Ahmad Badreddin Hassoun, que ocupou o cargo de grande mufti da Síria entre 2005 e 2021, enfrenta julgamento em Damasco com possibilidade de receber a pena de morte. O veredito deve ser anunciado pela Quarta Corte Criminal da capital síria, especializada em casos de justiça transitória, após o início do processo em 25 de junho de 2026.
Hassoun foi detido no aeroporto de Damasco em março de 2025, após ter ficado desaparecido desde a queda do governo de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024. Conhecido por seu apoio incondicional ao regime de Assad, ele ganhou notoriedade por discursos que desumanizavam opositores e por estreitas relações com autoridades estatais e de segurança durante o governo do presidente deposto.
Nascido em Aleppo em 1949, Hassoun é filho de um sheikh influente e iniciou sua carreira religiosa pregando na sua cidade natal. Entre 1990 e 1998, atuou como membro do parlamento sírio. Sua nomeação como grande mufti foi feita por Bashar al-Assad em 2005, posição que ocupou por 16 anos, período em que defendeu o diálogo inter-religioso e a separação entre religião e Estado.
Com o início da revolta síria em 2011, Hassoun manifestou apoio firme ao regime, atribuindo a instabilidade a interferências estrangeiras e classificando os opositores como terroristas. Sua postura lhe rendeu o apelido de “grande mufti das bombas de barril”, devido ao respaldo explícito às ações militares do governo contra insurgentes. Em 2011, seu filho foi assassinado, fato que marcou sua trajetória pessoal e política.
Durante o julgamento, foram apresentadas diversas acusações contra Hassoun, incluindo incitação à violência, legitimação religiosa e política do regime de Assad e de milícias aliadas, além de participação em decisões que levaram à execução de prisioneiros. Organizações internacionais apontam que ele teria autorizado execuções em massa na prisão de Sednaya, onde cerca de 13 mil detentos foram mortos entre 2012 e 2017.
Além disso, Hassoun teria proferido sermões incentivando o exército sírio a combater opositores e ameaçado civis e refugiados, especialmente na província de Idlib. Ele também expressou apoio à intervenção militar de forças iranianas e russas na Síria, elogiando figuras como Qassem Soleimani, comandante da força Quds do Irã, envolvido em operações militares no país.
No decorrer do julgamento, foram expostas conexões pessoais e profissionais entre Hassoun, Bashar al-Assad, o ex-chefe de inteligência Ali Mamlouk e líderes militares e milicianos ligados ao regime. Sua influência política e religiosa, embora significativa, diminuiu nos últimos anos do governo Assad, especialmente após o fim do cargo de grande mufti em 2021, que foi extinto sem explicações oficiais.
Após a queda do regime, Hassoun tentou deixar o país, mas foi preso ao tentar embarcar para Amã, na Jordânia. Seu julgamento ocorre em um contexto de processos contra membros da antiga elite governamental, incluindo familiares de Assad, que foram condenados à morte em julgamentos realizados à revelia, já que estavam exilados na Rússia.
A decisão sobre Hassoun poderá sinalizar a continuidade ou não da aplicação de penas severas a figuras associadas ao regime deposto. Caso condenado, ele poderá ser o próximo integrante do círculo de Assad a receber a pena capital.
A situação política da Síria permanece instável, com a justiça transitória buscando responsabilizar agentes do antigo governo por crimes cometidos durante o conflito. O julgamento de Hassoun destaca o esforço do novo sistema para lidar com figuras que tiveram papel central na legitimação e sustentação do regime Assad, ao mesmo tempo em que busca consolidar a autoridade do Estado pós-conflito.
Do ponto de vista estratégico, a condenação de Hassoun pode influenciar a dinâmica interna da Síria, reforçando a ruptura com o passado autoritário e sinalizando uma tentativa de reconstrução institucional. No entanto, o processo também pode gerar tensões entre grupos que ainda apoiam o antigo regime e aqueles que buscam justiça pelas violações sofridas.
Além disso, o julgamento evidencia a complexidade do cenário sírio, onde questões religiosas, políticas e militares estão profundamente entrelaçadas. A forma como o sistema judicial tratará casos como o de Hassoun poderá afetar a percepção internacional sobre a transição política no país e o compromisso com a responsabilização por crimes de guerra e violações de direitos humanos.
Em resumo, o veredito contra Ahmad Hassoun será um marco importante no processo de justiça na Síria pós-Assad, com impactos que podem se estender para a estabilidade e reconstrução do país nos próximos anos.