Em Manhattan, no bairro Upper West Side, um novo restaurante palestino chamado Hinds Hall tem atraído atenção não apenas pela culinária, mas também pelo posicionamento político expresso em seu cardápio e decoração. O estabelecimento, que faz parte da rede Ayat, conhecida por oito unidades na cidade, abriu suas portas recentemente e se apresenta como um espaço de acolhimento para palestinos, seus apoiadores e também para judeus, conforme indica uma placa na entrada que destaca a convivência entre muçulmanos, judeus e cristãos.
O cardápio do restaurante traz mensagens políticas claras, com frases como "Abaixo a ocupação" escritas em inglês, árabe e hebraico. Nas paredes internas, palavras como "Resiliência", "Liberdade" e "Salvem nossas crianças" reforçam o tom de protesto e resistência. Além disso, o mapa que ilustra o menu apresenta toda a região da Cisjordânia, Gaza, Jerusalém e o território de Israel como Palestina, usando os nomes árabes das cidades e omitindo cidades israelenses como Tel Aviv e Eilat.
A seção de frutos do mar do cardápio é intitulada "Da casca à semente", uma referência indireta ao slogan de protesto "Do rio ao mar, a Palestina será livre", que é associado ao movimento anti-sionista. Apesar do posicionamento político, o restaurante busca incluir a comunidade judaica, promovendo eventos como um jantar gratuito de Shabat em 2024 que reuniu centenas de pessoas.
O nome Hinds Hall é uma homenagem a Hind Rajab, uma menina palestina de cinco anos que morreu em Gaza e que se tornou um símbolo para ativistas pró-Palestina. O nome também foi adotado por estudantes da Universidade Columbia, próxima ao restaurante, que ocuparam um prédio no campus e o renomearam como Hind's Hall em protesto, gerando controvérsia e tensões locais.
O fundador da rede, Abdul Elenani, de origem egípcio-americana, afirmou que o nome do restaurante visa manter viva a memória da criança, embora tenha criticado os danos causados pelos manifestantes na universidade. A rede Ayat planeja expandir para outras cidades americanas, incluindo Filadélfia e Washington, DC.
No entanto, a recepção do restaurante entre a comunidade judaica local é mista. Muitos residentes judeus centristas veem o nome e o posicionamento político do estabelecimento como problemáticos, associando-os a um movimento que, em suas manifestações, tem exibido retórica agressiva e episódios de discriminação contra judeus. Protestos pró-Palestina na região têm gerado confrontos e aumento da tensão, levando a uma maior procura por aulas de autodefesa entre os moradores judeus.
Restaurantes israelenses na cidade, por sua vez, têm sido alvo de vandalismo e acusações por parte de grupos pró-Palestina, mas não há relatos de retaliação organizada contra Hinds Hall. Ainda assim, a associação do restaurante com a causa palestina e o movimento anti-sionista pode limitar sua aceitação entre parte da população local.
O restaurante não adota discursos extremistas comuns em outros grupos anti-Israel, como acusações de genocídio ou apartheid, mas também não reconhece a existência do Estado de Israel, referindo-se apenas à "ocupação". A rede mantém uma postura que pode ser vista como uma faceta moderada do movimento anti-sionista, evitando confrontos diretos, mas também não promovendo diálogo com o Estado israelense.
Em termos culinários, o restaurante oferece pratos tradicionais do Oriente Médio, como hummus, baba ghanoush, tabule e pratos com frango e especiarias típicas, que têm sido elogiados pelos clientes. O ambiente é descrito como acolhedor, com uma equipe atenciosa e uma clientela majoritariamente jovem.
Do ponto de vista estratégico, o surgimento de um restaurante com posicionamento político tão explícito em um bairro com grande população judaica pode intensificar as divisões locais e influenciar o debate público sobre o conflito israelo-palestino na diáspora. A expansão da rede para outras cidades americanas sugere que a questão palestina continua a mobilizar setores da sociedade, especialmente entre jovens e ativistas.
Para os próximos passos, é provável que o restaurante mantenha seu posicionamento político, buscando equilibrar a promoção da cultura palestina com a inclusão de diferentes grupos. No entanto, a reação da comunidade judaica e as tensões locais podem limitar seu alcance e gerar desafios para a convivência pacífica no bairro. O caso também ilustra como espaços culturais e gastronômicos podem se tornar arenas simbólicas para disputas políticas globais, refletindo e ampliando conflitos internacionais em contextos urbanos nos Estados Unidos.