A Europa enfrenta uma onda de calor severa que tem provocado níveis historicamente baixos nos rios Reno e Danúbio, impactando significativamente a geração de energia nuclear e o transporte fluvial. Esses dois rios são essenciais para a navegação comercial, servindo como importantes corredores para o comércio e fornecimento industrial entre o Mar do Norte e o Mar Negro. A escassez de água tem reduzido a capacidade de resfriamento das usinas nucleares, forçando cortes na produção de eletricidade em vários países da União Europeia.
Na Hungria, o rio Danúbio atingiu uma marca recorde de apenas 23 centímetros de profundidade em Budapeste, superando o recorde anterior de 2018. Essa situação levou a usina nuclear de Paks, principal fonte de energia do país, a reduzir sua produção para cerca de 60% da capacidade, com três dos quatro reatores operando em ritmo reduzido. O primeiro-ministro húngaro alertou que a usina pode ser desligada completamente em poucos dias, algo inédito nos últimos 44 anos, devido à impossibilidade de captar água suficiente para o sistema de resfriamento.
O governo da Hungria já iniciou medidas para enfrentar a crise energética, incluindo a mobilização de reservas internas, a negociação de importações de eletricidade e a solicitação para que grandes consumidores industriais reduzam o consumo. Além disso, incentiva a população a economizar energia, destacando que a situação atual é sem precedentes e pode exigir soluções inéditas.
Na Romênia, a usina nuclear de Cernavoda também foi afetada. Um dos dois reatores foi desligado devido à baixa vazão do Danúbio, enquanto o segundo permanece em funcionamento, mas em alerta para possível paralisação caso as condições piorem. Essa é a primeira vez que os dois reatores enfrentam simultaneamente o risco de paralisação por causa dos níveis do rio. A redução na geração nuclear nesses países pode aumentar a dependência de importações de energia e elevar os preços no mercado europeu.
Além da Hungria e Romênia, a Bulgária enfrenta risco semelhante. O ministro de Energia alertou que a usina nuclear de Kozloduy pode precisar desligar seus dois reatores em breve, o que agravaria a situação energética na região.
Na França, a estatal EDF teve que desligar um reator na usina de Golfech após o aumento da temperatura da água do rio, que ultrapassou os limites permitidos para o resfriamento. Outro complexo, Tricastin, também pode ter sua produção reduzida. A França depende fortemente da água dos rios para resfriar seus reatores, mas as regras ambientais restringem a liberação de água aquecida, o que limita a operação durante ondas de calor. Como resultado, os preços da eletricidade no país atingiram níveis elevados para o verão.
Na Suíça, a usina de Beznau, localizada no rio Aare, tem alternado entre desligamentos totais e cortes de até 50% na produção devido ao aumento da temperatura da água, que atingiu o limite regulatório de 25 graus Celsius.
Além dos impactos na geração de energia, o baixo nível dos rios tem causado sérios transtornos no transporte fluvial. Navios de carga não conseguem operar com a capacidade total, o que obriga a divisão de cargas em mais embarcações ou a transferência para transporte rodoviário e ferroviário, aumentando os custos logísticos.
Na Hungria, o tráfego de carga está praticamente paralisado, com os navios operando com apenas 10% a 20% da capacidade normal. Na Romênia, as balsas comerciais também enfrentam restrições semelhantes, e na Sérvia, centenas de embarcações estão encalhadas devido ao recuo do Danúbio. O país viu suas importações de combustível caírem para apenas 25% da meta prevista para julho, devido às dificuldades no transporte fluvial.
O rio Reno, que atravessa vários países europeus e é uma das principais rotas para o transporte de commodities como grãos, carvão e derivados de petróleo, também está em níveis críticos. Em Kaub, ponto estratégico para o transporte ao sul da Alemanha e Suíça, a profundidade navegável caiu para 29 centímetros, o menor nível desde 2018. Isso tem obrigado os operadores a usar mais embarcações para transportar o mesmo volume de carga, elevando os custos de frete.
Empresas químicas e siderúrgicas que dependem do transporte pelo Reno também estão sofrendo com a situação. A LyondellBasell declarou força maior na entrega de butadieno, enquanto a BASF alertou para possíveis faltas de produtos devido à interrupção na cadeia logística. A Thyssenkrupp, uma das maiores siderúrgicas da Alemanha, teve que reduzir a produção de metal quente por dificuldades no transporte de matérias-primas.
As previsões meteorológicas indicam que uma nova onda de calor, a quarta do verão europeu, deve atingir a região ocidental do continente nos próximos dias. Temperaturas poderão ultrapassar os 40 graus Celsius na Península Ibérica e França, chegando a 45 graus em algumas áreas. O calor intenso deve se espalhar para o centro da Europa, afetando países como Alemanha, Itália, Hungria e os Bálcãs.
Essa combinação de calor extremo e baixos níveis de água nos rios representa um desafio multifacetado para a Europa, afetando a segurança energética, a logística e a indústria. A redução da produção nuclear e o aumento dos custos de transporte tendem a pressionar os mercados de energia e commodities, especialmente em um contexto já marcado por tensões geopolíticas e restrições no fornecimento de gás natural.
Em termos estratégicos, os países europeus precisarão acelerar a diversificação das fontes de energia e fortalecer a resiliência das cadeias logísticas para mitigar os impactos de eventos climáticos extremos. A dependência de rios para resfriamento das usinas e transporte de cargas mostra vulnerabilidades que podem ser agravadas com a frequência crescente de ondas de calor. A coordenação regional para gestão dos recursos hídricos e a adaptação das infraestruturas serão cruciais para garantir a estabilidade energética e econômica no médio prazo.