Durante uma sessão no Parlamento Europeu, a deputada polonesa Ewa Zajaczkowska-Hernik rasgou publicamente uma bandeira da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), grupos associados a colaborações nazistas e a massacres de civis poloneses durante a Segunda Guerra Mundial. O ato ocorreu em meio a um debate sobre o pedido de adesão da Ucrânia à União Europeia, gerando repercussões diplomáticas entre Varsóvia e Kiev.
Zajaczkowska-Hernik, membro do grupo político Patriotas pela Europa e professora de história, criticou duramente a glorificação da UPA na Ucrânia, destacando que a organização foi responsável por assassinatos em massa de poloneses étnicos, com estimativas de até 100 mil vítimas, especialmente na região de Volínia entre 1943 e 1944. A parlamentar ressaltou que a Polônia reconhece esses eventos como genocídio, enquanto a Ucrânia rejeita essa classificação e promove figuras como Stepan Bandera, líder da OUN, como heróis nacionais.
O episódio também está ligado a uma controvérsia diplomática recente, desencadeada pela decisão do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky de nomear uma unidade das forças especiais ucranianas como 'Heróis da UPA'. Essa ação provocou a indignação do presidente polonês Karol Nawrocki, que qualificou a medida como ultrajante e revogou a concessão da Ordem da Águia Branca a Zelensky, a mais alta condecoração da Polônia. Em resposta, autoridades ucranianas devolveram prêmios concedidos pela Polônia.
No discurso, Zajaczkowska-Hernik enfatizou os crimes de guerra cometidos pela UPA, mencionando métodos brutais de assassinato de civis, incluindo mutilações e execuções de mulheres grávidas e crianças. Ela argumentou que a admissão da Ucrânia na União Europeia seria incompatível com a veneração de uma organização com esse histórico. A parlamentar comparou a situação com a hipótese de um país europeu homenagear publicamente a SS nazista, o que seria imediatamente rejeitado pela comunidade internacional.
Além disso, a deputada criticou o relatório da Comissão Europeia sobre a candidatura da Ucrânia, que aborda direitos fundamentais e não discriminação, mas não menciona a questão da glorificação de colaboradores nazistas ou os crimes de genocídio. Segundo ela, essa omissão representa uma nova forma de silenciamento das vítimas desses eventos históricos.
O ministro da Defesa da Polônia, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, também declarou que a Ucrânia não poderá ingressar na União Europeia enquanto continuar a exaltar figuras como Bandera e a OUN-UPA, afirmando que a Polônia manterá sua posição sobre o assunto sem interferência externa.
Em busca de amenizar as tensões, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, visitou Varsóvia para reuniões com seu homólogo polonês, Radoslaw Sikorski. Durante o encontro, propôs a criação de um pacote anti-crise, incluindo mesas-redondas históricas para discutir o tema, ressaltando que Ucrânia e Polônia compartilham um inimigo comum, a Rússia. Sikorski respondeu com cautela, destacando a preferência pela diplomacia discreta, enquanto seu vice, Marcin Bosacki, deixou claro que Varsóvia espera uma revisão da designação da unidade ucraniana.
Este incidente reflete as complexas relações históricas e políticas entre Polônia e Ucrânia, que influenciam diretamente o processo de integração europeia da Ucrânia. A controvérsia sobre a memória histórica e a interpretação dos eventos da Segunda Guerra Mundial permanece um ponto sensível, com implicações para a cooperação bilateral e o alinhamento estratégico na região.
A continuidade do debate sobre a adesão da Ucrânia à União Europeia dependerá, em parte, da capacidade de Kiev em abordar essas questões históricas de forma que não comprometa a confiança dos países membros, especialmente da Polônia. O episódio também pode impactar a dinâmica interna da UE, que enfrenta desafios para manter a unidade em temas de segurança, direitos humanos e memória histórica.
No cenário geopolítico, a disputa sobre a glorificação da UPA pode influenciar as alianças regionais e o posicionamento frente ao conflito com a Rússia. A Polônia, como país vizinho e membro influente da União Europeia e da OTAN, exerce papel decisivo na definição das políticas europeias em relação à Ucrânia. Assim, a resolução dessas divergências históricas é crucial para o fortalecimento da cooperação e para a estabilidade regional a médio e longo prazo.