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domingo, 04 de janeiro de 2026
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“Mão Morta” volta aos Urais: Rússia amplia bunker para garantir retaliação nuclear

Uma investigação encontrou milhões de documentos, imagens de satélite e registros militares indicando que Moscou modernizou um enorme centro subterrâneo ligado ao sistema Perimetr. A lógica é extrema: garantir que a Rússia ainda consiga responder mesmo depois de sofrer um ataque devastador.

“Mão Morta” volta aos Urais: Rússia amplia bunker para garantir retaliação nuclear

No interior dos Montes Urais, uma estrada termina diante de um enorme portão construído diretamente na encosta de uma montanha. Há soldados, postos militares e uma torre de metralhadora. Atrás da entrada começa uma rede subterrânea tão extensa que antigos militares dizem que ônibus eram usados para transportar pessoal entre seus setores.

É o chamado Objeto 1335, instalado sob a montanha Kosvinsky Kamen, uma das estruturas mais secretas associadas às forças nucleares russas. Uma investigação conjunta do Sunday Times, da organização dinamarquesa Danwatch e do Dossier Center encontrou evidências de que o complexo passou por uma enorme modernização e voltou a ocupar um papel importante no sistema conhecido no Ocidente como “Mão Morta”.

O nome parece saído de um filme, mas a lógica por trás dele nasceu de um problema real da Guerra Fria.

Se Estados Unidos ou União Soviética realizassem um ataque nuclear suficientemente rápido para destruir a liderança do adversário e seus centros de comando, quem daria a ordem para os mísseis sobreviventes responderem?

O sistema soviético Perimetr foi criado para impedir que essa pergunta tivesse uma resposta favorável ao atacante.

Segundo Pavel Podvig, especialista em forças nucleares russas citado na investigação, o Perimetr é fundamentalmente um sistema de comunicação. Caso a Rússia fosse atingida e os canais normais de comando desaparecessem, uma estrutura de reserva poderia transmitir a ordem de retaliação às forças nucleares que ainda estivessem operacionais.

Essa diferença é importante. A expressão “Mão Morta” frequentemente cria a imagem de computadores detectando uma explosão e lançando automaticamente todo o arsenal russo sem participação humana. O funcionamento exato continua secreto, e especialistas divergem sobre o nível de automação e até sobre se o sistema algum dia chegou realmente a ser desativado.

O que a nova investigação conseguiu documentar é algo mais concreto: uma construção gigantesca exatamente onde esse sistema está associado.

Pesquisadores analisaram cerca de 2,5 milhões de documentos e registros russos, incluindo licitações relacionadas ao Objeto 1335. Desde 2018, aparecem compras de máquinas para perfuração de rocha, sistemas de ventilação, equipamentos capazes de filtrar contaminação química, biológica e radioativa, quilômetros de tubulação e enormes quantidades de concreto e aço.

A escala ajuda a visualizar o projeto. Os registros indicam aproximadamente 20 mil toneladas de aço, quantidade próxima ao peso de três Torres Eiffel. Documentos também mencionam pelo menos 24 câmaras subterrâneas e mostram que o complexo passou sucessivamente por escavação, reforço estrutural, instalação elétrica, ventilação e acabamento interno.

Não parece, portanto, uma simples reforma de manutenção.

Publicações militares russas descobertas durante a investigação fornecem outra peça. Em 2022, o major-general reformado V. G. Khalin escreveu que estavam em andamento planos para colocar o sistema de automação do Perimetr em serviço experimental no Objeto 1335. No ano seguinte, segundo outro oficial russo citado posteriormente, a instalação teria entrado em serviço de combate em 2023.

A Danwatch afirma que esses registros, combinados às obras, indicam uma modernização do sistema de retaliação nuclear. O Kremlin não respondeu às perguntas enviadas pelos veículos responsáveis pela investigação.

Por que investir tanto dinheiro em um sistema concebido há mais de quatro décadas?

Porque a lógica da dissuasão nuclear depende não apenas de possuir armas, mas de convencer o adversário de que ele não conseguirá destruí-las rápido o suficiente para escapar da resposta.

Esse é o significado de uma capacidade de “segundo ataque”.

Imagine que um adversidor consiga atingir Moscou, destruir centros de comando e interromper comunicações. Se os submarinos, silos e lançadores móveis restantes não receberem ordens, milhares de ogivas podem existir e ainda assim ficar momentaneamente desconectadas da liderança.

Um centro enterrado sob centenas de metros de granito tenta garantir que essa ligação sobreviva.

A preocupação também cresce à medida que armas convencionais se tornam mais precisas. Jeffrey Lewis, especialista em política nuclear, avaliou que a Rússia pode estar reforçando estruturas desse tipo justamente porque teme capacidades americanas capazes de atingir centros de comando protegidos. O próprio Vladimir Putin afirmou em 2020 que uma instalação altamente protegida destinada ao controle das forças nucleares estratégicas estava próxima da conclusão.

Existe uma ironia nesse tipo de sistema.

Uma estrutura criada para garantir uma retaliação devastadora também pode, em teoria, reduzir a pressão para que a liderança tome uma decisão nuclear imediatamente diante de um alerta. Se Moscou acredita que continuará capaz de responder mesmo depois de ser atingida, existe menos incentivo para lançar suas armas apenas por medo de perdê-las primeiro. Um ex-funcionário americano ouvido pela Danwatch destacou justamente essa lógica.

Ao mesmo tempo, quanto maior a automação, maior a preocupação sobre quanto controle humano permanece no processo.

É por isso que o Objeto 1335 importa mais do que o tamanho de seus túneis.

O bunker não foi construído para permitir que a Rússia vença uma guerra nuclear. Foi construído para convencer qualquer adversário de que, mesmo depois de destruir seus centros de comando, ainda não conseguiria escapar dela.