceitou uma proposta de cessar-fogo parcial apoiada pelos EUA, após contato entre o presidente libanês Joseph Aoun e o secretário de Estado americano Marco Rubio. O acordo prevê que Israel não lançará uma ofensiva ampla em Beirute, enquanto o Hezbollah suspenderá ataques contra Israel, abrindo caminho para uma possível extensão do cessar-fogo a todo o território libanês.
O presidente americano Donald Trump comunicou ao embaixador libanês que obteve a aprovação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu para o acordo, que foi então transmitido ao Hezbollah. Trump afirmou ter conversado com Netanyahu e líderes do Hezbollah, confirmando a suspensão mútua dos ataques.
Netanyahu, contudo, declarou que, caso o Hezbollah não cesse os ataques contra cidades e cidadãos israelenses, Israel retaliará alvos terroristas em Beirute, mantendo operações no sul do Líbano. Um porta-voz do Hezbollah afirmou que possíveis ataques israelenses na área de Dahieh, em Beirute, foram impedidos por pressão iraniana, negando a existência de um cessar-fogo formal, apenas proteção para essa região específica.
Líderes do Hezbollah e intermediários políticos libaneses manifestaram apoio a um cessar-fogo integral como condição para a retirada das tropas israelenses do sul do Líbano. Negociações diplomáticas entre representantes israelenses e libaneses estão previstas para os próximos dias em Washington.
A escalada dos ataques israelenses nos subúrbios do sul de Beirute, reduto do Hezbollah, foi anunciada por Netanyahu em resposta a ataques com foguetes e drones contra civis israelenses, além de violações do cessar-fogo de abril. A decisão de não atacar Beirute gerou críticas internas em Israel, com políticos de direita e da oposição questionando a postura do governo.
O descontentamento de Trump com Netanyahu, relatado em meios americanos, estaria relacionado ao receio de que a intensificação do conflito prejudicasse negociações para encerrar o confronto entre EUA e Irã. Autoridades iranianas alertaram que a trégua deve ser respeitada em todos os fronts, incluindo o Líbano, sob risco de comprometer o cessar-fogo geral.
O cenário atual indica uma tensão delicada, com um cessar-fogo parcial em vigor, mas ameaçado por ataques esporádicos e desconfianças mútuas. A manutenção da trégua dependerá da capacidade das partes de conter ações militares e avançar nas negociações diplomáticas.
No médio prazo, a estabilidade na região poderá ser afetada pela influência do Irã sobre o Hezbollah e pela resposta de Israel a eventuais violações do cessar-fogo. O envolvimento dos Estados Unidos como mediador sugere que esforços diplomáticos continuarão, mas o risco de escalada permanece caso os ataques se intensifiquem.
A situação humanitária no sul do Líbano, com hospitais atingidos e milhares de deslocados, reforça a urgência de uma solução política que minimize o impacto sobre civis e evite uma expansão do conflito para outras áreas do país e da região.