Um navio de guerra russo efetuou disparos de advertência próximo a um iate registrado no Reino Unido no Canal da Mancha na manhã de terça-feira. O incidente envolveu a fragata russa Admiral Grigorovich e ocorreu entre a Ilha de Wight e a Normandia, pouco antes do meio-dia. O iate, sem motor, teria se aproximado do navio de guerra em condições de neblina após partir do Reino Unido, segundo relatos.
O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que o iate realizou uma aproximação considerada perigosa em direção à fragata. Após várias tentativas de contato via rádio e o lançamento de sinalizadores de advertência, a tripulação russa disparou tiros para impedir a aproximação. As autoridades russas destacaram que as ações foram conduzidas em estrita conformidade com as normas internacionais de navegação.
O Ministério da Defesa britânico está investigando o ocorrido. Uma fonte do governo do Reino Unido informou que um casal na faixa dos 60 anos estava a bordo do iate no momento do incidente. Eles não ouviram o sinal sonoro emitido pela fragata russa. Não houve relatos de feridos ou danos materiais.
Este episódio acontece poucos dias após uma operação dos Comandos da Marinha Real Britânica, que interceptaram um petroleiro da chamada "frota fantasma" russa transportando petróleo sancionado no Canal da Mancha, uma ação inédita das forças britânicas. No entanto, autoridades britânicas indicam que o incidente com o iate não está relacionado a essa operação.
Navios de guerra russos passam regularmente pelo Canal da Mancha em águas internacionais e são monitorados rotineiramente pela Marinha Real Britânica. A fragata Admiral Grigorovich estava sendo acompanhada pelo HMS Mersey durante o incidente. No dia anterior, a Marinha britânica informou que a fragata foi monitorada pelos navios HMS Tyne e HMS Mersey em uma operação rotineira após ser avistada próximo à costa de Brest, na França.
Na manhã de terça-feira, as autoridades britânicas receberam relatos dos ocupantes do iate informando que a fragata russa disparou tiros de advertência a cerca de 500 jardas (aproximadamente 457 metros), uma distância relativamente curta para padrões marítimos. O evento ocorreu a cerca de 20 milhas náuticas (aproximadamente 23 milhas terrestres) ao sul da Ilha de Wight, fora das águas territoriais do Reino Unido.
Fontes da OTAN indicaram que a Admiral Grigorovich recebeu ordens de Moscou para escoltar navios da "frota fantasma" através do Canal da Mancha. A fragata tem operado na região por um período prolongado e tem sido reabastecida regularmente por um navio de reparos, o PM-82, que tem atuado entre o Canal da Mancha e o Mar do Norte nos últimos meses.
Imagens de satélite analisadas mostram o PM-82 fornecendo suprimentos como alimentos e água para a Admiral Grigorovich, permitindo que a fragata permaneça no mar por longos períodos e lidere comboios russos pelo Canal. Em abril, a fragata escoltou seis navios da "frota fantasma" na região, enquanto era monitorada pela Marinha Real.
Especialistas indicam que a resposta da Admiral Grigorovich no incidente, embora graduada e possivelmente proporcional em um contexto de espaço marítimo contestado, parece ter sido excessiva no caso específico do iate. Um ex-almirante da Marinha Real destacou que o uso de força armada é um último recurso, reservado para defesa própria, e sugeriu que o disparo pode ter sido resultado de um erro de cálculo, não uma ação deliberada contra o iate.
O episódio ocorre poucos dias após a apreensão do petroleiro Smyrtos, suspeito de integrar a "frota fantasma" russa, o que representa uma situação embaraçosa para a Rússia, especialmente considerando a presença da fragata russa no Canal para impedir tais operações. O contexto atual de tensões elevadas entre Reino Unido e Rússia, reforçado por alertas recentes de ministros britânicos sobre a postura agressiva russa, contribui para a amplificação do incidente.
O episódio destaca a complexidade das operações navais na região do Canal da Mancha, um ponto estratégico para o tráfego marítimo internacional. A presença contínua de navios militares russos e a atuação da "frota fantasma" desafiam as normas internacionais e a segurança regional. A investigação britânica deverá esclarecer as circunstâncias do disparo de advertência e avaliar possíveis medidas para evitar incidentes semelhantes.
A situação reforça a importância do monitoramento constante das atividades navais na região, assim como a necessidade de diálogo e protocolos claros para evitar escaladas desnecessárias. O Reino Unido deverá manter vigilância rigorosa sobre as operações russas no Canal, enquanto a OTAN acompanha de perto os movimentos da frota russa e suas implicações para a segurança marítima europeia.