Na noite de 21 de abril de 2026, Israel deu início às comemorações do seu 78º Dia da Independência com a tradicional cerimônia de acendimento da tocha no Monte Herzl, em Jerusalém. O evento, que contou com a presença de autoridades e centenas de espectadores, marcou o retorno do público presencial após dois anos de restrições devido a conflitos armados e incêndios florestais. Entre os presentes estavam o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e sua esposa Sara, o presidente da Knesset Amir Ohana, o presidente do Supremo Tribunal Isaac Amit, o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), general Eyal Zamir, e o presidente argentino Javier Milei, que pela primeira vez foi convidado a acender uma tocha como líder estrangeiro.
A cerimônia, organizada anualmente pela ministra dos Transportes Miri Regev, teve como tema oficial "Forças da Renovação". Este tema refletiu o foco nas recentes operações militares conjuntas entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, iniciadas em 28 de fevereiro e suspensas em 8 de abril com um cessar-fogo de duas semanas. Na data da cerimônia, o cessar-fogo estava próximo do fim, mas foi prorrogado temporariamente pelo então presidente dos EUA, Donald Trump. Além disso, o conflito com o Hezbollah no Líbano também esteve em evidência.
O discurso do primeiro-ministro Netanyahu foi apresentado em vídeo pré-gravado, no qual ele destacou os avanços militares de Israel nos últimos anos. Netanyahu afirmou que Israel está mais forte do que nunca e, junto com os Estados Unidos, lidera a luta contra as "forças do mal" no mundo. Ele mencionou a "geração da renovação", enfatizando que Israel enfrenta seus inimigos, especialmente o "eixo do mal iraniano", que estaria lutando pela própria sobrevivência. O primeiro-ministro destacou as operações "Leão Ascendente" e "Leão Rugidor", campanhas contra o Irã que, segundo ele, causaram danos significativos ao regime iraniano e fortaleceram a posição regional de Israel.
Netanyahu também afirmou que Israel recuperou todos os reféns mantidos pelo Hamas, sem distinguir entre vivos e mortos, e que continua combatendo o grupo para garantir que a Faixa de Gaza não represente mais uma ameaça. Ele mencionou ainda as ações militares em Líbano e Síria, incluindo a criação de zonas de segurança e a eliminação do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. O primeiro-ministro concluiu seu discurso ressaltando os avanços econômicos, tecnológicos e de inovação, afirmando que, com a ajuda divina, a vitória será completada, fortalecendo o Estado e assegurando o futuro.
A cerimônia contou com a participação de diversos representantes das Forças de Defesa de Israel, incluindo oficiais que participaram das operações recentes. Entre os acendedores de tocha estavam o coronel "Mem", chefe do departamento iraniano da Força Aérea, que usou balaclava para preservar sua identidade, e a major Nurit Rokah, comandante da unidade de inteligência de combate da defesa de fronteira, que foi ferida em confrontos com o Hamas. Também foram homenageados soldados feridos, familiares de reféns falecidos e civis que mantiveram a resistência durante o conflito, como Ora Hatan, reconhecida por seu apoio às tropas em Shtula.
Outros homenageados incluíram o chef Assaf Granit, detentor de uma estrela Michelin na França, e a médica Dina Ben-Yehuda, que representou a comunidade médica israelense. Tamer Atallah, um druso ex-soldado que trabalha para fortalecer os laços com os drusos sírios, e Roni Ineshaz Farshahd, ex-funcionário judicial iraniano que ajudou judeus sob ameaça antes de fugir para Israel, também foram agraciados. Farshahd dedicou sua tocha à comunidade judaica iraniana e ao povo iraniano que deseja liberdade.
A escolha dos acendedores de tocha gerou controvérsia, principalmente pela inclusão do reservista Abraham Zarbiv, rabino e juiz rabínico conhecido por declarações extremas e apoio a ações militares agressivas na Faixa de Gaza. O IDF se distanciou da decisão de homenageá-lo. Zarbiv dedicou sua tocha aos operadores de máquinas que destruíram infraestruturas terroristas em Gaza.
O presidente argentino Javier Milei foi o último a acender a tocha, recebendo aplausos e participando de uma apresentação musical. Em seu discurso, Milei destacou a vitória da luz sobre a escuridão e a importância da liberdade e soberania de Israel, ressaltando que a força não está no número de soldados, mas em forças superiores.
No entanto, a presença de Milei não foi bem recebida por todos. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, deixou a cerimônia após ser solicitado a mudar de assento, pois seu lugar havia sido reservado para a comitiva do presidente argentino. Fontes próximas a Ben Gvir afirmaram que ele desejava sentar-se ao lado de Netanyahu, mas foi impedido pela ministra Regev, aliada do premiê.
Paralelamente à cerimônia oficial em Jerusalém, milhares de pessoas participaram de um evento alternativo no Museu de Arte de Tel Aviv, organizado por grupos opositores ao governo atual. Esta cerimônia "liberal e democrática" contou com a presença do ex-ministro do Likud e ex-chefe do IDF Moshe Ya'alon, além de líderes de grupos de protesto como "Irmãos e Irmãs nas Armas" e "Mães na Linha de Frente". Yifat Calderon, prima de um ex-refém, também acendeu uma tocha, pedindo respostas sobre o massacre de 7 de outubro de 2023 e a criação de uma comissão estatal para investigar o ocorrido.
A retomada do público presencial na cerimônia oficial e a participação de líderes estrangeiros refletem a importância simbólica do evento em um momento de tensões regionais elevadas. A continuidade do cessar-fogo com o Irã e a situação no Líbano permanecem instáveis, o que pode influenciar a dinâmica política e militar de Israel nos próximos meses.
A inclusão de figuras controversas e a divisão entre cerimônias oficiais e alternativas indicam um ambiente político interno polarizado, que pode afetar a coesão social e a condução das políticas de segurança. O papel dos aliados internacionais, como os Estados Unidos e países da região, será crucial para a estabilidade e para eventuais negociações futuras.
Em termos estratégicos, a ênfase nas operações contra o Irã e o Hezbollah demonstra a prioridade de Israel em neutralizar ameaças nucleares e militares na região. A manutenção e possível ampliação das zonas de segurança no Líbano e Síria indicam uma postura preventiva, mas que pode gerar tensões diplomáticas. A continuidade do apoio dos EUA, especialmente sob administrações futuras, será determinante para o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
No cenário interno, a polarização política e a insatisfação de setores da sociedade com a condução do governo podem levar a protestos e pressões por maior transparência e responsabilização, especialmente em relação aos eventos traumáticos recentes. A realização de cerimônias paralelas e a demanda por comissões de investigação refletem esse clima. O governo terá que equilibrar a segurança nacional com a necessidade de unidade social para enfrentar os desafios regionais.