Uma investigação interna conduzida pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) revelou casos de exploração e abuso de refugiados no Chade por parte de funcionários locais e estrangeiros. O relatório, finalizado em julho de 2025, aponta que trabalhadores da organização teriam se aproveitado da vulnerabilidade de refugiados, incluindo menores de idade, em troca de comida, empregos e outros benefícios. A divulgação pública do relatório ocorreu em junho de 2026.
O documento interno detalha 59 denúncias formais de condutas inadequadas, que variam desde assédio sexual até exploração e abuso. A MSF reconhece que o número real pode ser maior, pois muitas vítimas relutaram em denunciar devido ao receio de perder acesso à assistência humanitária. Como consequência das investigações, 18 funcionários foram demitidos e proibidos de trabalhar com a organização no futuro.
A apuração teve início após uma reportagem da Associated Press em novembro de 2024, que expôs casos de mulheres sudanesas refugiadas no Chade sendo coagidas a trocar sexo por empregos e ajuda por parte de agentes humanitários e forças de segurança locais. O conflito civil no Sudão, que já dura quatro anos, deslocou centenas de milhares de pessoas para o leste do Chade, onde MSF é uma das principais organizações atuantes nos campos de refugiados.
No relatório, a MSF admite que, apesar de ter implementado medidas adicionais para prevenir abusos, como treinamentos e reforço de recursos no Chade, essas ações não foram suficientes para eliminar os problemas. A organização classificou o documento como uma análise franca das falhas em seus sistemas de proteção e prevenção.
Entre os relatos, há casos em que meninas refugiadas foram contratadas como trabalhadoras diárias e levadas para locais distintos sob o pretexto de atividades relacionadas à distribuição de água e construção, mas acabaram sofrendo abusos sexuais. Algumas vítimas optaram por não se manifestar para não comprometer o recebimento de ajuda, e em certos casos, aquelas que denunciaram não receberam o suporte necessário posteriormente.
A MSF destacou que, devido à magnitude da crise e à constante movimentação das populações refugiadas, não foi possível identificar todos os envolvidos. A organização também anunciou que está aprimorando seus mecanismos de prevenção e detecção de abusos, incluindo canais confidenciais para denúncias.
Casos semelhantes já haviam sido levantados anteriormente, como durante o surto de Ebola na República Democrática do Congo em 2021, indicando um padrão preocupante de vulnerabilidades em contextos humanitários.
A situação evidencia os desafios enfrentados por organizações internacionais na proteção de populações vulneráveis em zonas de conflito e deslocamento forçado. A manutenção da integridade das operações humanitárias é fundamental para garantir que a ajuda chegue de forma segura e eficaz aos necessitados.
Em termos estratégicos, a exposição desses abusos pode comprometer a credibilidade e a confiança nas organizações humanitárias, dificultando o acesso a áreas críticas e a cooperação com autoridades locais. A MSF e outras entidades precisarão reforçar suas políticas internas e a fiscalização para evitar que tais práticas se repitam.
Além disso, a situação no Chade ressalta a necessidade de maior vigilância internacional e mecanismos de proteção mais robustos para refugiados, especialmente mulheres e crianças, que são os grupos mais suscetíveis a abusos. O fortalecimento dessas medidas será crucial para mitigar riscos e garantir a segurança dos deslocados em um cenário de conflito prolongado e instabilidade regional.