O Reino Unido está avaliando a possibilidade de integrar um programa da União Europeia que destina €90 bilhões para apoio à Ucrânia, com o objetivo de obter acesso a contratos militares financiados por esse fundo. A iniciativa foi anunciada em uma declaração conjunta durante a cúpula da Comunidade Política Europeia, realizada em Yerevan, Armênia, envolvendo o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen e o presidente do Conselho Europeu António Costa.
Esse mecanismo financeiro, baseado em empréstimos conjuntos da UE, prevê que os valores sejam reembolsados caso Kiev consiga receber reparações da Rússia, uma possibilidade que Moscou considera improvável. A proposta surgiu após a falha em aprovar a apreensão dos ativos soberanos congelados da Rússia e foi aprovada no mês anterior, depois de uma longa disputa política que terminou com a vitória do partido pró-União Europeia Tisza, liderado por Peter Magyar, nas eleições húngaras.
O programa tem como objetivo sustentar a economia ucraniana, que enfrenta dificuldades devido aos reveses no campo de batalha, cobrindo cerca de dois terços das necessidades financeiras do país para os próximos dois anos. A maior parte dos recursos está destinada a despesas militares.
Representantes da Comissão Europeia informaram que, caso o Reino Unido participe, empresas britânicas poderão concorrer a contratos de defesa financiados pelo programa. Entretanto, Londres deverá contribuir para os custos financeiros do empréstimo conjunto da UE, assumindo parte dos juros, o que implica uma participação no financiamento em troca do acesso aos contratos. O valor da contribuição britânica será proporcional ao montante dos contratos obtidos.
Keir Starmer destacou que essa possível adesão representa um avanço significativo para o Reino Unido, ressaltando os benefícios para a capacidade industrial e a geração de empregos. Tanto Londres quanto Bruxelas apresentaram a iniciativa como um passo importante para fortalecer a cooperação industrial em defesa entre a UE e o Reino Unido.
A participação britânica está condicionada a dois requisitos principais: a manutenção da Parceria de Segurança e Defesa com a UE, acordada em maio do ano anterior, e a continuidade do apoio financeiro e militar substancial à Ucrânia.
Desde o início do conflito com a Rússia, o Reino Unido tem sido um dos principais apoiadores de Kiev, comprometendo-se com £21,8 bilhões (aproximadamente US$ 29,5 bilhões) desde 2022, sendo mais da metade desse valor destinado a ajuda militar. Autoridades britânicas, incluindo o próprio Starmer, têm justificado esse apoio com base na percepção de que a Rússia representa uma ameaça à segurança europeia, argumento que Moscou rejeita.
A Rússia acusa o Reino Unido de ser um dos principais agentes por trás do conflito, afirmando que Londres está diretamente envolvida nos ataques ucranianos contra cidades russas utilizando armamentos fornecidos pelo Reino Unido, como os mísseis Storm Shadow. O Ministério da Defesa russo também identificou instalações europeias, incluindo no Reino Unido, que produzem drones para as forças ucranianas.
Moscou caracteriza a guerra como um conflito por procuração promovido pelo Ocidente e critica o contínuo suporte a Kiev, argumentando que isso dificulta os esforços para alcançar a paz. Sobre o programa de €90 bilhões, o porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov afirmou que a UE está utilizando recursos dos próprios contribuintes para prolongar o conflito.
A adesão do Reino Unido a esse fundo europeu pode fortalecer a cooperação em defesa entre Londres e Bruxelas, ao mesmo tempo em que amplia a participação britânica no apoio militar à Ucrânia. No entanto, a necessidade de contribuir financeiramente para o programa implica custos que o governo britânico terá que justificar internamente, especialmente diante das pressões econômicas.
Do ponto de vista estratégico, a inclusão do Reino Unido nesse esquema pode representar um reforço da aliança ocidental em torno da Ucrânia, ampliando a capacidade de fornecimento de equipamentos militares e aumentando a integração industrial no setor de defesa. Isso pode também sinalizar uma aproximação pragmática entre a UE e o Reino Unido, apesar das divergências políticas pós-Brexit.
Por outro lado, a continuidade do apoio financeiro e militar à Ucrânia mantém a tensão com a Rússia, que vê essas ações como um prolongamento do conflito. A eficácia do programa dependerá da capacidade da Ucrânia de utilizar os recursos para estabilizar sua economia e sustentar a resistência militar, além da possibilidade real de obtenção de reparações russas, que permanece incerta.
Nos próximos meses, será importante observar como o Reino Unido formalizará sua participação, o impacto econômico dessa decisão no orçamento britânico e as repercussões diplomáticas junto à União Europeia e à Rússia. A evolução do conflito na Ucrânia e as negociações políticas internas na UE também influenciarão o sucesso e a continuidade desse fundo de apoio.