Desde o massacre na École Polytechnique, em Montreal, em 1989, quando 14 mulheres foram assassinadas, o Canadá tem buscado formas de controlar armas de fogo no país. O episódio marcou uma mudança significativa na percepção pública sobre a violência armada. Em 2020, após outro tiroteio em massa, o governo federal implementou uma proibição para cerca de 2.500 modelos de armas de estilo militar, acompanhada de um programa de recompra dessas armas junto aos proprietários.
Entretanto, a execução desse programa tem enfrentado dificuldades. Muitos proprietários legais de armas demonstram desconfiança em relação ao processo, enquanto duas províncias, Alberta e Saskatchewan, recusaram-se a participar da iniciativa. Ativistas pelo controle de armas, como Heidi Rathjen, reconhecem os avanços para a segurança pública, mas criticam a abrangência limitada da proibição, que não cobre todos os modelos considerados de alto risco.
O ministro da Segurança Pública, Gary Anandasangaree, chegou a expressar dúvidas sobre a eficácia do programa em uma conversa privada que vazou, questionando a lógica da medida diante do fato de que a maioria dos crimes com armas no Canadá envolve armas ilegais. Posteriormente, ele afirmou que suas declarações foram equivocadas e reafirmou o compromisso com a iniciativa.
Comparações internacionais destacam o sucesso de programas semelhantes na Austrália e Nova Zelândia, onde grandes quantidades de armas foram recolhidas e destruídas após massacres. Especialistas apontam que o êxito desses programas se deve à rápida implementação e à integração com outras medidas de controle, além de financiamento adequado. No Canadá, a implementação fragmentada e a falta de articulação com outras políticas dificultam resultados semelhantes.
Proprietários legais de armas, como Frank Nardi, dono de uma loja em Montreal, argumentam que a legislação penaliza injustamente caçadores e atiradores esportivos que cumprem as normas. Ele também destaca falhas na comunicação do governo, que geram confusão sobre quais armas são proibidas. Além disso, questiona a lógica de banir modelos quase idênticos enquanto outros permanecem permitidos.
As províncias de Alberta e Saskatchewan adotaram posturas contrárias à aplicação do programa, com a primeira optando por não fiscalizar a medida e a segunda protegendo os proprietários de penalidades criminais até que garantias de compensação justa sejam oferecidas. Autoridades locais criticam a proibição como uma imposição ideológica sem benefícios claros para a segurança pública.
Algumas forças policiais também se recusaram a colaborar, alegando que o programa representa um ônus operacional e que seus esforços devem se concentrar no combate ao tráfico ilegal de armas. Apesar dessas resistências, pesquisas indicam que a maioria dos canadenses apoia leis mais rigorosas, incluindo a proibição de armas de estilo militar.
No Canadá, o porte de armas é rigorosamente regulado, exigindo licenciamento, cursos de segurança e verificações de antecedentes. Contudo, a proximidade com os Estados Unidos, onde as leis são mais permissivas, facilita o contrabando de armas ilegais para o território canadense. Dados recentes mostram que a maioria das armas apreendidas em crimes em Ontário tem origem nos EUA.
Nos raros casos de tiroteios em massa no Canadá, os agressores frequentemente utilizam armas longas, como rifles semiautomáticos, que nem sempre são registradas. O incidente mais recente ocorreu em fevereiro de 2024, em Tumbler Ridge, na Colúmbia Britânica, onde um jovem de 18 anos matou oito pessoas antes de cometer suicídio.
Até o momento, mais de 67 mil armas foram voluntariamente entregues por cerca de 37 mil proprietários, com um orçamento de 215 milhões de dólares canadenses destinado à recompra de até 136 mil armas. O prazo para entrega das armas foi prorrogado até 30 de outubro, quando as armas deverão ser destruídas. No entanto, a Suprema Corte do Canadá aceitou analisar um recurso contra a proibição, o que pode adiar a efetivação da medida.
Grupos contrários à proibição aconselham os proprietários a retirarem suas declarações até a decisão judicial, e consideram solicitar a extensão do período de anistia. Para ativistas como Rathjen, o atual programa é insuficiente, pois permite a compensação dos proprietários sem impedir a compra de outros modelos similares, o que pode comprometer a eficácia da política.
A situação atual evidencia os desafios de implementar políticas de controle de armas em um país com diversidade regional e opiniões divergentes. A resistência de algumas províncias e a complexidade jurídica indicam que o processo ainda enfrentará obstáculos. A decisão da Suprema Corte será crucial para definir o futuro da legislação e poderá influenciar o debate sobre segurança pública e direitos dos proprietários de armas no Canadá.
Em termos estratégicos, a fragmentação das políticas e a falta de consenso entre os governos provinciais e o federal podem enfraquecer os esforços para reduzir a violência armada. Caso a proibição seja mantida e ampliada, poderá haver um impacto positivo na segurança, mas será necessário um trabalho coordenado para garantir a adesão e a efetividade das medidas. Por outro lado, a continuidade das divergências e recursos judiciais pode atrasar ações e manter o status quo, dificultando avanços significativos no controle de armas no país.