Poucas semanas antes da visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China, o presidente chinês Xi Jinping receberá uma visita significativa: a líder da oposição de Taiwan, Cheng Li-wun, presidente do Partido Nacionalista (Kuomintang - KMT). A chegada de Cheng ao continente, marcada para uma terça-feira, será a primeira visita de um líder do KMT à China em uma década. Com 56 anos, Cheng assumiu a presidência do partido em novembro e tem adotado uma postura política que gerou divisões dentro de Taiwan, uma democracia autônoma que rejeita as reivindicações de soberania de Pequim.
Cheng defende que a ilha, que abriga cerca de 23 milhões de habitantes, deve intensificar seu diálogo com a China para evitar um conflito armado. Ela enfatiza que os taiwaneses deveriam sentir orgulho e confiança em se identificarem como chineses. Historicamente, o KMT manteve relações relativamente próximas com Pequim, mas a atual postura de Cheng representa uma mudança significativa em relação às suas posições anteriores, quando era uma ativista estudantil nos anos 1980 e 1990, defendendo a independência de Taiwan e criticando o próprio KMT, que governou Taiwan sob lei marcial até 1987.
Hoje, como líder do partido, Cheng busca um relacionamento mais próximo com a China, mesmo diante do aumento da pressão militar e política de Pequim sobre a ilha. Em entrevista exclusiva, ela afirmou que o Estreito de Taiwan é visto mundialmente como uma das áreas mais voláteis e perigosas, e que ambas as partes devem se empenhar em soluções pacíficas para estabilizar a região, evitando um confronto fatal.
O presidente chinês Xi Jinping mantém a política de unificação da ilha com o continente, inclusive por meios militares, se necessário. A questão das vendas de armas dos Estados Unidos para Taiwan é um ponto crítico nas relações sino-americanas e deve ser discutida na cúpula entre Xi e Trump, prevista para os dias 14 e 15 de maio em Pequim. A visita de Cheng ocorre pouco antes desse encontro, o que não é coincidência. Em Taiwan, a oposição liderada por Cheng tem resistido a um aumento de 40 bilhões de dólares no orçamento de defesa para os próximos oito anos, proposto pelo presidente Lai Ching-te, o que tem atrasado a aprovação do orçamento governamental.
Esse impasse pode comprometer um pacote de armas dos EUA no valor de 14 bilhões de dólares, que já estava suspenso pelo governo Trump para não prejudicar as negociações com a China antes da cúpula. Um porta-voz do Conselho de Assuntos do Continente de Taiwan afirmou que a recepção de Cheng por Xi Jinping é uma tentativa de Pequim de enfraquecer as compras militares da ilha junto aos Estados Unidos. O governo taiwanês, oficialmente República da China, apoia intercâmbios pacíficos entre os dois lados, mas espera que Cheng exija que Pequim reconheça a existência da República da China e cesse as operações militares próximas à ilha.
Cheng esclareceu que sua posição sobre as vendas de armas americanas e os gastos de defesa não deve ser interpretada como antiamericana. Para ela, melhorar as relações com a China continental não significa comprometer os laços com os Estados Unidos, ressaltando que essas relações não são mutuamente exclusivas.
A visita de Cheng à China ocorre em meio à chegada de uma delegação bipartidária do Senado americano a Taipei, que busca pressionar os legisladores locais a aprovarem o aumento do orçamento de defesa e tranquilizar Washington sobre a capacidade de Taiwan de se defender. A senadora Jeanne Shaheen destacou que as ameaças enfrentadas pela ilha exigem investimentos significativos em tecnologia e capacidade militar.
Cheng, por sua vez, argumenta que Taiwan não pode gastar excessivamente em defesa, especialmente diante dos atrasos na entrega de equipamentos militares pelos EUA. Ela também acusou o presidente Lai, considerado um separatista por Pequim, de ocultar detalhes sobre a destinação dos recursos. Para Cheng, é fundamental evitar qualquer conflito no Estreito de Taiwan.
O presidente Lai alertou que os atrasos na aprovação do orçamento de defesa podem comprometer a segurança nacional e enviar uma mensagem equivocada à comunidade internacional sobre a determinação de Taiwan em se proteger. Ele afirmou que reduzir os gastos para agradar a China é uma atitude perigosa.
Ainda não está claro como a postura pró-China de Cheng será recebida pelos eleitores taiwaneses, que têm apoiado o Partido Progressista Democrático (DPP) nas últimas três eleições presidenciais. Pesquisas indicam que a confiança pública na ajuda dos EUA em um eventual conflito militar diminuiu desde o retorno de Trump à Casa Branca.
A recepção de Cheng por Xi Jinping antes da cúpula comercial com Trump tem forte simbolismo, demonstrando a disposição da liderança chinesa em dialogar com altos representantes taiwaneses e reforçando a ideia de que Pequim possui aliados em Taipei. Xi pode também tentar aproveitar a aparente ambivalência de Trump em relação às normas americanas sobre Taiwan, especialmente após declarações do presidente americano que sugerem negociações diretas com Pequim sobre vendas de armas, algo que contraria a política americana vigente desde a administração Reagan.
Especialistas alertam que qualquer negociação direta entre Washington e Pequim sobre armamentos para Taiwan pode enfraquecer a posição americana e prejudicar a capacidade de defesa da ilha. Cheng afirma que sua agenda é promover a paz e a reconciliação em um momento de instabilidade global, ressaltando que ninguém deseja ver Taiwan se tornar um novo caso como o da Ucrânia. Ela também destaca a importância do apoio sólido dos EUA e planeja uma visita ao país ainda este ano.
Antes disso, Cheng se prepara para o encontro mais importante de sua carreira política, demonstrando otimismo sobre a oportunidade de diálogo com a China continental. O desfecho dessa visita poderá influenciar significativamente as dinâmicas políticas internas em Taiwan, as relações entre Taipei e Pequim, e as negociações entre China e Estados Unidos.
Do ponto de vista estratégico, a visita de Cheng pode ser interpretada como um movimento para reduzir tensões no Estreito de Taiwan, buscando abrir canais diplomáticos que possam evitar um confronto militar. No entanto, essa aproximação pode gerar divisões internas em Taiwan, especialmente entre os que defendem uma postura mais firme contra a China e os que apostam no engajamento como forma de garantir a segurança.
Além disso, o timing da visita, pouco antes da cúpula entre Xi e Trump, sugere que Pequim pretende usar a interlocução com a oposição taiwanesa como um instrumento de pressão sobre os Estados Unidos, tentando influenciar as negociações bilaterais e a política americana em relação à ilha. Os próximos meses serão decisivos para definir se essa estratégia trará avanços na estabilidade regional ou se aprofundará as incertezas no delicado equilíbrio do Estreito de Taiwan.