Na última sexta-feira, expirou na Índia a patente do semaglutídeo, substância ativa dos medicamentos para perda de peso Wegovy e Ozempic, desenvolvidos pela empresa dinamarquesa Novo Nordisk. Com o fim da exclusividade, laboratórios indianos poderão produzir versões genéricas mais acessíveis, o que deve provocar uma queda significativa nos preços e ampliar o acesso a esses medicamentos no país e, potencialmente, em outros mercados. O banco de investimentos Jefferies prevê que o mercado doméstico de semaglutídeo pode alcançar US$ 1 bilhão, caso haja adoção e preços competitivos.
Analistas estimam que cerca de 50 versões genéricas de semaglutídeo com marcas próprias entrarão no mercado indiano nos próximos meses, seguindo o padrão já observado com outros medicamentos, como o sitagliptina, cuja patente expirou em 2022 e rapidamente gerou cerca de 30 versões em um mês e quase 100 em um ano. A indústria farmacêutica indiana, avaliada em aproximadamente US$ 60 bilhões, é reconhecida pela forte produção de genéricos, o que deve impulsionar a concorrência e a redução dos preços dos novos medicamentos para perda de peso.
Atualmente, o tratamento mensal com Ozempic custa entre 8.800 e 11.000 rúpias (aproximadamente US$ 95 a US$ 119), enquanto Wegovy varia de 10.000 a 16.000 rúpias (US$ 108 a US$ 173). Com a chegada dos genéricos, espera-se que os preços caiam para algo entre 3.000 e 5.000 rúpias (US$ 36 a US$ 54) por mês. Essa redução pode ampliar significativamente o mercado local, que já cresceu de US$ 16 milhões em 2021 para quase US$ 100 milhões, impulsionado pela introdução do Rybelsus, primeira versão oral do semaglutídeo lançada em 2022.
O crescimento da demanda está relacionado a mudanças no perfil de saúde da população indiana, que possui mais de 77 milhões de pessoas com diabetes tipo 2 e uma das maiores populações de adultos com sobrepeso no mundo. Fatores como urbanização, dietas ricas em carboidratos e estilos de vida sedentários contribuem para o aumento dessas condições. Os medicamentos à base de semaglutídeo, originalmente desenvolvidos para diabetes, atuam como agonistas do receptor GLP-1, regulando o apetite e o controle glicêmico, promovendo sensação de saciedade e retardando o esvaziamento gástrico.
Além da endocrinologia, esses medicamentos têm sido utilizados em outras áreas médicas, como cardiologia, para auxiliar pacientes a perder peso antes de procedimentos, ortopedia, para reduzir o impacto nas articulações, e pneumologia, no tratamento da apneia obstrutiva do sono. Cirurgiões bariátricos destacam que a redução dos preços pode ampliar o acesso a tratamentos para diabetes e obesidade, mas alertam para a necessidade de rigor na qualidade dos medicamentos produzidos localmente.
A Índia é o maior produtor mundial de medicamentos genéricos, com cerca de 60.000 marcas em mais de 60 categorias terapêuticas, respondendo por aproximadamente 20% da oferta global. O país é conhecido como a “farmácia do mundo”, tendo desempenhado papel crucial na redução dos custos de medicamentos antirretrovirais para HIV, beneficiando países em desenvolvimento. Atualmente, a Índia abastece mais de 200 países, suprindo mais da metade da demanda africana por genéricos, 40% dos genéricos nos Estados Unidos e cerca de 25% dos medicamentos no Reino Unido.
Especialistas apontam que o potencial de exportação dos genéricos de semaglutídeo é enorme, com o mercado americano podendo atingir US$ 10 bilhões em poucos anos, devido ao aumento da obesidade. Apesar do entusiasmo, médicos ressaltam que esses medicamentos não são isentos de riscos. Efeitos colaterais podem incluir náuseas, vômitos, problemas digestivos, além de complicações mais raras como pedras na vesícula e pancreatite. A perda rápida de peso sem acompanhamento nutricional e exercícios pode levar à perda muscular.
Há também preocupações sobre o uso inadequado, especialmente com a popularização dos genéricos mais baratos. Relatos indicam que treinadores de academia, clínicas de estética e nutricionistas têm prescrito doses elevadas sem supervisão médica adequada, e farmácias online vendem esses medicamentos após consultas superficiais. Com a maior disponibilidade, o risco de abuso aumenta, o que exige regulamentação rigorosa para garantir segurança e eficácia.
O órgão regulador indiano já emitiu orientações para evitar a promoção direta desses medicamentos ao consumidor, alertando contra propagandas que prometam resultados exagerados ou minimizem a importância da dieta e do exercício físico. A recomendação é que o uso seja sempre acompanhado por profissionais de saúde.
Do ponto de vista clínico, especialistas enfatizam que o sucesso do tratamento depende da seleção adequada dos pacientes, considerando condições associadas como diabetes e colesterol alto, e da adoção de mudanças no estilo de vida. A perda de peso deve ser gradual, com acompanhamento nutricional focado em proteínas e exercícios físicos para evitar efeitos adversos estéticos e de saúde.
Além disso, a interrupção do uso pode levar ao retorno do apetite e ao reganho de peso, o que indica que o tratamento pode precisar ser prolongado. Médicos também destacam que a pressão por resultados rápidos, alimentada por redes sociais e celebridades, pode gerar expectativas irreais e prejudicar a adesão ao tratamento.
Em resumo, a chegada dos genéricos de semaglutídeo na Índia representa uma oportunidade significativa para ampliar o acesso a tratamentos eficazes contra obesidade e diabetes, com potencial impacto global devido à capacidade exportadora do país. No entanto, o sucesso dependerá do equilíbrio entre acessibilidade, qualidade dos medicamentos, supervisão médica e educação dos pacientes para o uso responsável e integrado a mudanças no estilo de vida.
A expansão desse mercado pode transformar a indústria farmacêutica indiana, consolidando ainda mais seu papel estratégico no fornecimento mundial de medicamentos genéricos. Para os sistemas de saúde, o desafio será implementar políticas que garantam o uso racional e seguro desses medicamentos, evitando abusos e efeitos adversos. A longo prazo, o controle da obesidade e suas comorbidades pode reduzir custos com tratamentos de doenças crônicas, impactando positivamente a saúde pública e a economia.
Assim, os próximos meses serão decisivos para observar como o mercado, as autoridades regulatórias e os profissionais de saúde irão lidar com essa nova realidade, buscando maximizar os benefícios e minimizar os riscos associados ao uso ampliado dos medicamentos à base de semaglutídeo na Índia e além.