O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã tem provocado impactos significativos na região do Oriente Médio, com repercussões diretas para países como Índia e Paquistão. Enquanto a Índia enfrenta desafios econômicos e energéticos decorrentes da instabilidade, o Paquistão tem buscado se posicionar como um ator diplomático relevante, tentando mediar o conflito. Um mês após o início das hostilidades, Islamabad anunciou a intenção de sediar negociações entre Washington e Teerã, embora nenhum dos dois países tenha confirmado oficialmente o papel do Paquistão nesse processo.
Por sua vez, a Índia adotou uma abordagem mais reservada, enfatizando a necessidade de moderação e evitando envolvimento direto na mediação. O governo indiano tem priorizado a segurança energética e a proteção dos milhões de trabalhadores indianos na região do Golfo, que acompanham os desdobramentos com preocupação crescente. O primeiro-ministro Narendra Modi classificou o conflito como preocupante, mas ressaltou a resiliência da economia indiana diante das dificuldades, como a alta nos preços do combustível e a desvalorização da rúpia.
No cenário político interno, a postura do governo Modi tem sido alvo de críticas da oposição. Líderes do Congresso, como Rahul Gandhi e Jairam Ramesh, questionam a estratégia diplomática adotada, classificando-a como ineficaz diante da atuação mais visível do Paquistão. Ramesh destacou que, apesar dos sucessos militares da Índia na operação Sindoor contra o Paquistão em 2025, Islamabad tem conseguido gerir melhor sua narrativa e engajamento diplomático.
Especialistas apontam que o papel do Paquistão como possível mediador confere ao país maior visibilidade internacional, especialmente em Washington, posicionando-o como um interlocutor útil em um momento de tensão elevada. No entanto, essa atuação é vista como tática e limitada, sem alterar significativamente o equilíbrio estratégico regional.
Analistas independentes, como Shanthie Mariet D'Souza, presidente do fórum Mantraya, observam que a Índia tem tratado o conflito como um evento distante que não exige intervenção direta, o que contrasta com esforços anteriores para se posicionar como mediadora em outras crises, como a guerra na Ucrânia. Essa postura pode preservar a popularidade do governo Modi no curto prazo, mas um prolongamento do conflito com impactos econômicos pode afetar sua aprovação.
D'Souza também ressalta que a falta de neutralidade da Índia limita sua capacidade de mediação e compromete sua reivindicação de autonomia estratégica. Harsh Pant, do Observer Research Foundation, reforça que a duração do conflito será determinante para os efeitos políticos internos na Índia. Ele destaca que a Índia tem demonstrado solidariedade com países árabes, onde mantém relações importantes, o que é estratégico para proteger seus interesses na região.
O ministro das Relações Exteriores da Índia, S. Jaishankar, deixou claro que o país não pretende atuar como intermediário no conflito, diferentemente do Paquistão. Essa posição reafirma a busca da Índia por uma política externa independente, sem se envolver diretamente em disputas conduzidas por outras potências.
Modi enfatizou que, apesar dos desafios na segurança energética causados pelo conflito e pelas interrupções no Estreito de Ormuz, o governo está garantindo o abastecimento interno por meio do uso de reservas estratégicas, diversificação das fontes de importação e esforços diplomáticos para reduzir tensões.
Ajay Bisaria, ex-alto comissário da Índia no Paquistão, avalia que, embora a Índia não enfrente consequências políticas imediatas, sua abordagem cautelosa pode ser interpretada como falta de influência ativa na região, especialmente em comparação com a postura mais assertiva do Paquistão. Ele destaca que o papel do Paquistão é mais de facilitador tático, historicamente atuando como canal para a diplomacia dos EUA, mas sem alterar o equilíbrio estrutural de poder com a Índia.
Bisaria reforça que a Índia mantém uma posição de equilíbrio e autonomia estratégica de longo prazo, e o desafio é transformar essa postura em influência visível quando surgirem oportunidades diplomáticas. O Paquistão, por sua vez, ganha relevância temporária e visibilidade internacional, especialmente em Washington, mas não altera a superioridade econômica e estratégica da Índia no cenário global.
Em síntese, o conflito no Irã expõe diferentes estratégias adotadas por Índia e Paquistão, com Islamabad buscando protagonismo diplomático imediato e Nova Délhi mantendo uma postura mais reservada e focada em seus interesses internos e regionais. Essa dinâmica pode influenciar as relações bilaterais e o posicionamento dos dois países em futuras crises geopolíticas.
Análise estratégica: A atuação do Paquistão como possível mediador no conflito do Irã pode aumentar sua capital político-diplomático a curto prazo, especialmente perante os EUA, que buscam canais de diálogo alternativos. No entanto, essa visibilidade não necessariamente se traduzirá em ganhos estratégicos duradouros, dado o peso econômico e político da Índia na região. Para Nova Délhi, a decisão de evitar um envolvimento direto preserva sua autonomia e evita riscos políticos internos, mas pode limitar sua capacidade de influenciar desdobramentos em um cenário de alta volatilidade.
No médio prazo, a Índia poderá buscar formas de ampliar sua influência diplomática, aproveitando sua diversificação de parcerias e recursos estratégicos para atuar em múltiplas frentes. Já o Paquistão enfrenta o desafio de converter sua atuação tática em ganhos concretos, sem comprometer sua estabilidade interna e relações internacionais. A evolução do conflito e a resposta das potências globais serão determinantes para o reposicionamento desses atores no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio e Ásia do Sul.