A energia nuclear voltou aos planos do Sudeste Asiático num momento em que a demanda elétrica regional deve crescer, em média, 5,3% ao ano entre 2026 e 2030, segundo a Agência Internacional de Energia. A tensão é de prazo: governos buscam uma fonte capaz de diversificar o sistema no longo prazo, enquanto a pressão sobre a oferta já aumenta com a industrialização, os veículos elétricos e os data centers.
A região vem respondendo a essa pressão sobretudo com combustíveis fósseis. A geração elétrica cresceu cerca de 60% desde 2015, e o carvão forneceu a maior parte dessa expansão, elevando sua participação de 37% para 47%, calcula a IEA. O avanço dos data centers reforça a necessidade de investir não apenas em novas fontes de geração, mas também em redes elétricas e capacidade de ajustar o sistema a variações de oferta e consumo.
É nesse quadro que o nuclear ganha espaço como opção de diversificação de longo prazo. Mas os anúncios nacionais não formam ainda um programa regional em execução. Eles vão de estudos e metas de capacidade a preparativos para projetos específicos, com cronogramas extensos e incertos.
O Vietnã é o caso mais adiantado entre os planos apresentados. Sua estratégia prevê concluir as usinas Ninh Thuan 1 e Ninh Thuan 2 até 2035 e implantar ao menos um pequeno reator modular, conhecido pela sigla SMR, no mesmo horizonte. Em setembro, Petrovietnam e a sul-coreana KEPCO discutiram cooperação e preparação para Ninh Thuan 2. A reunião indica movimentação institucional, mas não equivale ao início das obras nem a um acordo final de execução.
A Indonésia incluiu 500 MW de capacidade nuclear em seu planejamento elétrico de 2025 a 2034, com operação projetada a partir de 2032 ou 2033. As Filipinas preveem pelo menos 1.200 MW em 2032. Singapura, por sua vez, ainda avalia a opção nuclear e os SMRs, sem decisão de implantação; uma revisão internacional de sua capacidade de examinar essa alternativa está prevista para 2027. A diferença importa porque estudar uma tecnologia, fixar uma meta e construir uma usina são etapas muito distintas.
Na prática, o teste para esses programas será transformar metas em licenciamento, financiamento, capacidade regulatória e obras. Por isso, o valor estratégico do nuclear hoje está menos em aliviar a pressão elétrica imediata e mais em criar uma alternativa para a próxima década. A IEA estima que a fonte poderia atender quase 10% do crescimento da demanda regional até 2050, mas somente se as metas anunciadas forem cumpridas.
O movimento, portanto, não representa uma troca rápida do carvão pelo átomo. Ele mostra que os governos passaram a tratar a expansão contínua da eletricidade como um problema que exigirá várias respostas ao mesmo tempo. O nuclear pode se tornar uma delas, mas sua contribuição dependerá de os atuais planos atravessarem a distância entre intenção política e entrega física.