A recente decisão da minoria curda na Síria de dissolver sua autonomia de quase 14 anos e integrar suas forças armadas ao Exército sírio central marca uma mudança significativa no equilíbrio político e militar do país. Durante a guerra civil iniciada em 2011, os curdos consolidaram controle sobre vastas áreas no nordeste sírio, incluindo regiões ricas em petróleo, buscando manter uma autonomia pós-conflito. No entanto, a mudança nas circunstâncias políticas levou ao fim desse experimento de autogoverno, com a administração central assumindo o controle das áreas anteriormente curdas.
Esse movimento tem implicações diretas para a província de Sweida, no sul da Síria, onde reside a minoria drusa, que permanece como o único grupo que não reconhece a autoridade do governo central. A resistência drusa, liderada por figuras como Sheikh Hikmat al-Hijri, mantém uma postura de autonomia, apoiada por milícias locais e com laços estratégicos com Israel. Essa aliança reflete uma visão política que previa uma Síria fragmentada, com zonas autônomas para diferentes grupos étnicos e religiosos, incluindo alauítas, curdos e drusos.
A dissolução da autonomia curda inviabiliza essa visão descentralizadora, pressionando os drusos a reconsiderar sua posição. Apesar das declarações públicas de al-Hijri sobre afinidades religiosas e políticas com Israel, a anexação de Sweida por Israel é considerada impraticável devido a fatores demográficos e geográficos, além da dependência da província dos serviços públicos fornecidos por Damasco.
O afastamento das forças governamentais de Sweida teve início após violentos confrontos entre drusos e beduínos em julho de 2025, que resultaram em mais de 1.700 mortes e agravaram a desconfiança drusa em relação ao governo sírio. Tentativas de negociação mediadas por Jordânia e Estados Unidos não avançaram, e a justiça para os responsáveis pelos conflitos permanece limitada. O governo sírio adotou uma estratégia cautelosa, evitando confrontos militares diretos para não aprofundar a divisão local nem abrir espaço para interferências externas.
Internamente, a liderança drusa em Sweida exerce controle autoritário, com apoio financeiro e militar israelense, dificultando qualquer oposição interna significativa. A resolução do impasse depende, em grande medida, de fatores externos, especialmente do papel de Israel e dos Estados Unidos. Enquanto Washington defende a unidade síria, Israel favorece a fragmentação do país como forma de reduzir ameaças.
Negociações entre Síria e Israel para reativar acordos de segurança de 1974 foram interrompidas no final de 2025, mas o desfecho dessas tratativas pode influenciar diretamente o futuro político de Sweida e a posição dos drusos. Assim, o cenário atual revela uma Síria em processo de reintegração territorial, porém ainda marcada por tensões étnicas e religiosas que desafiam a estabilidade regional e as alianças estratégicas, com potências externas desempenhando papéis decisivos na configuração do equilíbrio de poder.