As primárias do Partido Democrata em Nova York, realizadas em 22 de junho de 2026, representam um momento crucial para determinar os candidatos que disputarão as eleições de meio de mandato em novembro. A votação é decisiva para a composição do Congresso dos Estados Unidos, influenciando diretamente a capacidade legislativa do presidente Donald Trump em seus últimos dois anos de mandato. Em Nova York, a maioria dos distritos eleitorais é fortemente inclinada à esquerda, o que assegura a vitória dos candidatos democratas vencedores das primárias em muitos desses locais. No entanto, regiões como Long Island e o Vale do Hudson apresentam disputas mais equilibradas, podendo impactar a maioria na Câmara dos Representantes.
Um dos principais embates ocorre no 10º Distrito, que abrange o sul de Manhattan e o norte do Brooklyn, onde o progressista Brad Lander desafia o atual congressista Dan Goldman. Lander, ex-controlador da cidade de Nova York, mantém uma postura crítica em relação às ações militares de Israel em Gaza, qualificando-as como genocídio e classificando o controle israelense nos territórios palestinos como apartheid. Apesar disso, defende o direito de Israel existir como Estado judeu e rejeita o movimento de boicote, desinvestimento e sanções (BDS). Sua trajetória política também foi questionada por ativistas pró-Palestina devido a investimentos em fundos de pensão da cidade ligados a empresas de defesa israelenses.
Por outro lado, Goldman tem se posicionado como um apoiador de Israel, embora critique o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ele nega que as ações israelenses constituam genocídio ou apartheid e recebeu apoio de organizações como a American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), embora tenha devolvido doações diretas do grupo. Também conta com o respaldo da governadora de Nova York, Kathy Hochul, e da ex-presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi. As pesquisas indicam uma disputa acirrada entre os dois candidatos.
Outro foco importante está no 13º Distrito, que inclui partes do alto Manhattan e do Bronx, onde a candidata Darializa Avila Chevalier, apoiada pelos Democratas Socialistas da América (DSA), desafia o veterano Adriano Espaillat, que ocupa o cargo desde 2017. Avila Chevalier, uma organizadora comunitária de 32 anos, defende reformas profundas em áreas como polícia, sistema prisional e imigração federal, além de apoiar os direitos palestinos. Espaillat, o primeiro congressista eleito nos EUA que foi imigrante indocumentado, adota uma abordagem mais gradualista e tem o apoio de AIPAC. A campanha tem sido marcada por críticas mútuas, incluindo controvérsias sobre declarações antigas da candidata nas redes sociais.
No 7º Distrito, que cobre partes do norte do Brooklyn e Queens, a disputa entre a deputada estadual Claire Valdez e o presidente do Brooklyn Borough, Antonio Reynoso, também reflete diferentes vertentes do progressismo. Ambos defendem o fim da agência de imigração ICE e a suspensão da ajuda militar dos EUA a Israel, mas apresentam estilos e apoios distintos. Reynoso conta com o apoio de sindicatos e do partido Working Families, assim como da atual congressista Nydia Velazquez. Valdez, que se mudou para Nova York em 2015, é vista como representante da nova geração de moradores profissionais da cidade.
Em Manhattan, o 12º Distrito apresenta uma primária com oito candidatos, incluindo Jack Schlossberg, neto do ex-presidente John F. Kennedy, que busca sua primeira eleição. Outros concorrentes são Alex Bores, focado em regulação de inteligência artificial, e George Conway, ex-Republicano e crítico do presidente Trump. Schlossberg liderava inicialmente as pesquisas, mas Bores e Micah Lasher ganharam força nas últimas semanas.
Além disso, o Partido Democrata tenta conquistar o 17º Distrito, no Vale do Hudson, atualmente representado pelo republicano Mike Lawler. Apesar da tendência democrata da região, Lawler venceu facilmente o democrata Mondaire Jones em 2024. Cinco candidatos disputam as primárias para tentar derrotar Lawler, com perfis que vão do centrista ao progressista, incluindo ex-militares e ativistas.
As primárias de Nova York refletem uma disputa interna significativa dentro do Partido Democrata, evidenciando a influência crescente dos socialistas democráticos e a tensão entre diferentes visões sobre políticas internacionais, especialmente em relação a Israel e Palestina. A polarização sobre esses temas pode afetar o alinhamento do partido e sua estratégia eleitoral nas eleições de meio de mandato.
Do ponto de vista estratégico, a vitória de candidatos mais à esquerda pode sinalizar uma mudança no equilíbrio de poder dentro do Partido Democrata, influenciando a agenda legislativa e as prioridades em temas como reforma policial, imigração e política externa. Por outro lado, a resistência de figuras mais moderadas e o apoio de grupos tradicionais indicam que o partido permanece dividido, o que pode impactar sua coesão e capacidade de mobilização nas eleições gerais.
Nos próximos meses, será fundamental observar como os vencedores das primárias consolidarão suas bases eleitorais e se conseguirão ampliar seu apelo para além dos eleitores progressistas. A dinâmica dessas disputas em Nova York pode servir de indicativo para tendências nacionais, especialmente em um cenário político marcado por desafios econômicos e debates sobre direitos civis e segurança internacional.